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17/09/2009 - 09h57

Análise: EUA melhoram e dólar testa R$ 1,80

SÃO PAULO - Os investidores testaram seriamente ontem o piso de R$ 1,80 por dólar. A moeda chegou a ficar abaixo do patamar em boa parte do período da tarde. Na mínima, cravou R$ 1,7950, em queda de 0,66%. Mas não teve forças para manter-se aquém do piso e fechou exatamente nele, com perda de 0,38%. Os motivos são a menor aversão a risco demonstrada pelos grandes players mundiais depois que passaram a se amontoar indicadores positivos sobre a economia americana e europeia (só este mês, o risco-Brasil, medido pelo JP Morgan, já tombou 22%, para 210 pontos-base), a interrupção do declínio do juro básico brasileiro e a inversão de posicionamento dos fundos estrangeiros no mercado futuro de dólar da BM & F.

Os hedge funds vinham reduzindo suas posições compradas em dólar futuro - uma aposta equivocada de alta da moeda. E, de segunda para terça-feira, passaram de comprados em US$ 142,3 milhões para vendidos em US$ 643,5 milhões. A queda do dólar - baixa de 4,76% no acumulado de setembro - ocorre a despeito do fluxo cambial. Segundo dados divulgados ontem pelo BC, o fluxo foi deficitário em US$ 1,77 bilhão até o dia 11. Como não precisa estar sobrando dólares na praça para a cotação cair, os investidores continuarão a testar o piso hoje se o rally persistir lá fora. Apesar de o carry-trade em real já não estar mais, por causa da queda da Selic, tão favorável como antigamente, cotações abaixo de R$ 1,80 não são estranháveis. O piso no governo Lula, de R$ 1,5590, foi marcado no dia 1º de agosto do ano passado. Já no mercado futuro de juros da BM & F, apesar das fortes altas, os players persistem ignorando as possíveis consequências para a política monetária da decisão da Fazenda de, ao taxar a caderneta de poupança, eliminar um obstáculo ao prosseguimento do ciclo de cortes da Selic. A taxa para janeiro de 2011 disparou de 9,75% para 9,90%. O juro privado para um ano, piso do custo às operações de crédito, saltou de 9,17% para 9,29%. Se a intenção da Fazenda era a de pressionar o Copom para voltar a reduzir a Selic, após a decisão do dia 2 de setembro de mantê-la em 8,75%, o tiro pode ter efeito contrário. A ata de setembro colocou abaixo os destroços do que sobrou do edifício da flexibilização monetária dinamitado na ata de julho. O Copom foi tão taxativo ao garantir que não estava procedendo a uma " parada técnica " destinada a reavaliar o quadro, mas de fato encerrando o ciclo, que não pode mais voltar atrás. Na verdade, pode, se a pressão se tornar insuportável. Mas o desgaste para a sua credibilidade será tamanha que não compensa do ponto de vista do custo do dinheiro e, portanto, do crédito - o que de fato importa. Explicando: se o mercado futuro perder a confiança no seu BC e passar a acreditar que a política monetária está contaminada por ingerências políticas e economicamente heterodoxas, a curva futura de juros, já excessivamente " premiada " , explodirá. Hoje, a curva já supõe a necessidade de subir a Selic em 3,25 pontos percentuais no ano que vem. Trata-se de prêmio distorcido, exigido pelos emprestadores de dinheiro em taxa pré por causa do medo de que estímulos fiscais pré-eleitorais sejam feitos para impor a candidatura oficial, com sucedâneos inflacionários nefastos. O prêmio inchado também reflete temores de que, após a sua desincompatibilização, Henrique Meirelles seja substituído por alguém mais sensível aos pleitos da Fazenda. Se a tudo isso for agregada a suspeita de que o Copom de Meirelles cedeu às pressões atuais, a estrutura a termo irá inclinar-se ainda mais. Isso ainda não está acontecendo, apesar da disparada de ontem.

A alta dos DIs apenas espelha a recuperação acima do previsto do mercado de trabalho doméstico e a conjuntura externa favorável. Para a média mais conservadora de analistas, o BC até já pode ter ido longe demais com o corte acumulado de cinco pontos, realizado desde janeiro. Se fizesse, contra si mesmo e o consenso do mercado, novo corte no próximo Copom, dia 21 de outubro, poderia provocar uma elevação na expectativa de IPCA para 2010, atualmente em 4,35%, abaixo da meta. Isso porque, dada a transmissão defasada em seis a nove meses dos efeitos de decisões monetárias sobre a economia, o corte só seria sentido no segundo semestre do ano que vem, período para o qual parte dos economistas projeta o início do movimento de alta da Selic. Por esse raciocínio, a taxa básica teria de subir, lá na frente, mais do que seria necessário se o BC não cumprisse o congelamento do juro. (Luiz Sérgio Guimarães | Valor Econômico)

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