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26/07/2010 - 19h02

ANÁLISE-Swap sinaliza desconforto do BC com nível atual do dólar

Por Silvio Cascione

SÃO PAULO (Reuters) - A sondagem do Banco Central no mercado sobre um possível leilão de swap cambial reverso reforça a tese de que o governo trabalha com um piso informal para a taxa de câmbio, mesmo que a operação ainda não tenha sido confirmada.

Na sexta-feira, por volta de 17h40, a autoridade monetária entrou em contato com os dealers de câmbio para verificar se havia demanda por um leilão de swap reverso.

A sondagem, confirmada à Reuters por cinco instituições, provocou a alta imediata dos contratos de dólar futuro e repercutia ainda nesta segunda-feira, com alta de 0,8 por cento do dólar à vista pela manhã.

Ainda não havia confirmação sobre o retorno do Banco Central aos swaps reversos, tirados completamente de mercado ao longo de 2009, até junho, após a crise financeira global. Dos dealers que confirmaram a sondagem à Reuters, dois manifestaram interesse no instrumento --um estrangeiro e um nacional. Um brasileiro disse que não havia demanda.

Mas "essa postura, uma vez mais, vai reforçar a percepção do mercado de que o nível de 1,75 real deve ser visto como ponto importante de resistência e que as autoridades vão continuar a evitar uma valorização maior do real", escreveu Diego Donadio, analista do BNP Paribas, em relatório.

CONCENTRAÇÃO DE ENTRADAS NO FUTURO

Tecnicamente, o swap reverso atua contra uma distorção nos juros locais em dólares provocada pelo desequilíbrio entre o fluxo presente e o fluxo futuro de moeda.

A taxa do FRA (forward rate agreement) de cupom cambial de setembro, por exemplo, vinha sendo cotada nos maiores níveis desde o início de 2009, a 2,50 por cento, por causa do descasamento entre o fluxo negativo atual --de 2,93 bilhões de dólares em julho, até dia 22-- e a expectativa de entrada futura de moeda estrangeira no país.

A previsão de um forte ingresso de recursos aumentou no segundo trimestre com a oferta de ações da Petrobras prevista então para julho. Mesmo com o adiamento da operação para setembro, porém, o mercado continuou a trabalhar com uma concentração de entradas futuras por dois fatores, principalmente: operações de carry trade com os juros brasileiros em alta e a manutenção cada vez maior de moeda estrangeira por exportadores no exterior.

Conforme classificou um analista de um banco estrangeiro, que preferiu não ser identificado, a oferta de dólares e a demanda por reais se deslocou do mercado à vista para o futuro. É natural, portanto, que a intervenção do BC se concentre também nesse ambiente, com a compra futura de dólares.

Um profissional da mesa de operações de um dealer nacional se expressou de forma parecida. "Está cada vez mais difícil para o BC comprar no mercado à vista", disse. Segundo a própria autoridade, os bancos já carregam 12,950 bilhões de dólares em posições vendidas no mercado à vista.

BC MANTÉM AS COMPRAS NO MERCADO À VISTA

Por que, então, o BC não interrompe as compras de dólares no mercado à vista, em vez de incrementar a intervenção com os swaps reversos?

"Deixar de comprar é o jeito mais fácil de deixar o mercado se equilibrar. Mas o mercado pode se equilibrar num nível de spot (dólar à vista) mais baixo", disse o analista do banco estrangeiro.

Em relatório divulgado há pouco mais de uma semana, analistas do JPMorgan afirmaram também que, "enquanto as compras de dólares no mercado à vista têm oficialmente só o objetivo acumular reservas, a intervenção por meio de swaps tem o objetivo mais claro de corrigir distorções de preço e isso sempre levanta questões sobre o que o BC vê como 'valor justo' para a taxa de câmbio".

A intervenção do governo sobre a taxa de câmbio tem sido assunto importante no mercado desde o último trimestre do ano passado, quando o Tesouro ameaçou usar o Fundo Soberano para comprar dólares. A atuação não ocorreu, mas a ameaça bastou para evitar que o dólar caísse abaixo de 1,70 real.

Já o BC, que não admite ter uma cotação de referência para o câmbio, fez dois leilões de compra no mesmo dia em três ocasiões, entre abril e maio, quando a taxa de câmbio estava abaixo de 1,75 real. A diferença para agora é que naquela época o fluxo presente era positivo.

"Quando o BC começa a intervir com derivativos, queira ou não, ele gera um sinal forte sobre o nível de intervenção", disse Flavia Cattan-Naslauski, estrategista do RBS Securities, em Nova York. "O mercado pode interpretar isso como um patamar (de cotação)", acrescentou.

(Reportagem adicional de Samantha Pearson; Edição de Aluísio Alves)

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