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02/07/2009 - 07h43

PSDB quer levar Senado no ´tapetão´, diz Lula

BRASÍLIA - O PT sugeriu ontem ao presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), que ele se afaste do cargo por um mês, para apuração de denúncias. O partido, entretanto, não deverá pressioná-lo para que se licencie, como fizeram DEM, PSDB e PDT. Com vistas à manutenção da aliança com o PMDB para as eleições de 2010, a decisão do PT é uma concessão e poderá recuar ainda mais e manter-se ao lado do pemedebista. O presidente do Senado afirmou que definiria seu " futuro político " em conversa com Lula, que só retornaria de viagem à África às 22h30 de ontem. O PT também pediu audiência com o presidente para definir posição.

Preocupado em garantir o PMDB na sustentação da candidatura da ministra Dilma Rousseff (Casa Civil) em 2010, Lula sinalizou que se manterá ao lado de Sarney. Ontem, em Sirte, na Líbia, o presidente recorreu a uma metáfora futebolística para voltar a defender sua permanência. Lula disse que o PSDB quer ganhar a presidência do Senado " no tapetão " . Se Sarney se afastar do cargo, a oposição ocupa a cadeira com o tucano Marconi Perillo (GO), primeiro vice. " O DEM e PSDB querem que o Sarney se afaste para o Marconi Perillo (senador pelo PSDB-GO e primeiro vice-presidente do Senado) assumir, o que não é nenhuma vantagem para ninguém " , afirmou. " A única vantagem é para o Marconi Perillo e para o PSDB, que querem ganhar o Senado no tapetão. Assim não é possível. Isso não faz parte do jogo democrático. " Na terça-feira, Lula mandou recado a Sarney e pediu a Dilma que convencesse o pemedebista a não tomar decisão sem antes conversar com o presidente. Os rumores de que Sarney renunciaria eram fortes a e família dele teria pedido para renunciar. Para não romper com o PMDB, os petistas tiveram cuidado na forma com que propuseram o afastamento: líderes partidários foram à casa dele comunicar a decisão, diferente do PSDB, DEM e PDT, que oficializaram no plenário. " Não manifestamos como exigência política " , disse o senador Aloysio Mercadante, líder do PT no Senado. Ontem à noite, os petistas voltaram à casa de Sarney, com a bancada do Senado. " Temos a responsabilidade de preservar a aliança " , explicou Fátima Cleide (RO). " O PMDB não vai querer mais conversar com o PT se pedirmos a saída dele. " Para Mercadante, " a relação no Senado reflete no governo " .

O PT está se conduzindo com o máximo de cautela. Na manhã de ontem, o líder do partido Aloizio Mercadante e a líder do governo no Congresso, Ideli Salvatti (SC), foram à casa do pemedebista para sugerir que ele se afaste temporariamente, como aprovara a bancada. A sugestão foi rejeitada. Os petistas propuseram também uma comissão " capaz de pensar o futuro do Senado " , com a adoção de uma Lei de Responsabilidade Administrativa e Fiscal. Sarney disse " estar aberto " à comissão. A bancada do PT vive uma contradição: a maioria quer o afastamento de Sarney. Nove dos 12 senadores disputarão um novo mandato em 2010 e temem desgastar-se com o eleitorado ao defender o pemedebista. Ao mesmo tempo, defendem a aliança com o PMDB para reforçar a candidatura de Dilma à Presidência e para garantir a governabilidade no Senado, onde o governo tem dificuldade para obter maioria.

O PT não queria a eleição de Sarney e aproximou-se do PSDB para sustentar a candidatura do petista Tião Viana (AC). Aliados de Sarney atribuem denúncias contra o presidente da Casa a setores do PT ligados a Viana e a alas do PSDB próximas ao governador José Serra (SP), que seriam fontes da divulgação de irregularidades que, no entanto, têm sido comprovadas. A configuração política do Senado durante os quatro meses de gestão de Sarney mostrou-se diferente da nacional: o DEM era o principal aliado do PMDB e o PT teve o apoio do PSDB em votações.

Com o desenrolar da crise envolvendo Sarney, petistas e pemedebistas começam à retornar à configuração anterior da aliança. O DEM afastou-se do presidente da Casa, aliando-se ao PSDB no pedido pelo afastamento imediato de Sarney do cargo, com duras críticas à atuação do senador. Já o PT reaproximou-se do PMDB. Na avaliação de Wellington Salgado (PMDB-MG), um dos principais defensores de Sarney, " a única coisa boa da crise " é que ela aproximou PT do PMDB. Na avaliação de senadores, a crise administrativa começou a ser sanada, com a demissão de diretores ligados ao ex-diretor Agaciel Maia e corte de despesas. Mas a crise política continua e é grave. O PT saiu em ataque ao DEM e disse que a primeira-secretaria, ocupada há anos pelo DEM, deveria ser responsabilizada junto com Sarney. PSDB, DEM, PDT e P-Sol mantiveram a pressão pelo afastamento do pemedebista. Se Sarney renunciar, uma nova eleição terá se ser feita. Não há nomes de consenso ainda entre as principais bancadas. " Teria que ser alguém com perfil parecido com de Jesus " , brincou o líder do DEM, Agripino Maia (RN). Senadores cogitam a indicação de Tião Viana (PT-AC), derrotado na disputa com Sarney, e Pedro Simon (PMDB-RS), que se recusou a ser candidato no começo do ano. O senador Romero Jucá (PMDB) é um nome do partido do atual presidente sempre citado.

O presidente da Casa fez novo aceno aos senadores, em busca de apoio: enviou carta para " deixar transparente as ações e atos editados " pelo Senado, " com ênfase na economia de recursos financeiros, na substituição de diretores e na apuração dos fatos " . Ontem, não quis manifestar-se. O pemedebista presidiu sessão em homenagem ao ex-deputado federal José Aristodemo Pinotti (DEM-SP), que faleceu. Em sessões desse tipo, os parlamentares só podem se manifestar sobre o homenageado. José Nery (P-Sol-PA) reclamou da crise , mas logo foi interrompido por Heráclito Fortes (DEM-PI) e por Sarney. " Ficaria mal ao Senado e às tradições da Casa discutir outros assuntos " , disse Sarney.

Numa clara demonstração de discordância da posição do PT no Senado, o líder da bancada petista na Câmara, deputado Cândido Vaccarezza (SP), defendeu sua permanência no cargo. Acompanhado do deputado Marco Maia (PT-RS), primeiro vice-presidente da Câmara, e outros deputados petistas, Vaccarezza foi ao gabinete de Sarney. " Fui como líder, prestar solidariedade. E dizer que reconhecemos que ele não obstrui investigação. Ao contrário: tem solicitado investigação de todos os casos " , disse Vaccarezza.

(Cristiane Agostine | Valor Econômico. Colaborou Raquel Ulhôa)

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