A crise financeira que nasceu nos EUA e ameaça o mundo deve ter um reflexo na produção de riquezas no Brasil. O crescimento do
PIB (Produto Interno Bruto) do próximo ano deve ser menor do que poderia ser, por causa da escassez global de crédito.
A avaliação é do vice-presidente da SulAmérica Investimentos, Marcelo Mello. Segundo ele, tomar dinheiro emprestado deve ficar caro. Com menos recursos, as empresas vão ter de produzir menos. Isso tem um impacto na economia, que tende a crescer num ritmo mais lento.
O agravamento da crise financeira fez com que parte dos bancos norte-americanos fechasse suas linhas de crédito para exportação na semana passada e alertasse que não haveria mais rolagem de dívidas, exigindo o recebimento de todos os empréstimos concedidos na data do vencimento.
Segundo o economista, com o pacote que os EUA planejam contra a crise, os bancos estrangeiros devem recuar na decisão e retomar as linhas de crédito. Contudo, o custo do dinheiro deverá ficar muito mais alto, restando aos bancos nacionais a tarefa de suprir a demanda.
Mello afirma que o BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) deve tentar atender toda a necessidade de crédito das empresas no país. Entretanto, a tarefa é difícil.
"O BNDES deve tentar equilibrar um pouco a redução de crédito dos bancos estrangeiros, mas como o mercado doméstico tem apresentado uma demanda bastante elevada por investimentos, o BNDES não deve conseguir atender a todos e, por conta disso, certamente vai trabalhar com linhas de financiamento mais caras", diz.
As empresas menores devem, portanto, reduzir seus planos de investimento e contar com uma capacidade produtiva menor do que previam, culminando em lucros mais enxutos e um crescimento bem menor para a economia brasileira nos próximos dois anos.
"Esse cenário deve acontecer a partir de 2009. Não me espantaria se o PIB crescesse, no período, menos que 3,4%, já que o momento é de arrefecimento mundial", diz.
Dólar valorizadoA crise bancária nos Estados Unidos colaborou para que o Brasil voltasse a registrar
déficit em conta corrente, mas esse movimento não deve trazer uma preocupante valorização do dólar, segundo a opinião de Marcelo Mello.
"O Brasil tem um ponto que o favorece que é o investimento estrangeiro, que continua alto no país. Mesmo que haja um crescimento do déficit em conta corrente, existe um equilíbrio que são os recursos que chegam ao país para alavancar o setor produtivo", diz.
Devido à crise bancária nos Estados Unidos, houve uma fuga em bando dos investidores estrangeiros do Brasil, saindo da Bolsa com medo de perder dinheiro.
Com a contração de crédito internacional, muitas empresas aumentaram a remessa de dividendos ao exterior para cobrir rombos. Esses dois movimentos fizeram o dólar chegar a subir a
R$ 1,921, contribuindo para o temor de uma elevação brusca da moeda.
Conforme informações divulgadas nesta terça-feira pelo Banco Central, as remessas das multinacionais para o exterior chegaram a US$ 24,064 bilhões entre janeiro e agosto deste ano, em comparação com os US$ 13,297 bilhões nos oito primeiros meses de 2007.
Mas os
investimentos estrangeiros diretos que ingressaram no país em setembro até o dia 23 totalizam US$ 5,25 bilhões.
Em agosto, o indicador somou US$ 4,6 bilhões e atingiu o melhor resultado para meses de agosto desde 2004.
Para ajudar na desvalorização do dólar, o Banco Central decidiu na semana passada voltar a fazer
leilões de venda da moeda, prática que não adotava desde fevereiro de 2003.
Diante desses dados, diz Mello, é pouco provável que o Brasil passe a sofrer com a falta de recursos e, conseqüentemente, volte a ter um dólar muito valorizado perante o real.