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25/02/2010 - 08h53

Bovespa caiu pelo quarto dia e dólar fechou a R$ 1,826

SÃO PAULO - A instabilidade seguiu pautando os negócios nos mercados brasileiros na quarta-feira. A Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) não seguiu Nova York ou o preço das commodities e fechou o dia em queda. O dólar oscilou entre alta e baixa até encerrar o dia praticamente estável e os juros futuros acumularam prêmios de risco.

Todas as atenções estavam centradas no discurso do presidente do Federal Reserve (Fed), Ben Bernanke, que indicou que as baixas taxas de juros ainda são necessárias para garantir a recuperação da economia.

Sobre o aumento na taxa de redesconto anunciado na semana passada, Bernanke comentou que tal medida, assim como a retirada das linhas especiais de financiamento, é uma resposta ao melhor funcionamento do mercado financeiro.

Repetindo o que disse em outro discurso, Bernanke afirmou que, em algum momento, o Fed precisará começar a apertar a política monetária para evitar pressões inflacionárias.

O dirigente do BC americano ainda falou sobre a transparência do Fed e disse que a autoridade monetária apoia fortemente os esforços do Congresso em obter uma nova regulação para o setor financeiro.

Na visão do economista-chefe da consultoria UpTrend, Jason Vieira, a mensagem dada por Bernanke é de que a taxa básica de juros continuará baixa por um período indeterminado de tempo. " O Fed não vai fazer nada em termos de juros porque não tem nada para ser feito " , disse Vieira, dando como exemplo a questão da inflação, que subiu um pouco nos últimos meses, mas não gera preocupação, pois a economia não oferece condições de repasse.

Na agenda econômica, surpresa negativa com a venda de imóveis novos durante o mês de janeiro. O Departamento de Comércio mostrou que as vendas desabaram 11,2% no mês passado, para 309 mil unidades na taxa anualizada, menor leitura da série histórica iniciada em 1963. A previsão era de alta de 2,6% a 3,8% sobre as vendas de dezembro.

Segundo Vieira, as projeções de alta tanto para indicadores do mercado imobiliário quanto de confiança do consumidor deixam de considerar um fator muito importante: o clima. O inverno de 2010 nos EUA é um dos mais rigorosos dos últimos anos, o que segura dentro de casa os consumidores de qualquer tipo de produto.

Em Wall Street, os agentes passaram por cima dos números do mercado imobiliário e deram mais atenção ao discurso de Bernanke, com isso as ordens de compra acabaram preponderando e o Dow Jones garantiu alta de 0,89%, enquanto o S & P 500 e o Nasdaq ganharam 0,97% e 1,01%, respectivamente.

Ao contrário dos outros pregões, o mercado local não seguiu essa melhora e também não acompanhou o aumento de preço de algumas commodities. Com isso, o Ibovespa terminou a jornada devendo 0,47%, apontando 65.794 pontos. O giro foi o menor do ano, somando R$ 5,13 bilhões.

Vale lembrar que o pregão ficou parado das 14h50 às 15h40 "para ajustes de conexões automatizadas". A BM & FBovespa levou quase cinco horas para explicar ao mercado o que levou à interrupção. De acordo com nota divulgada pela instituição, houve falha em software licenciado da Nyse Euronext, utilizado para difusão de dados e envio de mensagens de confirmação de execução de ordens.

Ainda de acordo com a bolsa, tal falha gerou lentidão no sistema e intermitência no envio de mensagens aos participantes, o que fez com que a Bolsa decidisse interromper a negociação a partir das 14h50.

A BM & FBovespa ressaltou que a causa de tal falha foi completamente identificada e corrigida.

Voltando ao pregão, o diretor de investimento da Victoire Finance Capital, Mohamed Mourabet, explicou que temos uma dinâmica internacional e uma interna que coincidem em um mesmo ponto, a expectativa de menor liquidez nos próximos trimestres.

No lado doméstico, essa dinâmica se reflete nas discussões sobre a alta de juros, enquanto no campo externo ela se reflete na visão de que muitos países estão entrando, já entraram ou vão entrar em um ciclo de restrição monetária.

" Sobre esse pano de fundo o mercado não tem uma direção definida. Com isso, o investidor deve se apoiar nas variáveis de crescimento de lucros e dividendos " , resumiu o especialista. " Tem que focar os fundamentos. " Pelas contas do diretor, que levam em consideração a relação Preço/Lucro dos papéis brasileiros, o crescimento nos lucros e o pagamento de dividendos, a Bovespa ainda oferece um potencial de retorno de 25% em 2010.

" O que é excepcionalmente bom. O investidor tem que esquecer o ano passado, quando a bolsa subia todo o mês até ganhar mais de 100% em dólar. Isso não existe mais " , alertou o especialista.

No entanto, se o foco do agente é o curto prazo, o especialista nota que ele deve procurar empresas que entregam resultados, ainda mais nesse período de safra de balanços.

