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03/10/2008 - 06h00

Queda da Bolsa ganha canção de protesto, simulação, "sad hour" e turistas

Rodrigo Bertolotto
Do UOL Notícias
Em São Paulo
"Depois que inventaram o tal dinheiro/ Eu não sou mais eu, nem você não é mais você", canta o cearense Marcos Rasta, no calçadão em frente à Bovespa. Com o violão nas mãos e CDs à venda no chão, está no lugar mais ou menos indicado para seus versos. De qualquer forma, o artista de rua é cercado por uma audiência formada por alunos do Colégio Anchieta que acabaram de fazer um tour didático pela Bolsa paulista.

São 11h30, e o mercado já opera em baixa de mais de 4%. "Entendi tudo o que eles disseram. Falaram que hoje está descendo, mas amanhã sobe. Mas eu prestei mais atenção nos equipamentos, nos painéis e computadores. Quero fazer eletrônica. Não gosto de finanças", analisa o estudante André Rettur, 14 anos.

ÍNDICES, PREGÕES E CORRETORES
Rodrigo Paiva/UOL
Corretores negociam em roda consultando as sedes, que ficam no bairro do Itaim Bibi
Rodrigo Paiva/UOL
Auxiliares de corretor anotam em boletos as negociações que acabaram de acontecer
Rodrigo Paiva/UOL
Visitantes acompanham pregão atrás de vidraça com reflexo do painel eletrônico
Rodrigo Paiva/UOL
Corretor faz anotações após pregão, com boletos de negócios espalhados pelo chão
VEJA ÁLBUM DE FOTOS
Reforçando a idéia de que a economia é mais importante do que a política, o mercado financeiro roubou a cena nesta semana eleitoral com a crise econômica que é apontada por muitos analistas como a pior desde a Segunda Guerra Mundial, tendo os EUA, a maior economia do planeta, como o epicentro. Como peças de um dominó, os mercados caíram acompanhando os fusos horários: Tóquio, Xangai, Hong Kong, Frankfurt, Paris, Londres, Nova York, Chicago e, finalmente, São Paulo.

A reportagem do UOL Notícias acompanhou nesta quinta-feira um dia na terceira Bolsa em valor de mercado após a fusão da Bovespa com a BM&F, em maio último. A cotação do dólar já tinha atravessado a barreira dos R$ 2 quando, às 12h45, foi testemunhar no prédio da Bolsa de Mercadorias e Futuros, o único pregão existente com operadores - por seu lado, o de ações, desde setembro de 2005, só é feito eletronicamente.

Por norma da Bolsa, a imprensa entra no prédio com tempo cronometrado: 15 minutos de fotos desde o mezanino acima do pregão, 5 minutos dentro do pregão e entrevista de 10 minutos com operador de uma corretora. Nada de mostrar rodas de negócios vazias, para evitar que se ilustre como uma inatividade das transações.

Lá está a típica gritaria e o italianíssimo gestual dos operadores comprando e vendendo. Todos empunhando telefones amarelos e vermelhos, com seus clientes do outro lado da linha. No chão, dezenas de boletos de negociação espalhados entre embalagens de cereais em barra e bombom. A caixa de som faz a mediação: "Há interesse? Não há interesse", emite a voz do controlador.

Acima da confusão, uma repórter de canal noticioso acerta o cabelo e o tailleur verde antes de entrar ao vivo da cabine reservada. Ela dispara termos como "forte desaceleração", "queda expressiva" e "tensão no mercado". No mezanino em frente, uma visitante olha através do vidro como se olhasse peixes fantásticos em um aquário.

Um dos espécimes sai para conversar sobre sua atividade. Acabou o primeiro tempo da jornada, que vai das 10h às 13h. É João Fernando Ganem, que trabalha há 23 anos como operador. Ele é do time da Fator, que, como outras corretoras, trocou nos últimos anos seu escritório no centro por uma sede na região da chamada "nova economia" que está no Itaim Bibi e Brooklin - tudo para ficar mais perto dos clientes, ou seja, os grandes bancos.

Ele começa explicando a recepção fraca à aprovação pelo Senado dos EUA de uma ajuda estatal ao mercado. "Foi resolução muito doméstica. Não era o que o mercado esperava", aponta, para logo contar como o mercado paulistano reagiu: "Quando o mercado está parado como hoje, há mais descontração entre os operadores. Muita provocação sobre o time de cada um. Há muita concorrência, mas uma ajuda mútua entre os operadores. A pressão mesmo vem pelo telefone."

Ele conta que chega a ter 20 clientes na linha seguindo cada sílaba que fala. "Eles escutam uma gritaria daqui e já pedem para investir. Eles operam muito por impulso", relata. Se precisar ir ao banheiro ou tomar café, tem um reserva para assumir o telefone.

Ganem não fala nem lê sobre mercado financeiro fora do expediente. Mas, no horário comercial, fica preso ao presente, sabe o que aconteceu um minuto atrás e o que está programado para o minuto seguinte. "Tenho perfil ansioso, vidrado por informação e tenho uma garra muito grande. Qualquer diferença com um colega ou concorrente eu resolvo na hora", se define.

CANTAR, COMER E IR EMBORA
Rodrigo Paiva/UOL
Músico de rua canta perto da Bolsa de SP com estudantes assistindo a apresentação
Rodrigo Paiva/UOL
Corretor João Fernando Ganem faz lanche na hora do almoço para voltar ao pregão
Rodrigo Paiva/UOL
Operador da Bolsa sai do prédio ao final do trabalho e se perde na paisagem do centro
A hora do almoço é comprimida pela entrevista. Ganem come em pé um sanduíche de pernil com queijo e namora uma coxa creme na vitrine. Ao seu lado, seu gerente, Amadeu Rodrigues. Ambos saíram com os crachás pendurados no pescoço, o que forma um campo de força para afugentar os trombadinhas da região.

