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12/02/2010 - 09h53

Preço da carne dispara 35% na Argentina e causa indignação

BUENOS AIRES - Os argentinos convivem há mais de cinco anos com inflação de dois dígitos, mas só agora ela começou a interferir na carne. Do tradicional bife de chorizo à paleta, o principal alimento da Argentina, já subiu cerca de 35% nas primeiras semanas de 2010, segundo levantamentos de consultorias privadas.

Quando se trata do país mais carnívoro do mundo, com consumo anual de 73 kg por pessoa, o aumento tem a capacidade de gerar uma onda de insatisfação, levando o debate sobre a disparada de preços ao horário nobre da televisão e ao centro da política nacional.

O governo avalia novas medidas, como " acordos " de preços com o setor privado e o fechamento das exportações, e a presidente Cristina Kirchner culpou os pecuaristas pelos recentes aumentos. Segundo ela, os fazendeiros estão retendo o gado no campo para engordá-lo e ganhando dinheiro " como nunca ganharam em muito tempo " .

As declarações reacenderam a ira das entidades rurais, que já demonstravam um grau crescente de descontentamento por causa de problemas na comercialização do trigo. " Senhora presidente, em vez de ser cronista ou repórter, veja como resolver o problema da carne " , retrucou o dirigente da Federação Agrária Argentina, Eduardo Buzzi, anunciando um tratoraço na terça-feira, no interior do país.

A questão ganhou contornos inusitados. A rede de supermercados Coto, de um empresário argentino bem relacionado com o casal Kirchner e cuja mais nova unidade foi inaugurada pessoalmente pela presidente, alardeia uma " megapromoção " no sábado e domingo: a venda de 300 toneladas de cortes de exportação a " preços insuperáveis " - o preço foi uniformizado em 6,99 pesos o quilo. O mais curioso é que o anúncio foi feito por meio de uma entrevista do gerente comercial da rede à agência de notícias oficial Télam, uma espécie de porta-voz da Casa Rosada.

Diante da polêmica, a rede social Facebook entrou em cena, com a convocação de uma " greve de carne " a partir de segunda-feira. " Somos um grupo de consumidores que acreditamos que o aumento entre 40% e 60% é excessivo e injustificado " , apresenta-se a comunidade criada no Facebook. Com 5.129 membros ontem à noite e sob o slogan " basta de preços loucos " , a comunidade pede que os argentinos deixem de comprar carne por sete dias, uma verdadeira heresia para a cultura gastronômica da maioria da população.

No ano passado, a produção argentina de carne aumentou 11% e as exportações praticamente igualaram o recorde alcançado em 2005. Os números positivos contrastam com a previsão catastrófica, feita há menos de dois anos, de que a Argentina passaria a importar carne. Mas as estatísticas podem enganar, segundo a Câmara da Indústria e do Comércio de Carnes da Argentina. O abate cresceu em 1,2 milhões de cabeças na comparação com o ano anterior, mas 650 mil eram fêmeas.

Tecnicamente, quando as vacas representam mais de 40% do abate total, considera-se que há um processo de " liquidação de ventres " e desinvestimento. Com isso, especialistas estimam que a Argentina tenha 52 milhões de cabeças de gado hoje, oito milhões a menos do que em 2007.

A pressão sobre os preços se intensificou a tal ponto que o sindicalista Hugo Moyano, presidente da Confederação Geral dos Trabalhadores (CGT), afirmou que " ninguém pode negar a inflação " . Pode parecer trivial para um dirigente sindical, mas Moyano é aliado-chave do casal Kirchner e deu um aval implícito para pedidos de reajustes salariais de 20% a 25%, quando o índice oficial de preços subiu apenas 7,7% no ano passado. Além disso, alguns sindicatos de categorias importantes já manifestaram a intenção de transformar as negociações em trimestrais.

O temor dos empresários é que os reajustes criem uma espiral inflacionária e aproximem cada vez mais a Argentina da Venezuela, hoje campeã absoluta da inflação na América Latina.

Em janeiro, consultorias privadas que fazem medições independentes registraram variação de 2,1% a 2,3% nos preços. A taxa do desacreditado Instituto Nacional de Estatísticas e Censo (Indec), cuja diretoria foi trocada em 2007 e que adotou uma nova metodologia para apurar a inflação, será divulgada hoje.

Para a consultoria Bein & Associados, só o aumento dos alimentos - em especial da carne - levará a inflação de fevereiro a um piso de 1,5%. " Mas acreditamos que o aumento dos preços será superior, em torno de 2% " , afirmou Marina Dal Pogetto, economista-chefe da consultoria. De estimativas iniciais próximas de 15%, as projeções dos analistas para a inflação de 2010 já subiram para mais de 20%.

(Daniel Rittner | Valor)

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