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27/05/2010 - 21h29

ENTREVISTA-Autoridade do FMI: SDR pode ser usado contra crise

Por Ana Nicolaci da Costa

BRASÍLIA (Reuters) - O Fundo Monetário Internacional (FMI) pode considerar uma nova alocação de Direitos Especiais de Saque (SDR, na sigla em inglês) para ajudar a aliviar a crise de dívida que tem abatido os mercados há meses, disse nesta quinta-feira um diretor do organismo.

O SDR é um ativo de reserva internacional criado pelo FMI e utilizado como unidade de pagamento de empréstimos concedidos pelo Fundo composto por uma cesta de moedas.

No ano passado, o FMI transferiu uma alocação de 250 bilhões de dólares em SDRs para seus 186 países-membros, num esforço para aumentar a liquidez global em meio à crise financeira --lançando mão de um recurso que não era utilizado há 30 anos.

Isso é algo que o FMI pode fazer novamente, afirmou Paulo Nogueira Batista, que representa o Brasil e mais oito nações no conselho do organismo.

Uma crise fiscal na zona do euro vem sacudindo os mercados financeiros nas últimas semanas, e há temores de que medidas de austeridade fiscal exigidas por um plano de resgate no valor de 1 trilhão de dólares acertado entre a União Europeia (UE) e o FMI possam comprometer a já combalida recuperação.

"Uma possibilidade é propor uma nova alocação de SDRs", disse Batista à Reuters ao visitar Brasília. "Isso daria uma injeção de liquidez internacional."

O FMI teve sua influência fortalecida com a crise financeira global de 2008, conforme as economias avançadas buscaram financiamentos com o organismo para atenuar o pior golpe na economia mundial em décadas.

A crise financeira, que se originou no mercado imobiliário norte-americano, gerou uma crescente discussão entre formuladores de política monetária e acadêmicos de que o mundo não deve mais depender de uma única e dominante moeda, como o dólar, o que tem acontecido desde o fim do padrão ouro.

Joseph Stiglitz, vencedor do prêmio Nobel de economia, até pediu um novo sistema global de reserva, argumentando que o mínimo buscado deveria ser um sistema baseado nos SDRs.

Os Direitos Especiais de Saque são compostos por uma cesta com euros, ienes, libras esterlinas e dólares. Parte dos esforços para diversificar as reservas globais poderia ser feita ao ampliar o escopo de divisas que compõem a cesta de SDRs.

O ministro da Fazenda, Guido Mantega, disse na quarta-feira que está propondo ao diretor-gerente do FMI, Dominique Strauss-Kahn, que os SDRs sejam conversíveis em iuan chinês e real.

"Não é inconcebível que a cesta de moedas que forma o SDR seja ampliada para incluir divisas como o iuan chinês e o real brasileiro", afirmou Nogueira.

A influência do Brasil no cenário internacional tem crescido graças à força econômica do país e aos esforços diplomáticos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Como parte dos esforços para se projetar como um player global, o Brasil vem buscando mais representação em instituições internacionais como o FMI, mas Nogueira disse que o processo está caminhando muito lentamente.

"É uma batalha. Os europeus são muito resistentes a mudanças", afirmou Nogueira, acrescentando que essa era uma opinião sua.

O comitê de gerência do FMI apoiou um acordo acertado pelo G20 para deslocar pelo menos 5 por cento do poder de voto do Fundo para países em desenvolvimento. Autoridades do mundo emergente dizem que isso não é suficiente.

Questionado se ele acha que as economias em desenvolvimento alcançarão uma alteração de 7 por cento no poder de voto que buscam no organismo, Nogueira afirmou: "Será muito difícil".

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