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10/06/2010 - 19h21

Citricultor obtém preço melhor, mas futuro é desafiador

Por Roberto Samora

CORDEIRÓPOLIS, São Paulo (Reuters) - Após anos reclamando de preços baixos pagos pela indústria processadora de suco, produtores de laranja de São Paulo, que colhem 85 por cento da safra brasileira, estão recebendo em alguns casos os melhores valores pagos pela fruta na década.

Mas isso num quadro atípico de quebra de safra por problemas climáticos no Estado e também na Flórida (EUA), dois dos maiores produtores globais, que vislumbram nos próximos anos um futuro desafiador que inclui controle de doenças mortais aos pomares.

Só em São Paulo a incidência da praga mais temida na citricultura, o greening, aumentou 30 por cento de 2008 para 2009, segundo dados do Fundecitrus, causando a erradicação de milhões de pés de laranja no Estado.

De outro lado, fatores econômicos globais e a concorrência de outras bebidas mais baratas que o suco de laranja trazem incertezas para um mercado que teria vários motivos para seguramente ser altista, de acordo com avaliação de especialistas reunidos na 32a Semana da Citricultura, em Cordeirópolis (SP).

"O preço talvez esteja mais sustentado em função da queda de safra, tanto aqui como na Flórida. Agora, tem que haver mais investimentos em marketing, porque com o preço mais alto, perde-se espaço para outras bebidas", afirmou à Reuters o consultor Gilberto Tozatti, do Gconci, um dos palestrantes do evento nesta quinta-feira.

Tozatti, a propósito, apresentou um estudo que apontou uma queda no potencial produtivo de São Paulo, no período de dez anos, para 251 milhões de caixas de 40,8 kg, ante atuais 340 milhões de caixas, considerando vários fatores que englobam o setor, como doenças, custo de oportunidade, nível tecnológico, lucratividade, etc.

Nesta safra, cuja colheita está começando, a indústria do Brasil, o maior exportador mundial de suco de laranja, estima uma produção para suco industrializado no país de 251 milhões de caixas da fruta, uma queda de 13 por cento em relação à temporada anterior, por conta de chuvas excessivas na época da florada que, além de prejudicarem o ciclo normal da planta, causaram uma doença fúngica conhecida como estrelinha.

ALTA NO PREÇO

Uma safra menor em São Paulo e também uma quebra de 20 por cento na última colheita da Flórida elevaram os contratos feitos entre produtores paulistas e a indústria na temporada 2010/11 para 6,67 dólares por caixa, o maior valor desde 2000, quando um levantamento começou a ser feito pelo Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), da USP.

Isso representa também uma alta de 44 por cento em relação aos valores contratuais obtidos no ano passado, disse a pesquisadora Margarete Boteon, do Cepea, antes de sua palestra. Em reais, considerando a inflação nos últimos anos, o preço pago pela indústria é o melhor desde 2004, quando o mercado foi influenciado pelos furacões que prejudicaram os pomares nos EUA, acrescentou ela.

"O preço é bom, a renda é boa. Se é sustentável, tem um monte de fatores a serem considerados", comentou Boteon, lembrando que os ganhos, entretanto, não "salvam" todos os problemas após anos de baixa remuneração.

A pesquisadora observou que o resultado financeiro do produtor em 10/11 também dependerá das dívidas acumuladas no passado. "Ano passado foi terrível. Mas para aquele que não tem endividamento, é possível equalizar", declarou ela, ressaltando que facilitou nas negociações com a indústria o fato de a maioria dos produtores ter iniciado a safra sem contratos num cenário de baixa oferta.

O endividamento do setor é estimado em 1 bilhão de reais.

Boteon lembrou ainda que, se o produtor está recebendo mais pela quebra de safra, também terá menos fruta para vender, o que pode pesar negativamente.

"Estou estimando que o faturamento seja o mesmo do ano passado, vou fazer o mesmo dinheiro", disse o citricultor de Aguaí (SP) Fernando Francisco Germano, que planta em 800 hectares e prevê uma quebra de 35 por cento.

VELHA DISPUTA

Para o presidente-executivo da CitrusBR, Christian Lohbauer, que representa os exportadores, a alta nos preços verificada nesta safra demonstra que, diferentemente do que diz o setor produtivo, há concorrência pela fruta da parte da indústria, que ficou ainda mais concentrada com recente anúncio de fusão das operações da Citrosuco com a Citrovita, que superaram a gigante Cutrale.

"No mesmo período do ano passado, o citricultor estava recebendo 3,5 reais, 4 reais, e agora está recebendo 15. Isso é uma demonstração cabal de que existe concorrência entre a indústria", disse Lohbauer, durante os debates.

"Não sei se se sustenta. Gostaria que se sustentasse, mas é a hora de mostrar que o ambiente é de concorrência", adicionou ele, recebendo imediatamente uma réplica do presidente da Associtrus, Flávio Viegas, que representa os citricultores.

"Não concordo que exista concorrência. Se houver qualquer aumento de produção no ano que vem, vai ser argumento para a redução de preços", afirmou.

À Reuters, Viegas disse que espera ver concluída a investigação que se arrasta há anos da Secretaria de Defesa Econômica sobre a suposta existência de um cartel na indústria até o final de 2010.

Além de uma indenização pela suposta prática de cartel, caso seja provada a sua existência, Viegas quer estabelecer um sistema de pagamento pela fruta nos moldes do Consecana, que tem a participação da indústria.

As discussões para a criação do Consecitrus estão evoluindo com a mediação do secretário de Agricultura paulista, João Sampaio, mas de início já há discordâncias entre a Associtrus e a indústria.

Viegas quer que os processadores de suco paguem os produtores com base no valor do suco vendido na gôndola do supermercado e não nos preços futuros de Nova York. "O consumidor paga seis vezes o preço da bolsa", disse ele.

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