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01/02/2010 - 08h40

Meirelles e Mantega falam em deixar câmbio valorizar

DAVOS - O governo está decidido a deixar a taxa de câmbio se desvalorizar para ajustá-la ao aumento do déficit das contas externas. E considera ter reservas em moeda internacional suficientes para atuar ou evitar movimentações bruscas no mercado de câmbio, segundo demonstraram o ministro da Fazenda, Guido Mantega e o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, durante o Fórum Econômico Mundial. Nos últimos dias, têm chegado a Brasília notícias preocupantes sobre a volta de operações de hedge (seguro contra variação de câmbio) feitas por empresas brasileiras, apostando na manutenção da taxa em níveis inferiores a R$ 2 por dólar. O governo tem desencorajado essas operações, que, no auge da crise, levaram empresas como a Sadia e a Aracruz Celulose a sérios problemas financeiros.

No campo das contas internas, no esforço para tentar aprovar ainda no início do ano a criação de um teto legal de reajuste para os salários do funcionalismo público, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, irá à abertura dos trabalhos da Câmara dos Deputados pedir pressa na votação do projeto que fixa o aumento salarial do setor público em, no máximo, 2,5% acima da taxa de inflação. " Já aprovamos no Senado, estou confiante de que será aprovado também na Câmara, trabalharei para isso " , disse o ministro ao Valor, pouco antes de deixar Davos. " Se tivermos crescimento de 5% do PIB, o gasto vai crescer metade disso " , disse. " Para funcionar tem de ter crescimento da economia; os próximos governos estarão condenados a fazer a economia crescer. " Mantega minimizou o efeito do crescimento econômico sobre as contas externas, que devem ter um déficit em contas correntes de pelo menos US$ 45 bilhões neste ano, a ser coberto principalmente com investimentos diretos. " O aumento do déficit era quase inevitável, estava previsto, reflete a crise " , argumentou. " Tende a ser revertido a partir de 2011 ou 2012, quando teremos um real menos valorizado e o próprio deficit cumprirá seu papel de mudar o patamar de importações e exportações " , previu.

O presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, no mesmo tom, também vinculou a administração do déficit em conta corrente ao controle fiscal e da inflação. " Em razão da estabilidade econômica alcançada nos últimos anos, o Brasil reúne as condições necessárias para receber investimentos estrangeiros diretos em volume suficiente para financiar seu déficit em conta corrente nos níveis previstos atualmente " , declarou ele ao Valor. Meirelles deixou claro que, em caso da aumento do déficit em contas correntes, o governo não hesitará em usar reservas em moeda estrangeira para evitar estrangulamento de liquidez (falta de dólares) enquanto a cotação do dólar se elevar para ajustar a economia à nova situação.

" Caso o aumento do déficit venha a ocorrer, diferentemente do passado, haverá um ajuste natural, e não uma crise, visto que, nesse quadro, a combinação de câmbio flutuante e reservas elevadas garantirão o tempo e a serenidade para que o mercado reveja gradualmente suas apostas e para que o processo de ajuste das taxas de câmbio ocorra de forma saudável para a economia " , ditou o presidente do BC, com a cautela de quem redige uma nota oficial. " Como temos repetido, não temos meta de taxa de câmbio, trabalhamos com meta de inflação. " Preocupado em demonstrar o compromisso com o controle fiscal no ano de eleição presidencial, Mantega informou que o governo quer lançar também no início do ano um novo sistema de comparação de gastos nas diversas unidades de governo, para verificar aumentos indevidos de despesas ou desperdício orçamentário. " Vamos estabelecer uma espécie de central de custos no governo para acompanhar os gastos das principais unidades de despesa da federação " , disse o ministro. " Vamos aprimorar o que já existe e lançar acompanhamento dos principais gastos da União. " Mantega não descarta novas medidas de alívio aos exportadores. A falta de avanços nesse tema se deveu à " falta de espaço fiscal para novas bondades " , reconhece ele. " Não havia espaço para maior devolução de créditos (sobre impostos recolhidos indevidamente) " , disse o ministro, acenando com uma ligeira possibilidade de mudança de política neste ano. " Temos de ver a arrecadação; se sobrar espaço, faremos (novas medidas de alívio fiscal aos exportadores). " O que já está definido é a ampliação das linhas do BNDES para financiamento à exportação. Segundo Mantega, está confirmada a expectativa de se iniciar a operação ainda no começo do ano, de novas facilidades do banco para venda de máquinas e produtos brasileiros a clientes nos mercados em desenvolvimento e países de menor renda, na América Latina e África. Com o BNDES Exim automático, o banco pretende credenciar redes de bancos nos países dessas regiões para operarem como agentes financeiros, em sistema similar ao que é feito hoje dentro do Brasil.

" Estamos trabalhando em regras de modo a fazer grande escala no financiamento de produtos como máquinas agrícolas " , disse Mantega. " Queremos financiar importação de produtos brasileiros na Argentina, Peru, Colômbia etc. " Mantega teve uma breve participação no Fórum Econômico Mundial, em uma mesa redonda sobre Brasil e uma entrevista coletiva. Um dia antes, declarou, ainda em Zurique, onde se hospedou ao chegar à Suíça, que o governo começaria a retirar os estímulos criados no auge da crise financeira, em 2008, a começar pelas isenções de impostos para produtos como eletrodomésticos da linha branca e automóveis. Por trás da decisão há a preocupação do ministro em evitar que o Banco Central eleve os juros para desaquecer a economia brasileira e evitar excesso de consumo e inflação. (SL) (Sergio Leo | Valor)

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