UOL Notícias Economia

BOLSAS

CÂMBIO

15/10/2009 - 08h13

Bovespa fez máxima acima dos 66 mil pontos e dólar caiu a R$ 1,703

SÃO PAULO - O apetite por risco ganhou respaldo em dados positivos sobre a economia americana e a quarta-feira encerrou de forma positiva para os mercados brasileiros e mundiais.

Por aqui, a Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) passou por cima de resistências técnicas e retomou os 66 mil pontos perdidos em junho do ano passado. O dólar fez nova mínima na linha de R$ 1,70. Os contratos de juros futuros perderam prêmio de risco, mesmo com dados confirmando o melhor ritmo de recuperação da economia brasileira.

O dia começou com o resultado do JPMorgan, que superou com tranquilidade a previsão de lucro trimestral. O banco embolsou US$ 3,6 bilhões, ou US$ 0,82 por ação, no terceiro trimestre, contra uma estimativa de US$ 0,52. O ponto negativo é que a provisão para perdas com empréstimos mais que dobrou no comparativo anual, para US$ 20,4 bilhões. Hoje, foco nos números do Citigroup e Goldman Sachs. No front econômico, as vendas no varejo americano caíram 1,5% em setembro, abaixo da queda de 2,1% prevista pelos economistas. Tirando os automóveis da conta, foi registrada alta de 0,5%, superior ao avanço estimado de 0,3%. Também foi divulgada uma alta de 0,1% no preço de importação em setembro, inferior ao projetado. Os estoques no atacado recuaram 1,5%, uma das menores leituras da série histórica. À tarde, o Federal Reserve (Fed), banco central americano, apresentou a ata da reunião realizada nos dias 22 e 23 de setembro. A mensagem continua sendo de recuperação, porém gradual, eliminando, assim, o risco de pressões inflacionárias.

"Apesar do tom um pouco mais otimista da ata, ressaltando inclusive melhoras no mercado imobiliário, julgamos que o documento não altera a perspectiva de manutenção da taxa de juros no atual patamar no curto e médio prazos", disse a CM Capital Markets em relatório.

Com impacto direto sobre alguns dos principais papéis da bolsa brasileira, a China anunciou que a importação de minério de ferro subiu 65% em setembro na comparação anual e 30% sobre agosto, atingindo nova máxima história. Os analistas da Link Investimentos observam que esse aumento não reflete, como se temia, elevação de estoques, ou seja, a matéria-prima está sendo utilizada. Com isso, é possível prever, também, recorde de produção de aço. A corretora reforçou a recomendação de " compra " para Vale e CSN, as duas empresas que mais sentiram o impacto da notícia.

Não por acaso as ações da Vale e das siderúrgicas ajudaram o Ibovespa a passar direto pelos 55 mil pontos e fazer nova máxima acima dos 66 mil. O índice subiu 2,41%, para fechar aos 66.201 pontos. O giro financeiro ficou em R$ 10,35 bilhões, sendo R$ 2,43 bilhões referentes ao vencimento do índice futuro. Tal pontuação é a maior desde 19 de junho de 2008, quando o Ibovespa marcava 66.590 pontos. No ano, o índice já subiu 76,3%. O dia também contou com recorde em número de negócios. Foram 582.187 transações, somando pregão regular e after market, contra 494.430 registradas em 16 de novembro. O operador-sênior da TOV Corretora, Décio Pecequilo, comentou que a bolsa brasileira continua surpreendendo pela força. Todas as resistências técnicas foram rompidas com certa facilidade. Os 55 mil pontos foram deixados para trás no começo de setembro e, no mesmo mês, o índice passou por cima dos 60 mil pontos. Agora em outubro os 65 mil pontos já são superados.

" Para o final do ano, salvo algum imprevisto de grande monta, penso em 70 mil pontos " , disse o especialista, lembrando que para o índice atingir tal meta falta apenas 5,7% de valorização diluída em dois meses e meio.

O sócio da Leblon Equities, Pedro Rudge, apontou que existe uma demanda de investidores estrangeiros por ativos do Brasil e isso explica boa parte do forte desempenho do mercado local.

" Muitos agentes que não estão presentes avaliam a possibilidade de investimento. O fluxo que ainda está por vir justifica essa forte alta " , resume.

Ilustrando bem o discurso do especialista, no acumulado do mês até o dia 9, os estrangeiros efetuaram compras superiores às vendas em R$ 2,16 bilhões, elevando o saldo de negociação direta no ano para R$ 20,16 bilhões, novo recorde.

Ainda de acordo com Rudge, uma forma de amortecer esse fluxo externo é um mercado forte de novas ofertas públicas iniciais (IPO, na sigla em inglês) que traga novas empresas ao mercado. " Se a demanda cresce muito e a oferta de empresas não crescer na mesma velocidade, o preço dos ativos sobe, o que pode resultar em valores artificiais para as ações " , explicou. Correndo paralelamente ao fluxo externo há também mudanças estruturais importantes no mercado local, disse Rudge, destacando a queda na taxa de juros. " O investidor doméstico, seja fundo de pensão ou até mesmo pessoa física, tem que correr mais risco já que a renda fixa tem retorno menor. " O destaque do dia ficou com o papel PNA da Vale, que subiu 4,60%, para R$ 40,41, com mais de R$ 1,5 bilhão em negócios, quase o dobro do movimento da Petrobras PN. O papel ON também subiu forte, 4,61%, a R$ 45,30. Entre as justificativas para o avanço, além dos dados vindos da China, estão a alta reversão ou cobertura de posições em função do vencimento de opções que acontece na segunda-feira. Também há justificativas menos palpáveis, como a insistência do empresário Eike Batista em deter uma fatia da mineradora.

