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15/04/2010 - 19h30

Grécia quer negociar, pedido de ajuda é possível

Por Ingrid Melander e Michael Winfrey

ATENAS/WASHINGTON (Reuters) - A Grécia disse nesta quinta-feira que está buscando conversar com autoridades europeias e o Fundo Monetário Internacional (FMI), aumentando a possibilidade de Atenas receber bilhões de euros em empréstimos emergenciais.

Em carta à União Europeia, ao Banco Central Europeu (BCE) e ao FMI, o ministro das Finanças grego, George Papaconstantinou, propôs discussões sobre um "programa de políticas econômicas de vários anos".

Ele afirmou que isso "pode ser sustentado com a ajuda financeira de Estados-membro da zona do euro e do FMI, caso as autoridades gregas decidam solicitá-la".

O FMI anunciou que enviará uma equipe para a Atenas na segunda-feira, acompanhada por equipes da Comissão Europeia e do BCE, segundo autoridade do governo grego.

Autoridades da Grécia e do FMI salientaram que o país, que luta para financiar uma dívida muito maior que sua produção econômica anual, ainda não decidiu se irá fazer um pedido formal para ativar o mecanismo de ajuda anunciado por países da zona do euro no domingo.

Segundo a porta-voz do FMI, Caroline Atkinson, a equipe do Fundo deverá focar nas políticas gregas que poderiam formar a base para os empréstimos.

"Quando discutirmos com eles as políticas que podem formar a base, a certa altura do campeonato isso pode se transformar numa discussão de acordo (financeiro)", afirmou. Ela acrescentou que o FMI pode operar com rapidez, mas não deu um prazo específico.

Uma autoridade sênior do FMI afirmou, sob condição de anonimato, que a Grécia mostrou interesse, durante negociações preliminares, em um acordo preventivo de três anos, ao qual poderia recorrer caso precisasse.

A fonte disse ainda que para haver empréstimos europeus, que seriam parte de um pacote de assistência conjunto, precisa haver uma garantia de que isso geraria financiamento por parte do FMI. A União Europeia deixou claro que o dinheiro do FMI não deve superar um terço do total de um pacote de resgate à Grécia, embora os detalhes do acordo ainda não tenham sido discutidos, segundo a autoridade.

A missão conjunta do FMI e da UE à Grécia deve durar cerca de 15 dias e qualquer acordo será fechado pouco depois pela diretoria do FMI, afirmou a fonte.

Sob esse acordo de assistência, países da zona do euro emprestariam à Grécia até 30 bilhões de euros em seu primeiro ano, enquanto que o FMI forneceria mais um pouco, talvez 10 bilhões, ou mais, no que pode se tornar a maior operação de resgate financeiro internacional já vista.

Analistas afirmam que a Grécia, que está sendo forçada a pagar juros extremamente altos no mercado e terá que refinanciar 8,5 bilhões de euros em bônus que vencem em maio, parece estar caminhando lentamente em direção a um pedido de empréstimo emergencial.

"O fato de eles estarem solicitando esclarecimentos sobre várias questões do mecanismo sugere que estão seriamente considerando ativar o pacote", disse Bem May, economista da Capital Economics em Londres.

Em reunião de gabinete, o primeiro-ministro grego, George Papandreou, disse que a crise de dívida de seu país "criou um terrorismo psicológico em nossa economia e entre cidadãos gregos e precisamos lidar com isso. Nós precisamos assegurar a segurança e confiança".

PREÇOS DE ATIVOS GREGOS

Notícias sobre o pedido da Grécia para negociações interromperam a queda nos preços de ativos gregos nesta quinta-feira.

Ações de bancos gregos saltaram mais de 4 por cento, enquanto o spread do yield para um bônus de 10 anos do governo caiu para 4,07 pontos percentuais em relação aos Bunds alemães, dos 4,35 pontos registrados no começo do dia. O número continua próximo à máxima já registrada desde a crise grega, de 4,63 pontos percentuais, na semana passada.

Os mercados sabem que mesmo se a Grécia conseguir assistência financeira, o país ainda pode sofrer com dificuldades e instabilidade econômicas durante vários anos, já que as medidas de austeridade econômica implementadas irão piorar os efeitos da recessão.

Países da zona do euro já afirmaram que irão concecer o pacote de empréstimos de três anos a juros de cerca de 5 por cento, menos que o yield dos bônus de três anos gregos, atualmente em 7 por cento. Atkinson disse que qualquer ajuda de mais de 3 bilhões de euros à Grécia terá uma taxa de juros de 3,26 por cento.

As rigorosas condições impostas à Grécia para cortar seu déficit orçamentário ao longo dos anos também estarão ligadas aos empréstimos.

Mas qualquer decisão para oferecer os empréstimos teria que ser unânime entre os 16 países da zona do euro, e o mercado mostra preocupação de que a Alemanha possa bloquear ou adiar o acordo.

O Comissário de Assuntos Econômicos e Monetários da UE, Olli Rehn, disse nesta quinta-feira que está confiante de que a Alemanha irá interferir caso seja necessário, acrescentando que "não haverá inadimplência" por parte da Grécia.

Mas o financista bilionário George Soros, por sua vez, afirmou que o euro e a UE arriscariam quebrar caso a Alemanha recuse seu tradicional papel de unir a região.

"Os alemães sempre fizeram as concessões necessárias para o avanço da União Europeia quando se busca um acordo. Mas não mais", disse Soros ao Corriere della Sera em entrevista publicada nesta quinta-feira.

REUNIÃO DA ZONA DO EURO

Os ministros de finanças da zona do euro devem se reunir em Madri na sexta-feira para dois dias de conversas para discutir os problemas econômicos da Grécia, bem como formas de melhorar a coordenação de políticas econômicas na região e reduzir o desequilíbrio econômico que levou à crise grega.

O líder dos ministros, Jean-CLaude Juncker, disse que a UE pode precisar reformar seu tratado básico para evitar novas crises fiscais.

"Nós recorremos a esses empréstimos (para a Grécia) porque não havia outra solução sob o Tratado Europeu", disse Juncker, segundo o jornal espanhol Expansion.

"Para o futuro, teremos que instituir um mecanismo europeu sem permitir que alguns países-membros fiquem relaxados e deixem de fazer suas contas".

Em tentativa de melhorar sua capacidade de levantar recursos com a ampliação de sua base de investidores, a Grécia afirmou que pretende fazer uma emissão de bônus em dólar, além de fazer um roadshow com gestores norte-americanos. Para o mercado, tal operação pode captar cerca de 2 bilhões a 3 bilhões de dólares.

O Morgan Stanley será o principal coordenador da transação, e roadshow deve começar após 20 de abril, segundo disse à Reuters uma fonte próxima à operação nesta quinta-feira.

(Reportagem adicional de Tim Heritage, Nigel Tutt, Marcin Grajewski Marc Jones, Jan Strupczewski, Lesley Wroughton e Emily Kaiser)

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