"Tem um gangue que atua a metros do posto policial daqui. Roubam senhoras e velhinhos. Mas não mexem com a gente, porque eles nos vêem sempre", conta Rodrigues, que define o centro de São Paulo como "zoado".

No entorno da Bolsa, há outros agentes do dinheiro invisível. Na rua São Bento, dois adolescentes puxam os transeuntes pelo braço e anunciam empréstimos populares em um banco vizinho: "Vamos lá, vamos lá, pegar um dinheirinho na hora."

Com coletes com a marca BM&F, os engraxates de lá cobram R$ 5 para lustrar os sapatos e gritam "vai graxa aí?" a cada um que passa. Outros oferecem óculos baratos em uma ótica próxima. Camelôs vendem DVDs pornôs piratas, de olho no rapa que se aproxima. Nas cabines telefônicas em estilo antigo, as paredes estão riscadas com um anúncio de prostituição: "Mila Travesti, Morena Rabuda."

A sessão vespertina é retomada às 14h, com as ações caindo de 6% para 7% até passar os 9%, o que poderia causar o "circuit break" (seria a segunda vez na semana). O mercado não é freado, afinal, a queda não chega a 10%. Mesmo assim, muitos operadores saem para fumar na calçada. Um senta na fonte desativada e lê no jornal que a crise deve durar no mínimo dois anos.

Às 14h30, a praça em frente fica lotada por outros operadores: são os funcionários de uma empresa de telemarketing, que trocam de turno. É um entra-e-sai do prédio vizinho, com jovens falando de funk, novela, futebol e nem ouviram falar da crise ao lado. Talvez só se dêem conta quando perderem os empregos daqui a uns meses.

Às 15h, os estudantes da unidade da Penha do Senac fazem fila para entrar no tour didático no prédio da Bovespa, que fica a 100 passos do outra unidade, da BM&F.

Os 55 estudantes colocaram óculos especiais para uma projeção em três dimensões que explicou os 118 anos de Bolsa paulista, que o índice Bovespa foi criado em 1968 e que até 1972 as cotações eram escritas a giz em uma lousa (substituída, desde então, por um placar eletrônico).

Os jovens acompanharam ex-operadores simularem uma transação em um palco com bancada de computadores e telefones. "Olá, seu José, aqui é da Corretora Aguinaldo, hoje é um ótimo dia. O mercado está comprando", diz o corretor para seu cliente fictício, representando um cenário para lá de imaginário. Ainda mais porque os painéis dali noticiam que o dólar dispara e a Bolsa despenca.

Na palestra, o monitor Rui Paranhos se esforça para convencer o público suburbano e adolescente de que "o mercado não é só para expert em economia ou para quem tem muito dinheiro" e que "ação ordinária" não é palavrão. Fala em disciplina financeira e conta que um menor de idade pode investir na Bolsa, só precisa três coisas para comprar ações: dinheiro, RG e CPF. O detalhe é que para vendê-las vai precisar uma autorização dos pais.

O monitor se esforçou em mostrar como se vira um investidor. "Deixe de ir a uma só baladinha, pegue os R$ 30 que iria gastar e aplique na Petrobrás. Sabendo que você é sócio da maior empresa brasileira, todas as menininhas vão ficar de olho em você", recomenda o monitor Rui Paranhos. A reação do público feminino é instantânea. "Tá chamando a gente de interesseira, é?", responde Mayara.

Paranhos muda de assunto e fala da tensão de alguns investidores com a débâcle do índice Bovespa. "Tem uns 15 vieram aqui hoje. Estavam em pânico. Um deles estava tão branco e com dor de barriga que o mandamos para o hospital. Para investir tem que ter estômago", decreta o monitor.

Faltam poucos minutos para o mercado sentenciar a queda de 7,34%, e o monitor dá sua interpretação para a crise. "O problema foi a ganância dos EUA, e uma crise na maior economia do planeta contagia todo mundo. Alguém aqui já leu a Bíblia? Tem gente que fala que as finanças é o cavalo amarelo dos quatro cavaleiros do Apocalipse", fala Paranhos, diante de um público que se divide entre caras surpresas, outras distraídas e algumas bocejando.

O mercado fecha às 17h e na frente da Bolsa se escuta as cinco badaladas do mosteiro de São Bento. O fiasco financeiro atrai alguns repórteres engraçadinhos de vídeo atrás de uma piada com trocadilhos. "Você não percebeu que a bolsa despencou, menina?", pergunta o pseudo-humorista para uma morena que vai em direção a avenida São João. "A minha bolsinha eu continuo rodando. Vai demorar muito para cair", emendou a garota em roupa diminutas.

Os operadores começam a deixar o prédio. Nem só os preços estão deprimidos. "Pelo amor de Deus. Hoje foi foda", comenta um deles. "Que dia, hein, senhores?", dispara outro que se aproxima da rodinha. Sai mais um e faz o sinal da cruz. Um menos abalado já se encaminha para um bar vizinho. "Lá vai o matador tomar um drinque para relaxar", brinca o operador já afrouxando a gravata e tirando o jaleco de trabalho. Basta saber se vai para uma "happy hour" ou "sad hour" nessas horas em que parece que o capitalismo vai acabar.

Bovespa Fonte: Thomson Reuters

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