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05/01/2009 - 10h45

Análise: Torneira do BC jorra liquidez. E o juro?

SÃO PAULO - A estratégia do Banco Central de liberação de crescentes porções de liquidez ao sistema bancário mostra-se estéril enquanto mantém muito atrativas as taxas pagas pelos títulos da dívida pública, sobretudo as dos instrumentos de curto prazo, de até três meses, com cláusula de recompra. Por que os bancos aceitariam correr riscos ao emprestar dinheiro para empresas do setor privado, cuja solvência pode estar abalada pelo ambiente global recessivo, se o BC remunera o capital por juro real de 7% ao ano? Para o BC, não se deve confundir política monetária com política de liquidez. Mas o fato é que não há um real carimbado para a política monetária e outro para a liquidez. Ambos se submetem a um mesmo e único custo do dinheiro, fixado pelo BC e seguido ou não pelo mercado futuro. Este tem em tese o poder de rebelar-se contra a fixação de uma taxa oficial irrealista e tida como inaceitável, mas se o mercado não financiar o Tesouro, aonde vai por o dinheiro? Em treasuries com remuneração negativa, em dólar cash, em colaterais de subprimes securitizados? O banco central da Índia reduziu, na sexta-feira, o juro de operações de um dia (repurchase rate) fechadas com os bancos de 6,5% para 5,5% anuais, sendo que a taxa da operação reversa caiu de 5% para 4% ao ano. Objetivo? Desencorajar as instituições a emprestar dinheiro para o governo. Só depois de ter feito isso foi que o BC de lá diminuiu de 5,5% para 5% a exigência de provisão de caixa para os bancos, liberando US$ 1,4 bilhão para o crédito privado. O que fez o nosso BC no último dia útil de 2008? Baixou a guarda em exigências de cobertura de risco de crédito em caso de inadimplência de tomadores com a finalidade de liderar R$ 40 bilhões para o setor privado. A medida é intrinsecamente ilógica: como ela suaviza salvaguardas de higidez bancária, a instituição fica mais exposta ao emprestar justamente num momento em que evita ao máximo correr riscos desnecessários. Se, depois da medida, o banco está legalmente menos protegido qual o melhor destino para o dinheiro recém-liberto das provisões? A resposta são ativos imunes ao risco. Que tal LFTs e LTNs compromissadas que rendem 13% nominais ao ano? A elevada remuneração proporcionada pelos títulos públicos é a explicação para a resistência dos juros no patamar real de 7%. Mas inventa-se todo tipo de argumento para sustentar a coerência econômica da preservação do juro alto. A mais ingênua e menos sofisticada - e, por isso, mais perigosa pois revela a arrogância de certa ala da elite financeira - é a de que de nada adiantaria o juro cair a zero que o consumidor não voltaria a comprar a crédito porque teme agora ficar desempregado. Na verdade, a discussão em torno da manutenção ou não da Selic e da necessidade de prevenir repasses da alta do dólar para os preços tem pouco a ver com o crédito ao consumidor. Ela se trava em torno da normalização do fluxo de empréstimos entre os bancos, e destes para as empresas, e destas para os seus fornecedores. Trata-se da desimpedida circulação do capital pelos grandes canais do crédito. É isto o que tenta o BC: fazer jorrar uma caudalosa liquidez pelos canos entupidos do crédito de forma a desobstruí-los. Se conseguir, o dinheiro chegará ao consumidor. Mas, em todo lugar do mundo, a ampliação da liquidez se faz acompanhar pela redução do custo do dinheiro. É por esta razão que na próxima quinta-feira a primeira reunião de política monetária do ano do Banco da Inglaterra (BoE) deverá cortar o juro básico de 2% para 1,5%. O estímulo monetário indiano e o anúncio feito pelo governo chinês de que estuda novas medidas para incentivar os setores automotivo e siderúrgico permitiram que o primeiro pregão de 2009 fosse marcado pelo otimismo. A expectativa de interrupção da trajetória de queda das commodities fez a Bovespa saltar 7,17%, já acima dos 40 mil pontos. Fechou a 40.244 pontos. O dólar persistiu em queda encerrando o dia a R$ 2,3330, em desvalorização de 0,04%. E os juros cederam levemente no mercado futuro da BM & F. A agenda desta primeira semana útil de 2009 já se mostra carregada de eventos significativos. O Federal Reserve (Fed) irá divulgar amanhã a ata da reunião do Fomc que, no dia 16 de dezembro, cortou o juro americano para o intervalo entre zero e 0,25%. Aguarda-se com ansiedade a visão do Fed sobre como ficará a atividade econômica no primeiro ano da administração Barack Obama. O Fed deve reiterar a prioridade conferida à atividade, em detrimento da inflação. E é justamente sobre atividade o principal dado da semana: o relatório sobre mercado de trabalho (payroll) sai na sexta-feira. No mesmo dia, o IBGE divulga o IPCA fechado de dezembro. (Luiz Sérgio Guimarães | Valor Econômico )

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