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29/01/2010 - 08h57

Bovespa interrompeu rodada de baixa, mas dólar subiu pelo 8º dia

SÃO PAULO - A quinta-feira marcou o fim de uma sequência de cinco dias seguidos de baixa na Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa). No mercado de câmbio, os compradores não deram trégua e o dólar avançou pelo oitavo dia seguido. Os juros futuros ajustaram para baixo, com o mercado interpretando que o Banco Central (BC) terá de esperar mais um pouco para elevar a Selic.

No campo externo, a instabilidade foi grande. O ambiente favorável às compras, formado por resultados trimestrais, estabilidade do juro nos EUA e um empolgado discurso de Barack Obama, foi soterrado por dados econômicos pouco animadores, como menores encomendas por bens duráveis e elevada demanda por seguro-desemprego.

Também havia a incerteza quanto à renovação do mandato do presidente do Federal Reserve (Fed, banco central americano). Mas essa dúvida foi sanada ontem mesmo. Por 70 votos a 30, o Senado renovou o mandato de Ben Bernanke, que fica mais quatro anos pilotando a política monetária. Uma curiosidade: as 30 respostas negativas marcam o maior número de votos contrários que um presidente do Fed já recebeu.

Em Wall Street, o setor de tecnologia puxou as perdas e, ao final da jornada, o Dow Jones marcava variação negativa de 1,13%. O S & P 500 e o Nasdaq recuaram 1,18% e 1,91%, respectivamente.

Na Bovespa, a instabilidade externa derrubou o índice no período da tarde, mas compras no final do dia descolaram o Ibovespa das perdas em Wall Street e o índice fechou com alta de 0,80%, aos 65.587 pontos. O giro financeiro ficou em R$ 6,39 bilhões. Na mínima, o indicador bateu 64.541 pontos e, na máxima, foi a 66.049.

Ainda assim, o índice acumula perda de 0,96% na semana. Já a queda no mês está em 4,38%, o que faz de janeiro o pior mês da bolsa desde outubro de 2008, auge da crise, quando o índice desabou 24,8%.

Segundo operador de mercado que preferiu não se identificar, o descolamento da bolsa local com relação ao mercado americano mostrou o aumento da presença do investidor doméstico no pregão.

"Essa queda de 4.839 pontos chamou para compra muito investidor local que estava de fora esperando uma oportunidade", explicou.

Os dados da Bovespa ilustram bem isso. No acumulado do mês até o dia 26, enquanto o saldo estrangeiro estava negativo em R$ 1,67 bilhão, a posição das pessoas físicas estava positiva em R$ 1,42 bilhão. Cabe lembrar também que os locais são os maiores agentes da bolsa agora em janeiro, respondendo por 31,46% das compras e das vendas.

Ainda de acordo com o especialista, as incertezas que cercam o mercado são muitas, o que dificulta fazer algum prognóstico para o mês de fevereiro. Entre as fontes de instabilidade, o especialista destaca o projeto de regulação dos bancos americanos e como será equacionada a questão fiscal da Grécia e de outros países da região.

O operador-sênior da TOV Corretora, Décio Pecequilo, comentou que, dentro do ambiente de perda que vigorou por cinco dias seguidos na Bovespa, existem apenas dois tipos de investidor. Aquele que se retrai achando que vai cair mais e aquele que acredita que todo ajuste mais forte de baixa é uma oportunidade de compra.

"Estou mais alinhado ao segundo grupo. Não acho que o mercado teve a tendência de alta invertida, que vamos entrar em um ciclo de baixa. Isso não é um fato consumado", resumiu.

O especialista nota que o Brasil continua com uma chance extraordinária de crescimento, de 5% a 6% em 2010. E se o PIB realmente encarar uma alta dessas, o Ibovespa tem força para experimentar grande evolução. "Considerando o potencial de lucro ao longo do ano, o Brasil ainda não está caro." No câmbio, o real chegou a tomar fôlego pela manhã, mas conforme o humor externo piorava, as ordens de compra cresciam. Na máxima, o dólar foi a R$ 1,878, mas perdeu um pouco de força para fechar a R$ 1,867, ainda assim, valorização de 0,43%.

Em oito dias de valorização, o ganho acumulado pelo dólar chega a 5,66%. Já no ano, a alta é de 7,11%. Melhor mês para a moeda americana desde novembro de 2008, quando a subida totalizou 7,18%.

