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11/03/2010 - 08h20

Aversão a risco subiu derrubando bolsas e dando força ao dólar

SÃO PAULO - O pregão de quinta-feira foi pautando pela aversão ao risco nos mercados locais e externos. O tom negativo começou na Ásia, com o fraco desempenho da balança comercial da China em fevereiro, passou pela Europa, onde a Espanha teve sua classificação de risco rebaixada, e pegou aos Estados Unidos, onde a demanda por seguro-desemprego aumento acima do previsto.

Além disso, o dia foi permeado por mais notícias sobre os conflitos no Oriente Médio e Norte da África e indicações de manifestações contidas com violência na Arábia Saudita, maior produtor mundial de petróleo.

No mercado de óleo bruto, as vendas foram firmes, já que os agentes viram menor demanda mundial após os números da China. O WTI perdeu 1,6%, para US$ 102,70. Na mínima, beirou os US$ 100 dólares, mas recuperou um pouco das perdas em função do noticiário envolvendo a Arábia Saudita.

Dentro desse ambiente, a Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) chegou a testar a linha dos 65 mil pontos, pressionado principalmente por papéis de empresas de commodities e bancos. Mas recobrou um pouco de força para encerrar aos 66.040 pontos, ainda assim, queda de 1,82%. Tal pontual é a menor patamar desde 11 de fevereiro (65.755). O giro financeiro atingiu R$ 7,558 bilhões. Na semana, o Ibovespa perde 2,9%.

O analista técnico da Icap Brasil Raphael Figueredo assinala que o índice voltou a ameaçar perigo, após testar e confirmar o forte suporte na faixa dos 66.000 pontos.
"A perda dos 66.000 pontos joga o índice para os 64.000 pontos, podendo ou não ter algum enrosco pelos 65.000 pontos, voltando a imperar a tendência de baixa de médio prazo. No campo superior, o Ibovespa vai devendo pelo menos o rompimento dos 66.715 pontos, para começar a afastar o perigo de mais precipitações na venda rumo aos 67.000, onde alivia", apontou Figueredo.

Cabe lembrar que o pregão de sexta-feira é último no qual a Bovespa opera às 11h às 18h. Com o início do horário de verão dos EUA, o pregão volta a acontecer das 10h às 17h.

Em Wall Street, as bolsas também apanharam. O índice Dow Jones caiu 1,87% e perdeu a linha dos 12 mil pontos, o que não ocorria desde o dia 31 de janeiro. Já o Nasdaq recuou 1,84% e o S&P 500 se desvalorizou em 1,89%.

No câmbio, dois assuntos pautaram a formação da taxa e deram força aos compradores de moeda americana. Primeiro, os agentes seguem apreensivos com a possibilidade de alguma ação do governo para conter o viés de alta do real. E segundo, a piora do quadro externo deu força para o dólar no mundo todo.

No fim da jornada, o dólar comercial apontava alta de 0,24%, a R$ 1,661 na venda. Na máxima, a moeda foi a R$ 1,663. O giro estimado para o interbancário somou US$ 2,1 bilhões.

Na roda de pronto da Bolsa de Mercadorias e Futuros (BM&F), o dólar pronto avançou 0,37%, e fechou a R$ 1,6607. O volume subiu de US$ 86,25 para US$ 120,55 milhões.

Como na sexta-feira voltaram a circular notícias sobre a possibilidade de o governo tomar medidas para conter o viés de alta do real. No entanto, nada oficial ainda foi comunicado e ficam apenas as especulações sobre se o Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) seria ampliado novamente, se seria adotada algum tipo de quarentena ou nova limitação de posições vendidas.

Mas conforme notou um operador que pediu anonimato, se tais "ameaças" não virarem realidade logo, o mercado desiste e volta a vender dólares com força.