No câmbio, o ambiente seguiu propício à venda de moeda americana, que também fez novas mínimas contra o euro. Em forte baixa desde o começo dos negócios, o dólar comercial encerrou o dia a R$ 1,701 na compra e R$ 1,703 na venda, queda de 1,38%. O preço é o menor desde 3 de setembro de 2008, quando o dólar valia R$ 1,677. No mês, a moeda já perdeu 3,89% e, no ano, a baixa vai a 27%.

Na roda de " pronto " da Bolsa de Mercadorias e Futuros (BM & F), o dólar perdeu 1,48%, para fechar a R$ 1,7025. O volume negociado avançou 11%, para US$ 244 milhões. Já no interbancário os negócios somaram US$ 2,1 bilhões.

Para o diretor da NGO Corretora, Sidnei Moura Nehme, o mercado sofre da " síndrome da queda " , ou seja, trabalha com a convicção de que o dólar vai cair, utilizando como justificativa um fluxo positivo de recursos que efetivamente não existe. " O Banco Central compra todo o excedente de dólar. Então o preço não deveria cair " , diz Nehme.

Os dados do fluxo parcial de outubro ilustram bem essa questão. Na semana encerrada dia 9, a sobra de dólares no mercado interno ficou em US$ 2,3 bilhões. No mesmo período, a autoridade monetária comprou US$ 5,32 bilhões com seus leilões no mercado à vista. Apenas na quinta-feira, dia 8, foram, US$ 4,64 bilhões, soma atribuída à entrada de recursos externos que teria como destino a oferta de ações do Santander.

Com isso, o saldo líquido para o mercado na semana foi negativo em US$ 3,02 bilhões, o que é incompatível com uma queda de 2,31% registrada pela moeda americana no período.

O " gato " , segundo Nehme, está na própria forma de atuação do BC, que compra dólares além do fluxo positivo. Com isso, a autoridade monetária acaba estimulando a especulação no mercado à vista, onde os bancos carregam posições vendidas (contra o dólar) de cerca de US$ 5 bilhões.

Ainda de acordo com o diretor, essa posição vendida não tem hedge (proteção) no mercado futuro, pois não há liquidez no atual nível de taxa. Então, a estratégia é alardear que o preço da moeda americana vai continuar caindo e, dessa forma, garantir a rentabilidade nas posições vendidas.

" O BC precisa parar de comprar além do excedente e dos bancos que já estão vendidos. Ele também pode limitar essas posições contra a moeda americana. Tem uma porção de instrumentos que pode usar " , disse Nehme.

O que a autoridade monetária não pode, também de acordo com o diretor, é apenas ficar olhando e dizer que não tem preocupação com o valor da taxa, pois o regime é flutuante. " O BC tem de estar preocupado se a moeda não está sendo sobrevalorizada por fatores que ele pode corrigir " , avaliou.

" Nada contra a estratégia dos bancos de captar reais dessa forma, mas o ator dessa estratégia não pode ser o governo " , concluiu.

Os juros futuros abandonaram a tentativa de alta registrada no começo do pregão e fecharam o dia apontando para baixo. A mudança de direção aconteceu apesar dos dados positivos no mercado externo e da forte criação de empregos no mercado local.

Por causa disso, o sócio-gestor da Leme Investimentos, Paulo Petrassi, classificou a movimentação da curva futura de " sobe no boato e cai no fato " , ou seja, os agentes anteciparam os dados melhores e como isso foi confirmado resolveram realizar lucros.

Ainda de acordo com o especialista, também é possível observar a curva pela lado técnico. Sempre que o DI janeiro 2011 ultrapassa 11,50% há movimento de venda e, hoje, a taxa chegou a 11,55% na máxima do dia.

Ampliando a análise, Petrassi avaliou que o mercado discorda da precificação da curva, mas não está confortável o suficiente para abrir posições vendidas. Para o especialista, não faz sentido esperar uma alta de 0,75 ponto percentual na reunião de 27 de janeiro do Banco Central.

O gestor mantém sua visão de alta de juros apenas em meados de 2010 como forma de conter as expectativas de inflação em 2011. " Alta de juros no começo do ano é muito precipitado " , diz.

Na agenda, os dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) de setembro. Segundo o Ministério do Trabalho, foram criados 252.617 postos formais no mês passado, oitavo mês seguido de crescimento e melhor resultado do ano. Ao fim do pregão na BM & F, o contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) com vencimento em janeiro de 2011, o mais líquido do dia, apontava baixa de 0,07 ponto percentual, a 10,41%. O vencimento para janeiro de 2012 perdeu 0,06 ponto, a 11,46%. E janeiro de 2013 projetava 11,97%, recuo de 0,05 ponto.

Entre os vencimentos curtos, janeiro de 2010 perdeu 0,01 ponto, marcando 8,68%. Julho de 2010, que divide as apostas quanto à possibilidade de alta na Selic no primeiro ou no segundo semestre, recuou 0,03 ponto, projetando 9,33%. E novembro de 2009 cedeu 0,01 ponto, a 8,63%.

Até as 16h15, antes do ajuste final de posições, foram negociados 565.785 contratos, equivalentes a R$ 50,37 bilhões (US$ 29,12 bilhões), quase o triplo sobre o registrado na terça-feira. O vencimento para janeiro de 2011 foi o mais negociado, com 271.970 contratos, equivalentes a R$ 24,09 bilhões (US$ 13,92 bilhões).

(Eduardo Campos | Valor)

Compartilhe:

    Hospedagem: UOL Host