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16/08/2010 - 08h00

Semana foi de perda nas bolsas e alta no dólar

SÃO PAULO - A semana que passou teve viés negativo não só para o mercado local, mas também para outras praças de negociação ao redor do mundo. A discussão sobre o ritmo de crescimento das economias dos Estados Unidos e da China trouxeram incerteza às mesas de operação, o que resultou em perdas nas bolsas e valores e alta no preço do dólar.

Discute-se ainda, se o desmanche de posições em ativos de risco foi apenas uma realização de lucros depois do forte otimismo de julho, ou se o cenário virou, mesmo, para pior.

Um bom termômetro para essa discussão é o índice VIX, que mede a volatilidade das opções do mercado americano é visto como um termômetro da aversão ao risco. O índice saiu da linha dos 22 pontos para os 26 pontos na semana. Uma alta não desprezível, mas ainda bastante distante dos 50 atingidos em meados de maio, período recente de maior instabilidade.

Entre os ativos externos, o euro foi bastante atingido. O preço da moeda comum europeia caiu cerca de 5% na semana. Depois de fazer máximas ao redor de US$ 1,34, fechou ao redor de US$ 1,27.

O petróleo também levou um tombo, começou a semana acima dos US$ 80 o barril de WTI e fechou a US$ 75,39.

Em Wall Street, o Dow Jones perdeu 3,3% na semana, e não mais registra valorização no acumulado do ano. O S & P devolveu 3,8%. E o Nasdaq caiu 5%.

A Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) acompanhou os pares externos e perdeu 2,69% na semana. A queda não foi maior em função de noticias corporativas que deram fôlego a alguns papéis do índice.

Para esta semana, a agenda externa não reserva dados de grande relevância, com destaque para a produção industrial nos EUA. Por aqui, o foco está na inflação.

Voltando agora ao pregão de sexta-feira, o Ibovespa não acompanhou as perdas externas. As ações da OGX Petróleo e TAM contribuíram para esse descolamento, que resultou em alta de 0,45% para o índice, que encerrou aos 66.264 pontos. O giro financeiro atingiu R$ 5,99 bilhões.

As ações da TAM disparam no final do pregão conforme vazou a informação de que a companhia e a chilena LAN vão unificar operações. O papel PN saltou 27,64%, para R$ 36,20, com o quarto maior giro do dia, de R$ 265,4 milhões. Vale lembra que o papel chegou a lidar as perdas do dia, caindo mais de 5%, para R$ 26,90. De carona, Gol PN subiu 10,36%, a R$ 26.

A operação prevê uma reorganização societária que resultará no fechamento de capital da TAM e na troca de ações da empresa brasileira por recibos de ações (BDRs) da companhia chilena, que serão negociados na BM & FBovespa.

A empresa resultante da fusão se chamará Latam. Ela oferecerá voos para mais de 115 destinos em 23 países, e terá mais de 40 mil funcionários. As marcas TAM e LAN serão mantidas nos respectivos aviões.

Mas não é isso que provocou tamanha corrida aos ativos da TAM. O que agradou aos investidores foi a relação de troca de ativos. A TAM foi avaliada em R$ 6,5 bilhões no negócio, segundo estimativa feita pelo Valor com base no número atual de ações da companhia e nos termos do acordo. Considerando os preços de fechamento das ações da TAM (R$ 36,20 na Bovespa) e da LAN (13.900 pesos chilenos, cerca de R$ 48, na bolsa de Santiago), a relação de troca estabelecida no acordo, de 0,9 ação da LAN para cada ação da TAM equivale a R$ 43 por ação da companhia brasileira.

Já os ativos da OGX Petróleo, ganhavam 2,29%, para R$ 19,18, com o maior volume do dia R$ 746,2 milhões. Na quinta-feira, a empresa anunciou a descoberta de grande quantidade de gás no poço OGX-16, localizado na bacia terrestre do Parnaíba, situada na região Nordeste.

No câmbio, nada de novo. O mercado parece "travado" ao redor de R$ 1,770. Depois de oscilar R$ 0,009 entre máxima e mínima, as ordens de venda prevaleceram por pequena margem e o dólar comercial caiu 0,11%, para encerrar a R$ 1,772.

Com três dias de alta em cinco pregões, a moeda fechou a semana 0,74%, mais cara. Agora em agosto, o preço do dólar sobe 0,91%.

Na roda de "pronto", da Bolsa de Mercadorias e Futuros (BM & F) o dólar ainda ganhou 0,18%, para R$ 1,7723. O volume caiu de US$ 142,5 milhões para US$ 81,75 milhões.

