A eventual abertura do mercado cubano ao exterior, avaliada como possível diante da renúncia de Fidel Castro à Presidência de Cuba, nesta terça-feira, deve ter pouco impacto no comércio exterior do Brasil. Os negócios com os cubanos representam hoje apenas 0,2% das exportações brasileiras.
Investidores ficam de olho no potencial de Cuba
Leia especial sobre Fidel CastroO ponto de partida da ampliação das negociações cubanas com outras nações, segundo o diretor da consultoria LCA, Luiz Guilherme Piva, é a reação dos Estados Unidos à notícia. Até hoje, por questões ideológicas, Cuba, que viveu por 49 anos sob a ditadura castrista, mantinha seu comércio totalmente fechado ao norte-americano e vice-versa.
"Tudo dependerá da reação internacional à notícia de hoje. Caso haja um desbloqueio comercial de Cuba, sobretudo com os Estados Unidos, provavelmente o Brasil terá um ganho".
Para o professor de economia do Ibmec São Paulo Daniel Augusto Motta, com a retirada de Fidel do cenário, é possível que Cuba fique mais próxima do regime capitalista e, assim, recomponha a participação de prestígio que poderia ter tido no mercado internacional com a exportação de commodities agrícolas. No entanto, esta mudança deve ocorrer no médio prazo apenas, não antes de cinco anos.
Segundo Piva, mesmo com a eventual abertura do mercado cubano, o peso de Cuba na balança comercial brasileira é "pífio" e não implicará um fluxo muito maior de moeda do que o já existente.
Conforme dados consolidados de 2007 pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, o Brasil obteve superávit na balança comercial com Cuba de US$ 235 milhões. No período, Cuba representou 0,2% das exportações brasileiras, com US$ 323 milhões e 0,07% das importações, com US$ 88,8 milhões.
Entre os principais produtos importados pelo Brasil do comércio cubano, destaque para naftas para o setor petroquímico (matéria-prima derivada do petróleo) e medicamentos. Na contrapartida, as mercadorias que mais saíram do território brasileiro para Cuba foram açúcar, óleo, café e carne.
Segundo o analista, Brasil e Cuba possuem alguns pontos em comum como relações culturais e interesses diplomáticos que possam facilitar o acesso entre os países. De um lado, por exemplo, existe a tecnologia da área médica cubana, que muito interessa ao Brasil. Por outro lado, a economia brasileira tem avançado na produção de biodiesel e etanol, uma importante fonte de substituição do uso do petróleo.
"O Brasil tem uma oportunidade bastante grande de vendar para Cuba, que possui uma economia bem carente, desde produtos primários até os de maior valor agregado. E há de se destacar, também, que o padrão de consumo dos dois países é similar. Mas o efeito positivo ao Brasil deve ser praticamente invisível", analisa.
Logo após o anúncio da renúncia de Fidel Castro, o presidente dos Estados Unidos disse que esta notícia deve representar o início da transição democrática de Cuba, contudo, não é motivo para que a economia norte-americana proponha o fim do embargo comercial feito àquele país. Bush disse, ainda, que os demais países devem se encorajar no auxílio à população caribenha para modificar a estrutura política da ilha.