As reservas internacionais (ativos que o país possui no exterior), estimadas em US$ 180 bilhões pelo Banco Central, são "exageradas" na avaliação do economista da USP (Universidade de São Paulo), Carlos Eduardo Soares Gonçalves. Para ele, embora não exista um patamar exato para determinar o nível ideal de moeda estrangeira na economia de um país, cerca de US$ 140 bilhões já seria um bom número.
Analista explica o que significam as reservas internacionais 
"É uma via de duas mãos. Existe o benefício de acumular reservas, mas também há o lado do custo. Já estamos bem preparados para lidar com choques externos, não precisa de um montante excessivo".
O professor argumenta que o governo atual utiliza a compra de dólares (acumulação de reservas) como ferramenta de contenção da queda brusca do dólar. Quanto mais crescem as exportações, bem como os investimentos internacionais no país, maior é a quantidade de moeda estrangeira. Então, para que a oferta não seja exacerbada, forçando uma desvalorização elevada do dólar, o Banco Central entra no mercado e compra esse excedente.
Um outro motivo para acumular reservas, segundo Gonçalves, é o preparo para o país superar possíveis crises internacionais. "O Banco Central argumenta que irá acumular dólares para enfrentar uma possível turbulência. Quando Lula assumiu a presidência em 2003, as reservas somavam US$ 35 bilhões, e hoje, superam os US$ 180 bilhões. Está mais do que suficiente", comenta.
O beneficio de um país obter dólares é passar uma imagem de liquidez (capacidade de transformar um investimento em dinheiro rapidamente). Deste modo, o país consegue atravessar um cenário turbulento com tranqüilidade e transmite aos investidores a certeza de que tem condições de honrar compromissos financeiros.
Abre-se, então, um círculo virtuoso, já que, quanto melhor é a condição de quitar dívidas, menor é o risco de a economia gerar calote, e, conseqüentemente, aumentam os investimentos e o crescimento do
PIB (Produto Interno Bruto).
Lado ruimJá o lado negativo de possuir grande quantidade de moeda estrangeira, de acordo com Gonçalves, é o risco de inflação. Para obter dólares, o Banco Central vai até o mercado e dá reais em troca, expandindo sua oferta na economia, propiciando maior poder de consumo para a sociedade, o que pode gerar aumento dos preços.
Para evitar esse efeito, o BC faz uma operação casada e vende títulos do governo na tentativa de enxugar os reais a mais que estão em giro. Mas esse mecanismo não é compensatório na visão do professor, já que, ao deixar o dólar rendendo lá fora, o governo ganhará os juros da operação, de aproximadamente 4%, mas terá de arcar com os juros da dívida que possui em reais, regulada pela taxa Selic, hoje em 11,25% anuais.
"Na prática, o governo adquire uma dívida em reais que custa mais do que manter os ativos em dólares. Fiscalmente, a operação não é vantajosa para o Brasil", explica.
Na China, por exemplo, onde essa transação é praticada, não há perdas tão graves, já que o juro interno do país é bem mais baixo, cerca de 5% anuais.
ReservasEntre os principais usos das reservas internacionais em uma economia, tem-se, por exemplo, a própria quitação da dívida externa, recompra da dívida pública e até mesmo a aquisição de empresas estrangeiras. Mas o economista adverte que o governo toma a iniciativa correta ao deixar as reservas aplicadas em títulos do Tesouro americano, pois são ativos conhecidos como os mais seguros do mundo.
É importante ressaltar, entretanto, que os reais que o Brasil possui para comprar dólares são oriundos de uma economia fiscal rígida, sempre buscando superar as metas do chamado
superávit primário.
Para conseguir essa economia, o governo deixar de fazer algumas despesas, o que pode ser bom, mas também ruim, porque não são realizados alguns investimentos em áreas sociais.
Grau de investimentoSegundo Carlos Thadeu de Freitas Gomes, economista-chefe da CNC (Confederação Nacional do Comércio), professor do Ibmec-RJ e ex-diretor do BC, falta pouco para que o país obtenha, oficialmente, a classificação de grau de investimento. "Na prática, o Brasil já é investment grade". Veja sua análise sobre as reservas internacionais no vídeo abaixo:
(Com informações da Reuters)