Segundo o analista da BGC Liquidez , Mário Paiva, o câmbio local acompanhou a falta de rumo de outros mercados, como bolsas, moedas e commodities.

Apesar da agenda do dia, que mostrou aumento nas vendas varejistas dos Estados Unidos e melhora na confiança do consumidor americano, as notícias não tiveram força para colocar o mercado nem para baixo nem para cima, lembrou o especialista.

Ainda de acordo com Paiva, não só o dólar, mas outros ativos continuam dentro de um movimento de correção técnica, porém com espaço para movimentos um pouco mais amplos.

O analista lembra que esse ajuste é uma "resposta" ao otimismo exagerado do mês de julho. "Sabemos que o mercado sempre exagera no otimismo e no pessimismo."
O mercado de juros futuros é o oposto da bolsa e do câmbio. Os agentes parecem determinados a aproveita o que se chamam de "gordura" na curva futura, ou seja, vamos aplicar agora, pois esses juros serão menores.

Na sexta-feira, os contratos longos marcaram mais um pregão de baixa, mas desta vez alguns suportes técnicos foram rompidos e alguns vencimentos se aproximam das mínimas do ano.

Na visão do sócio da Oren Investimentos, Jacob Weintraub, as curva longa está fechando em função do ambiente de incerteza quanto ao crescimento da economia mundial.

Weintraub chama atenção ao comportamento do títulos da dívida americana, que estão em forte movimento de baixa. "Então, os juros acompanham esse movimento."
Ainda de acordo com o especialista, a maior prova de que o movimento de queda não tem relação com a política monetária local, mas sim com essa deterioração de expectativas globais, é que os vencimentos curtos seguem estáveis.

Para Weintraub, ao contrário do que a curva curta sugere, o BC não deve parar de subir os juros tão cedo. Mesmo que em menor ritmo, novos ajustes devem ser feitos. "A inflação ainda precisa ser tratada com certa responsabilidade", disse o especialista.

Os agentes também assimilaram as declarações do presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, que negou que tenha sinalizado mal a decisão do Copom de julho.

"O fato de que muitos analistas não previram exatamente aquilo que o Banco Central decidiu não significa que o BC tenha coordenado mal as expectativas", disse Meirelles na abertura do V Seminário Riscos, Estabilidade Financeira e Economia Bancária, promovido em São Paulo.

Cabe lembrar que o mercado ficou dividido sobre a decisão. Os economistas, tomando como base a ata do encontro de junho e o relatório de inflação, acreditavam em nova alta de 0,75 ponto na Selic. Já os operadores de mercado tomaram uma postura diferente e passaram a migrar para o meio ponto.
Essa reversão de apostas no mercado aconteceu de forma bastante rápida. Em apenas uma semana, a precificação do mercado futuro já está mostrando o meio ponto como mais provável.

Meirelles também passou o recado de que as publicações do Banco Central não devem ser vista como algo em "tempo real".

Para o economista da Oren Investimentos, Gustavo Mendonça, o que mais chamou a atenção foi a atitude de Meirelles, que dificilmente fala de política monetária e comenta movimentos de mercado em eventos como o de sexta-feira.

Outro ponto que surpreendeu o economista foi a minimização da importância do que está escrito no relatório de inflação. A ideia transparecida, segundo Mendonça, é de que o documento não é uma sinalização para as decisões do Comitê de Política Monetária (Copom).

"Achei isso estranho, pois o mercado entende e o próprio BC disse que a ata e o relatório de inflação são os instrumentos de comunicação oficial", disse o economista.

Antes do ajuste final de posições na BM & F, o contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) com vencimento em setembro de 2010 apontava alta de 0,01 ponto, a 10,65%. Outubro de 2010 não tinha oscilação, a 10,71%. E janeiro de 2011 também mostrava estabilidade, em 10,78%.

Entre os longos o ajuste foi maior, janeiro de 2012, o mais líquido do dia, caía 0,06 ponto, a 11,46%, uma das menores taxas do ano. Janeiro de 2013 apontava baixa de 0,08 ponto, a 11,66%. E janeiro 2014 devolvia 0,09 ponto, também a 11,67%.

Até as 16h10, foram negociados 1.119.075 contratos, equivalentes a R$ 99,86 bilhões (US$ 56,32 bilhões), alta de 33% sobre o registrado no pregão anterior. O vencimento janeiro de 2012 foi o mais negociado, com 342.600 contratos, equivalentes a R$ 19,49 bilhões (US$ 16,63 bilhões).

(Eduardo Campos | Valor)
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