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17/03/2010 - 13h38

BC e mercado quase sempre falam a mesma língua, aponta estudo

SÃO PAULO - As previsões dos agentes de mercado e as decisões do Comitê de Política Monetária (Copom) são alinhadas, ou o mercado pensa uma coisa, enquanto o Banco Central (BC) faz outra? Uma forma de descobrir isso é avaliar a correlação entre as estimativas dos agentes e os resultados dos encontros, como os de hoje, do colegiado do Banco Central.

O economista-chefe da Prosper Corretora, Eduardo Velho, fez essa conta e descobriu que BC e mercado falaram a mesma língua na maioria das vezes desde 2003.

Outra constatação importante do estudo, segundo o economista, é que ele mostra que, ao longo do tempo, a política monetária está apresentando um grau de previsibilidade cada vez maior. "O que é bastante positivo." Tomando como base a série das decisões do Copom entre 2003 e 2009 e a mediana das expectativas da Selic captadas pelo boletim Focus, tanto na categoria geral, como das instituições Top Five, Velho constatou que esses dois indicadores registram uma correlação expressiva, além de mostrar uma capacidade preditiva elevada para a decisão da Selic no mês de referência.

O estudo do especialista mostra que em 2004 esse grau preditivo era de 50%, tanto pela pesquisa Focus da semana anterior à decisão como da semana corrente, ou seja, em 50% das vezes mercado e BC estavam alinhados.

A partir de 2005, esses percentuais aumentaram, e segundo Velho, tal resultado era esperado, reflexo da maior credibilidade da política monetária, após resultados satisfatórios.

Em 2006, por exemplo, a expectativa da Selic captada na semana anterior à reunião do Copom tinha uma correlação de 75%. Quando se considera a semana da reunião, ou seja, a pesquisa divulgada dois dias antes do encontro do colegiado, o economista constatou que esse percentual subiu a 87,5%. Tal grau de correlação entre BC e mercado também foi verificado em 2007.

Ampliando a janela de tempo estudada, temos que de 2003 a 2007, a mediana das expectativas da Selic, captada na semana anterior e na semana da reunião do Copom, registrava correlações de 61% e de 69%, respectivamente, com a tomada de decisão do Comitê. Já em 2008 e 2009, esses mesmos percentuais subiram, em média, para 77%.

Com base nesses números e trazendo a análise para o período atual de decisão de política monetária, Velho nota que a pesquisa Focus apontava nesta semana, e na semana anterior, a manutenção da taxa básica de juros em 8,75% na reunião desta quarta-feira. Portanto, conclui o economista, se valer o padrão histórico e os resultados apresentados pelo estudo, a Selic seria mantida em 8,75%.

Entretanto, Velho não aposta todas as suas fichas no modelo, pois avalia a necessidade de elevar a taxa básica de juros em 0,5 ponto percentual na reunião de hoje. "Essa divergência entre a pesquisa de expectativas com a decisão da Selic não seria a primeira", diz o economista, apontando que isso já aconteceu, por exemplo, nas reuniões de outubro de 2005, janeiro e agosto de 2006 e janeiro de 2007.

Deixando o estudo de lado, Velho explica o porquê de sua posição favorável à alta da Selic de 8,75% para 9,25%. O ponto central da argumentação do economista é a piora contínua nas expectativas de inflação.

Velho explica que, na calibragem dos modelos, existem incertezas em relação à projeção da inflação e à evolução do hiato entre crescimento efetivo e o potencial. É por isso que existem os limites inferior e superior da banda de inflação, no caso brasileiro dois pontos percentuais para mais ou para menos sobre o centro da meta de 4,5%.

No entanto, explica, essa margem de tolerância não significa que o BC tenha que aceitar uma inflação mais elevada no ano corrente, o que configuraria o relaxamento da política monetária.

Tal postura seria aceitável no caso de um choque de oferta expressivo. Mas, mesmo com esse choque, a política monetária deve ser ajustada para evitar os canais secundários que levam à alta dos preços internos.

"Será que efetivamente o BC quer esperar pela divulgação de outros indicadores de preços para acionar o ciclo de alta dos juros em abril? Será que é vantajoso esperar novos índices de atividade econômica? Por que não ajustar logo a política monetária, de forma até que o término do novo ciclo restritivo não se prolongue até o final do calendário eleitoral, ou quem sabe, do início da campanha nas ruas?", questiona o economista.

(Eduardo Campos | Valor)

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