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02/09/2008 - 15h00

Dinheiro do pré-sal demora e não é bilhete de loteria, dizem especialistas

Ana Carolina Lourençon
Em São Paulo
A extração piloto de petróleo da camada pré-sal no litoral brasileiro deve começar a partir do próximo ano, mas isso não vai render dinheiro nenhum agora. A exploração comercial mesmo só deve acontecer após 2015.

A avaliação é do professor de engenharia do petróleo da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) Virgílio José Martins Ferreira Filho.

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O geólogo e pesquisador do Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-graduação e Pesquisa em Engenharia (Coppe), da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), Giuseppe Bacaccoli, confirma o diagnóstico e diz que o dinheiro do pré-sal virá com o tempo, mas "não é um bilhete premiado da noite para o dia".

"A produção piloto da camada do pré-sal deve acontecer em 2009, mas será uma quantidade pequena, de 20 mil barris por dia, apenas para efeito de análise do óleo. A produção comercial virá somente dentro de aproximadamente sete anos", diz.

Além disso, o professor Ferreira Filho adverte que a profundidade do pré-sal pode trazer para a Petrobras um grande risco.

"Os equipamentos que fazem este tipo de serviço são extremamente caros. Com o preço do petróleo nas alturas, é fácil obter um financiamento para a realização do projeto, mas como se trata de uma commodity cujo preço é bastante volátil, caso a cotação do barril caia muito, o processo de extração do óleo pode não ser mais economicamente viável", diz.

Segundo o pesquisador Giuseppe Bacaccoli, o óleo do pré-sal está localizado em uma área cuja profundidade é de mais de 6.000 metros. Para chegar até lá, é necessário atravessar uma camada de 2.000 metros de sal.

"O sal existente se comporta de uma maneira plástica, ele forma uma camada que se move e tenta fechar o acesso ao poço que existe abaixo dele", afirma Bacaccoli.

Para chegar ao pré-sal, também é preciso que os equipamentos de perfuração resistam a altas pressões e temperaturas, o que torna o processo bastante caro.

Conforme estudo do banco UBS, o valor total para extrair o óleo do pré-sal está estimado em US$ 600 bilhões, mas de acordo com Bacaccoli, com US$ 300 bilhões, no máximo, já é possível concretizar o projeto.

O problema, diz Bacaccoli, é que o retorno financeiro desse investimento deve vir a partir de 2015, quando prevê que o Brasil será exportador de petróleo e auto-suficiente em gás.

Em 2015, segundo ele, a capacidade produtiva do país deve passar de 2 milhões de barris diários para 4,5 milhões da barris, dos quais 1 milhão seria vendido ao exterior.

Com esse incremento, o país deve começar a receber receitas bastante "palpáveis" na opinião do pesquisador.

"Se considerarmos o que está sendo dito, que o pré-sal pode ter uma reserva de 70 bilhões de barris de óleo recuperável, com o preço do barril a US$ 100, a receita brasileira com o petróleo ficaria na casa dos trilhões de dólares. Mas o importante é ter a consciência de que este é um dinheiro que virá com o tempo, não é um bilhete premiado da noite para o dia", diz.

Vantagem
O professor Ferreira Filho diz que a grande vantagem do pré-sal para o Brasil são as elevadas quantidades de óleo que a camada possui.

"Para ter uma noção de volume do reservatório, só no campo de Tupi, na bacia de Santos, são 5 bilhões de metros cúbicos, segundo afirma a Petrobras",diz.

A análise é compartilhada por Bacaccoli. "As estimativas dizem que o campo de Tupi possui cerca de 50% das reservas totais de óleo brasileiras. Especialistas dizem que todo o pré-sal do país deve conter de 50 bilhões de barris a 300 bilhões de barris de óleo. Independentemente de ser a projeção mais pessimista ou a mais otimista, esses números já colocam o Brasil entre os maiores exportadores de petróleo do mundo", afirma.

No contexto internacional, o Brasil deve exportar não só o próprio petróleo, mas também conhecimento e tecnologia, segundo Ferreira Filho.

"Se o Brasil souber fazer bom uso dessas reservas, será um país com dinheiro, tecnologia e indústria forte. Então, vai certamente vender a tecnologia de perfuração para outros países que possam descobrir óleo do pré-sal, como é o caso da costa leste africana", diz.

Refino: mau negócio?
Bacaccoli diz que as afirmações da Petrobras de que o país poderia refinar o óleo do pré-sal, em vez de exportar petróleo bruto, precisam ser mais bem avaliadas.

"O governo fala muito em refinar óleo para elevar as receitas, mas não considera a conveniência do processo", afirma.

A estatal disse no mês passado que tem planos de inaugurar cinco refinarias até 2016, apesar de estimar que esta quantidade não deve ser suficiente para processar todo o combustível que será obtido com as áreas do pré-sal.

De acordo com os cálculos do pesquisador, com o barril de petróleo a US$ 100, e o custo do refino de US$ 3 cada unidade, a atividade de refinaria torna-se pouco rentável e com margens de ganho muito pequenas.

"A construção de uma refinaria moderna de petróleo hoje custa cerca de US$ 2 bilhões, mas é muito difícil encontrar quem queira aplicar capital neste projeto sabendo que o retorno do investimento não virá em menos de 20 anos e o ganho será de menos de 10% do preço do barril", diz.

Nos dias de hoje, a atividade de refino não é uma boa alternativa para o Brasil, diz Bacaccoli. A competição com outros países é acirrada e pode ser que a qualidade do óleo refinado brasileiro não seja tão boa.

"O Brasil pode descobrir que exportar óleo cru é melhor que vender derivados do petróleo", afirma.

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