Passando para os juros, a ata referente à última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) trouxe uma clara mensagem: o ciclo de alta de juros será menor do que o que vinha sendo aventado pelo mercado. Os contratos de juros futuro negociados na BM&F captaram o recado e passaram por firme ajuste de baixa.

Começa a ganhar força a ideia de que o encontro de abril do colegiado do Banco Central (BC) pode marcar o último movimento de alta na taxa básica de juros, atualmente fixada em 11,75%.

Entre os argumentos utilizados pelo colegiado que levam o mercado a construir tal percepção, podemos destacar a indicação do BC de que o pior momento da inflação já ficou para trás. As leituras seguirão pressionadas neste e no próximo trimestre, mas os preços devem recuar no fim do ano.
A política fiscal passa a ajudar na contenção da demanda, já que o governo anunciou um ajuste de US$ 50 bilhões. E que as ações macroprudenciais tendem a potencializar as ações tradicionais de política monetária e que elas já mostram resultados.

Um parágrafo novo da ata, o de número 31, ganhou especial atenção dos analistas e participantes de mercado. Nele, o BC fala em um "cenário alternativo", além dos tradicionais cenários de mercado e de referência.
Nesse cenário, que considera taxa de câmbio semelhante à observada recentemente e taxa de juros captada pelo Focus, de 12,50%, a "projeção de inflação se encontra acima da meta em 2011 e ligeiramente abaixo em 2012".
Considerando ainda esse cenário alternativo, mais a perspectiva de redução de atividade doméstica e maior complexidade da cena externa, o BC aponta que a eventual introdução de ações macroprudenciais pode levar a uma reavaliação da estratégia de política monetária.

A leitura desse parágrafo por parte dos participantes do mercado resultou na criação da expectativa de que o BC pode vir a adotar novas medidas prudenciais (seja compulsório, seja restrições ao crédito) e que caso isso ocorra, o ajuste de alta na Selic poderá ser ainda menor.

O economista-sênior do Espírito Santo Investment Bank, Flávio Serrano, avaliou que a ata do Copom reforçou ainda mais sua expectativa de apenas mais uma alta de meio percentual no juro básico.

Fora isso, disse o especialista, cresceu, de fato, a probabilidade de que novas medidas prudenciais serão utilizadas pelo BC, que parece ponderar o ajuste da política monetária entre juros e ferramentas não tradicionais.

De acordo com Serrano, o cenário aponta para a necessidade de se ajustar o descompasso entre oferta e demanda da forma que for.

Outro recado que a ata dá, segundo o economista, é que há um alongamento do horizonte relevante de política monetária. Fazer cumprir a meta no ano calendário pode ser uma tarefa bastante ingrata. Por isso, das referências cada vez mais constantes à inflação de 2012. Essa é uma alteração ainda não formalizada, mas que já parece incorporada ao modo de atuação do BC.

Antes do ajuste final de posições na BM&F, o contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) com vencimento em abril apontava baixa de 0,01 ponto percentual a 11,65%. Julho de 2011 recuava 0,09 ponto, a 11,98%. E janeiro de 2012, o mais líquido do dia, apontava 12,35%, baixa de 0,19 ponto.

Ente os mais longos, janeiro de 2013 apontava queda de 0,11 ponto, a 12,70%. Janeiro de 2014 recuava 0,05 ponto, a 12,71%. Janeiro de 2015 marcava baixa de 0,04 ponto, a 12,69%. Janeiro de 2016 devolvia 0,05 ponto, a 12,58%. E janeiro de 2017 perdia 0,05 ponto a 12,48%.

Até as 16h10, foram negociados 2.158.591 contratos, equivalentes a R$ 194,11 bilhões (US$ 117,22 bilhões), trinta vezes mais do que o registrado no pregão de quarta-feira, que foi mais curto em função do carnaval. O vencimento janeiro de 2012 foi o mais negociado, com 808.768 contratos, equivalentes a R$ 73,53 bilhões (US$ 44,40 bilhões).

(Eduardo Campos | Valor)
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