Na roda de " pronto " da Bolsa de Mercadorias e Futuros (BM & F), o dólar registrou avanço de 0,73%, para R$ 1,866. O volume aumentou de US$ 24,5 milhões para US$ 46,75 milhões. Já os negócios no interbancário dobraram para US$ 2,4 bilhões.

Segundo o operador da Hencorp Commcor, João Paulo Carvalho, a perda de força do real teve início com a divulgação de indicadores piores que o previsto, nos Estados Unidos.

" Os dados de auxílio-desemprego e de atividade geraram um mau humor nos índices americanos, que começaram a acentuar a queda, o que refletiu no dólar " , comentou.

Carvalho assinalou que a queda do euro também voltou a contribuir para a baixa do real. Ontem, a moeda comum europeia perdeu a linha de US$ 1,40 pela primeira vez desde meados de julho do ano passado.

Passando para o mercado de juros, a mudança de tom no comunicado divulgado na noite de quarta-feira pelo Comitê de Política Monetária (Copom), deu ao mercado uma sinalização de que, embora esteja preparada para subir os juros, a autoridade monetária ainda precisa de " certo tempo " para avaliar o quadro inflacionário.

No texto, o BC ressaltou que, " irá acompanhar a evolução do cenário macroeconômico até sua próxima reunião, para então definir os próximos passos na sua estratégia de política monetária " .

Embora diferente do comunicado de dezembro, quando a instituição citou que o patamar da Selic era " consistente com um cenário inflacionário benigno " , o texto da primeira reunião de 2010 foi idêntico ao divulgado em janeiro de 2008 e muito semelhante ao de março daquele mesmo ano. Naquela ocasião, a taxa básica de juros estava em 11,25% ao ano, mas, em abril, o BC começaria um ciclo de aperto, que teria duração de quatro reuniões e extensão de dois pontos percentuais.

"A retirada da parte do cenário benigno de inflação do comunicado fez com que os mercados passassem a imaginar o BC subindo juros não na próxima reunião, mas em abril, por isso as taxas mais curtas fecharam um pouco. Além disso, uma parte do mercado considera que o BC não subirá os juros durante as eleições, e que o ajuste será mais forte e ocorrerá apenas em duas reuniões", comentou o gestor da SLW Asset Management, Gustavo Gazaneo.

Para a SLW, o aperto só terá início em abril, embora um começo em junho não possa ser descartado. A instituição projeta aumento da Selic em quatro reuniões, para uma taxa de 11,25% em dezembro. " O BC deu um alerta ao mercado, mas poderá não subir tanto a Selic como se esperava " , pontuou Gazaneo.

Na avaliação do JP Morgan, apesar de ter mantido a Selic em 8,75% ao ano, o Copom deixou as portas abertas para o início do aperto em março, mas a decisão ainda depende dos dados a ser divulgados. O banco espera a elevação da taxa na próxima reunião e assinala que, não apenas os dados de atividade deverão mostrar que a utilização da capacidade produtiva está atingindo níveis preocupantes, como o cenário de inflação deverá dar um sinal definitivo de que a neutralidade da política monetária é urgente.

Ao fim da jornada na BM & F, o Depósito Interfinanceiro (DI) com vencimento em janeiro de 2011, o mais líquido do dia, recuava 0,07 ponto, a 10,34%. O contrato para janeiro de 2012 perdia 0,02 ponto, a 11,76%, enquanto o do mesmo mês de 2013 subia 0,04 ponto, a 12,33%.

Entre os vencimentos curtos, julho de 2010, que divide as apostas quanto à possibilidade de alta na Selic no primeiro ou no segundo semestre, cedia 0,06 ponto, a 9,13%, e o DI de abril recuava 0,02 ponto, a 8,69%, e março decrescia 0,045 ponto, a 8,63%.

Até as 16h15, antes do ajuste final de posições, foram negociados 962.180 contratos, equivalentes a R$ 85,813 bilhões (US$ 46,353 bilhões). O vencimento para janeiro de 2011 foi o mais negociado, com 420.095 contratos, equivalentes a R$ 38,353 bilhões (US$ 20,717 bilhões).

(Eduardo Campos | Valor)

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