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19/01/2010 - 09h21

Lula e Obama aparam divergências sobre Haiti

BRASÍLIA - " Lula, you call me " (Lula, me ligue), pediu o presidente do EUA, Barack Obama, ao despedir-se do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, no telefonema de cerca de quinze minutos que tiveram ontem, para coordenar as ações das equipes brasileiras e americanas no Haiti. Ficou estabelecida uma linha direta informal entre os dois governos, para evitar que desentendimentos entre as equipes no trabalho de segurança e assistência humanitária atrapalhem a intenção das autoridades dos dois países de mostrar a ação no Haiti como um exemplo de ação positiva de ação conjunta na região. No telefonema não houve menção aos desentendimentos ocorridos em Porto Príncipe, que levaram o ministro de Relações Exteriores, Celso Amorim, a tratar do tema na semana passada com a secretária de Estado dos EUA, Hillary Clinton. Obama, segundo duas autoridades que acompanharam a conversa, garantiu, em tom cordial, que os EUA prezam o trabalho das Forças de Paz das Nações Unidas (a Minustah) sob comando brasileiro e que apoiarão esse comando no que for necessário.

O telefone serviu para apagar o desconforto provocado por incidentes como a demora na liberação de pouso para aviões brasileiros no Haiti, na semana passada, e as recentes declarações do comandante das tropas dos EUA no Haiti, general Ken Keen, a um programa de TV, na qual o militar americano disse que o Comando Sul dos EUA cuidaria da segurança no Haiti, " um componente crítico " . Manter a segurança e paz no Haiti é um mandato da Minustah.

Antes do telefonema de Obama. o assessor de Segurança Nacional dos EUA, general James Jones, ligou para o assessor internacional de Lula, Marco Aurélio Garcia, com a mesma mensagem: os EUA não querem tomar o lugar do Brasil no comando da segurança no Haiti, parabeniza os resultados da Minustah e pretende coordenar as ações dos dois países. Como Obama, Jones pediu a Garcia que mantivessem um contato telefônico direto em caso de qualquer necessidade ou desentendimento. Obama ouviu outra preocupação brasileira: contra as avaliações de que não há mais Estado no Haiti, o Brasil defende que as ações de socorro à população e de reconstrução sejam realizadas com a participação do presidente haitiano, René Préval. Há um Estado muito fraco no Haiti, mas isso não pode servir de pretexto para ignorar os esforços de construção de instituições, abalado pelo terremoto, argumentam os auxiliares de Lula. Há grande preocupação de que centenas de milhões de dólares doados ao país sigam o caminho de ajudas anteriores, perdendo-se na ineficiência e corrupção. Como evitar isso será o tema de uma reunião entre Brasil, EUA, Canadá e França, em 25 de janeiro, que antecederá outra reunião mais ampla. As autoridades brasileiras encarregadas de coordenar as ações para o Haiti decidiram ontem passar a uma segunda fase no esforço de assistência humanitária, pedindo a empresas que doem, de preferência já embalados e " paletizados " para transporte, alimentos de consumo imediato sem necessidade de preparação, como leite longa vida, biscoitos, barras de cereal, água ou frutas desidratadas. A defesa Civil do Rio de Janeiro centraliza o recebimento d as doações. O secretário-geral do Itamaraty, Antônio Patriota, participou ontem, na República Dominicana, de reunião dos países para iniciar as discussões sobre a reconstrução do Haiti. O presidente Préval também esteve no encontro.

Em Brasília, o comandante do Exército, Enzo Martins Peri, afirmou que o Brasil está em condições de duplicar o número de militares no Haiti no curto prazo, se houver pedido da ONU. Seriam pelo menos 1.250 soldados, grande parte já com experiência no Haiti.

(Sergio Leo | Valor)

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