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18/03/2010 - 08h22

Bolsas tiveram dia de retomada, mas dólar voltou a subir

SÃO PAULO - As incertezas sobre a crise nuclear no Japão e sobre as revoltas no Norte da África e Oriente Médio não aliviaram, mas a quinta-feira foi de recuperação nos mercados locais e externos. As bolsas fecharam em alta e o dólar perdeu valor ante seus principais rivais. Vale ressaltar, no entanto, que o real escapou a esse movimento e fechou com firme alta.

Na agenda de indicadores do dia, foi bem recebida a queda nos pedidos por seguro-desemprego nos Estados Unidos e deixada em segundo plano a alta na inflação ao consumidor e a queda na produção industrial. No Japão, seguem os esforços para resfriar o reator número 3 da usina de Fukushima e a expectativa era de os engenheiros conseguiram religar a energia no reator 2, o que facilitaria o resfriamento.

Ainda na noite de ontem, os ministros das finanças do Grupo dos 7 concordaram em fazer uma ação coordenada para tirar força do iene, que subiu a patamares recordes após o terremoto e tsunami que atingiram o país. Um iene forte poderia atuar com uma barreira à recuperação, ao prejudicar exportações.

O documento conjunto apresentado após a reunião aponta que os Estados Unidos, Inglaterra, Canadá e União Europeia se juntarão ao Japão em uma "intervenção coordenada" no mercado de moedas já nesta sexta-feira. No Norte da África e Oriente Médio as coisas deve esquentar mais, já que na noite de ontem o Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU) autorizou ações militares contra o ditador Muamar Gadafi. Ontem, o barril do tipo WTI voltou a fechar em alta, ganhando 3,5% e retomando a linha dos US$ 100 dólares. Ontem mesmo, mas no After Market, o barril já passava dos US$ 103.

Por aqui, a Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) teve novo pregão errático, mas garantiu variação positiva. No fim da jornada o Ibovespa apontava alta de 0,32%, aos 66.215 pontos. O giro financeiro atingiu R$ 5,792 bilhões. Na semana, o índice ainda cai 0,7%.

Em Wall Street, a retomada foi mais firme. O Dow Jones ganhou 1,39%, a 11.774 pontos. O S&P 500 se valorizou 1,34%, a 1.273 pontos. E o Nasdaq avançou 0,73%, a 2.636 pontos.

Na visão do diretor de operações da Hera Investimentos, Nicholas Barbarisi, o movimento das bolsas foi apenas uma correção técnica, após as quedas recentes.

"Os investidores aproveitaram para comprar ativos mais baratos, mas a trajetória não sinaliza um movimento de alta ou uma retomada do mercado. A Bovespa está claramente num movimento lateral, em grande parte em função do cenário geopolítico incerto no Oriente Médio, do caos no Japão e também de uma economia interna que não tem levado a um cenário favorável para renda variável", observou.

No câmbio, o pregão foi bastante movimentado. Depois de seguir o sinal externo e perder para o real, o dólar teve forte movimento de alta, chegando a subir mais de 1%.

As compras recuaram um pouco, mas, ainda assim, o dólar comercial fechou com alta de 0,71%, a R$ 1,686 na venda, maior preço desde 11 de janeiro. Na semana, a divisa acumula alta de 1,20%.

O momento de maior estresse aconteceu entre 14h30 e 15 horas, quando se assistiu a uma corrida em busca de moeda americana. O mais impressionante são as explicações para essa disparada. Segundo operadores, parte do mercado leu um "pisca" sobre aumento de impostos em um monitor de notícias, como um aumento de tributação para o mercado câmbio. No entanto, o referido pisca dava conta do mercado de bebidas, que, de fato, terá tributação maior dentro de 60 dias.

Para piorar a situação, o mesmo monitor de notícias piscou um leilão de swap cambial reverso. A operação não constava no Sisbacen, sistema de comunicação do BC com o mercado, mas até que tal conferência fosse realizada, o estrago já estava feito.

Como bem lembrou um operador que preferiu não se identificar, esse tipo de reação mostra quão elevado é o nível de estresse do mercado. Qualquer coisa leva os agentes ao estado de pânico. "Se alguém bater na mesa, o mercado acha que o mundo está acabando", exemplificou.

Passado esse "susto", os preços recuaram, mas não perderam o viés de alta. Dando sustentação às compras estavam indicações de que um fundo estrangeiro especializado em operação de alta frequência estaria zerando posições. Também foi detectada remessa de dólares de uma grande empresa do setor de papel e celulose.

Essas percepções ganham respaldo em dois fatores. Primeiro, o elevado volume negociado no interbancário, que passou dos US$ 4,2 bilhões. Segundo, as corretoras mais ativas no mercado de contrato futuros foram aquelas que tradicionalmente representam investidores estrangeiros.