Olhando além, o especialista chamou atenção para a dinâmica da taxa de juros real do Brasil, um ponto que deve ser acompanhado, pois guarda uma grande oportunidade de crescimento para as empresas voltadas ao mercado doméstico.

Segundo Mourabet, a primeira etapa de ajuste, que trouxe esse juro real, composto pela taxa nominal descontada da inflação, para a casa de 6% já está consolidada. Agora, começa a segunda etapa, na qual essa taxa real passa de 6% para 2% ao ano. " Essa é a grande oportunidade. É isso que o investidor tem de olhar. Só que essa segunda etapa vai depender da agenda política e de reformas que teremos com o próximo presidente " , explicou.

Outro assunto que deve ser levado em consideração, de acordo com Mourabet, é a oferta de dinheiro no mercado. Estão vindo cada vez mais empresas para a bolsa, só que o dinheiro é restrito. A lista de ofertas passa dos R$ 7 bilhões, sem considerar a possível distribuição do Banco do Brasil e a capitalização da Petrobras, operação de dezenas de bilhões de reais.

No front corporativo, as ações da BM & FBovespa lideraram as perdas de ponta a ponta e fecharam com baixa de 5,34%, a R$ 11,69. Os papéis movimentaram R$ 341 milhões, terceiro maior volume do dia. Os agentes não gostaram do balanço, que mostrou lucro líquido societário 8,8% maior, totalizando R$ 220,2 milhões no quarto trimestre.

Segundo o Morgan Stanley, o resultado ficou 29% abaixo de sua previsão, que era de ganho de R$ 312 milhões. A corretora manteve a nota " equalweight " , ou média do mercado para o papel e não enxerga mais uma precificação atrativa para as ações. Fora isso, o Morgan Stanley prevê queda nos volumes conforme o Banco Central começar a elevar a taxa de juros.

Passando agora para o mercado de câmbio, apesar do noticiário carregado a movimentação foi pouca. Depois de oscilar R$ 0,011 entre máxima e mínima, o dólar comercial terminou com leve baixa de 0,05%, valendo R$ 1,826 na venda.

Na roda de "pronto" da Bolsa de Mercadorias e Futuros (BM & F), o dólar caiu 0,15%, para R$ 1,8245. O volume subiu de US$ 47 milhões para US$ 59,75 milhões. Já os negócios no interbancário aumentaram de US$ 2 bilhões para US$ 3 bilhões.

No mercado loca,l o secretário do Tesouro, Arno Augustin, disse que o Fundo Soberano do Brasil (FSB) está pronto para comprar dólares no mercado interno a qualquer momento, mas a notícia não afetou o desempenho do mercado.

" Os mercados hoje se adequaram ao movimento de fora, ficaram se acomodando à situação externa. Passamos por um dia de ajustes, com os investidores analisando o discurso de Bernanke e novas informações da situação na Europa " , comentou o gerente de operações da Terra Futuros, Arnaldo Puccinelli.

Para o mercado de juros, o grande acontecimento veio após o encerramento dos negócios. Então a repercussão ficou para esta quinta-feira. O Banco Central (BC) anunciou a reversão de algumas medidas tomadas para ampliar a liquidez no sistema financeiro durante a crise global. Certas regras do depósito compulsório, fatia de recursos que os bancos não podem emprestar, voltarão a ser como eram antes.

" Esta é uma movimentação no sentido de secar a liquidez e já limpar a base monetária. Como a própria diretoria do BC e Henrique Meirelles haviam dito que o indicativo do primeiro passo do aperto viria pelo compulsório, esta é uma sinalização forte de que o aumento dos juros está mais próximo do que se imaginava " , disse o economista do Banco ABC Brasil, Felipe França.

Ao fim da jornada na BM & F, o contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) com vencimento em janeiro de 2011, o mais líquido do dia, subia 0,03 ponto percentual, a 10,39%, enquanto o vencimento no primeiro mês de 2012 avançava 0,07 ponto, a 11,56%. Os DIs de janeiro de 2013 e de 2014, por sua vez, registravam alta de 0,07 ponto e 0,03 ponto, a 11,99% e a 12,23% respectivamente.

Entre os vencimentos curtos, julho de 2010, que divide as apostas quanto à possibilidade de alta na Selic no primeiro ou no segundo semestre, subia 0,02 ponto, a 9,26%, enquanto o DI de abril mantinha taxa de 8,735%.

Até as 16h15, antes do ajuste final de posições, foram negociados 893.195 contratos, equivalentes a R$ 81,063 bilhões (US$ 44,574 bilhões), volume 52% maior que o registrado na terça-feira. O vencimento para janeiro de 2011 foi o mais negociado, com 354.710 contratos, equivalentes a R$ 32,593 bilhões (US$ 17,922 bilhões).

(Eduardo Campos | Valor)

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