O dia ainda teve um desmentido do Ministério da Fazenda, quanto à edição de medidas cambiais nesta quinta-feira. Na roda de pronto da Bolsa de Mercadorias e Futuros (BM&F) o dólar pronto ganhou 0,69%, e fechou a R$ 1,6825. O volume caiu de US$ 315 milhões para US$ 244,25 milhões.

Também na BM&F, o dólar para abril apontava alta de 0,14%, a R$ 1,685, antes do ajuste final de posições. Cabe lembrar, no entanto, que o contrato fez preço máximo em R$ 1,70. O recuo nas vendas no mercado futuro ocorreu após o encerramento dos negócios no pronto, onde o pregão termina por volta das 16 horas. Por isso, os preços a vista não desinflaram.

Por esse motivo, é possível que o dólar comercial abra o pregão de sexta-feira apontando para baixo, para manter a correlação existente com os contratos futuros.

No câmbio externo, o Dollar Index, que mede o desempenho da divisa americana ante uma cesta de moedas, terminou o dia com queda de cerca de 1%, enquanto o euro subiu 0,85% retomando a linha de US$ 1,40.

Encerrando com os juros futuros, o fato mais relevante do dia para esse mercado aconteceu bem depois do fechamento. O presidente do Banco Central (BC), Alexandre Tombini, discursou à noite na posse da nova diretoria da Febraban.

O presidente do BC voltou a afirmar a visão trazida pela ata do Comitê de Política Monetária (Copom) de que a inflação dá trégua apenas no fim do ano. E também mostrou confiança no mix de política monetária, medidas prudenciais e ajuste fiscal para conter o descompasso entre oferta e demanda e fazer os preços mirarem o centro da meta.

A novidade foi os comentários sobre o terremoto no Japão, que, de acordo com Tombini, trazem mais incertezas sobre a recuperação global e a evolução dos preços das commodities.

Tombini avalia que no médio prazo certamente veremos um esforço de reconstrução, "talvez com mudança da matriz energética local e global" (clara referência à crise nuclear japonesa e suas possíveis consequências sobre a produção de energia nuclear). Mas no curto prazo, continuou, poderá haver uma interrupção das cadeias de produção e repatriação de ativos japoneses para ajudar o financiamento da recuperação.

"E tal fato trará incertezas sobre a demanda por bens e serviços importados, evolução das taxas de câmbio e sobre o comportamento de consumo e poupança das famílias diante dessa tragédia", disse.

A postura do BC diante desses acontecimentos é de observação atenta, mas tamanha incerteza não justifica "uma passividade ou uma postura puramente reativa".

Tombini apontou, ainda, que essa dinâmica tem impacto sobre a inflação no Brasil, mas que esses não são os únicos fatos que explicam a inflação corrente. O presidente chamou atenção aos "choques" de preços administrados, alimentos in-natura e serviços. De volta ao pregão, os contratos de juros futuros longos recuperam os prêmios perdidos no pregão de quarta-feira. O aumento na inclinação da curva futura pode ser relacionado à melhora de humor do mercado global depois de dois dias de forte pessimismo com o futuro da economia japonesa e mundial.

Com isso, sobem as taxas em outros mercados, como nos Estados Unidos. Outros ativos de risco também se valorizam, como ações e commodities. Apesar de existir justificativa para aumento nos prêmios, um operador que preferiu não se identificar, apontou que a alta estaria um pouco exagerada, justamente em função da grande incerteza que o quadro externo apresenta.

Antes do ajuste final de posições, o contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) com vencimento em abril apontava estabilidade a 11,65%. Julho de 2011 recuava 0,01 ponto, a 11,98%. E janeiro de 2012 apontava 12,32%, alta de 0,01 ponto.

Entre os mais longos o ajuste foi mais acentuado, janeiro de 2013, o mais líquido do dia, apontava alta de 0,07 ponto, a 12,81%. Janeiro de 2014 avançava 0,07 ponto, a 12,84%. Janeiro de 2015 também marcava alta de 0,07 ponto, a 12,82%. Janeiro de 2016 acumulava 0,05 ponto, a 12,69% e janeiro de 2017 se valorizava 0,08 ponto, a 12,64%.

Até as 16h10, foram negociados 701.820 contratos, equivalentes a R$ 59,63 bilhões (US$ 35,76 bilhões), queda de 30% sobre o registrado no pregão anterior. O vencimento janeiro de 2013 foi o mais negociado, com 226.755 contratos, equivalentes a R$ 18,28 bilhões (US$ 10,96 bilhões).

(Eduardo Campos | Valor)
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