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14/11/2008 - 15h31

Encontro do G20 não deve ter efeito imediato, dizem analistas

Da Redação
Em São Paulo
Líderes de países ricos e emergentes, que formam o G20, cúpula mundial criada para discutir assuntos econômicos, reúnem-se em Washington nesta sexta e sábado. O encontro acontece em caráter excepcional, em função da crise financeira que abalou os Estados Unidos e se alastrou pelo mundo. Essa é a primeira vez que os países serão representados por chefes de Estado no encontro.


No último fim de semana, aconteceu em São Paulo uma prévia desse encontro com presidentes de bancos centrais e ministros da Economia de grandes países emergentes e desenvolvidos. O objetivo é criar um conjunto de ações coordenadas para acelerar o fim da crise mundial.

PESO DE CADA MEMBRO NO G-20
PIB em US$ trilhões
(Fonte: Folha e FMI)
PaísPeso
Arábia Saudita0,4
África do Sul0,3
Alemanha3,3
Argentina0,3
Austrália0,9
Brasil1,3
Canadá1,4
China3,3
Coréia do Sul1
EUA13,8
França2,6
Índia1,1
Indonésia0,4
Itália2,1
Japão4,4
México1
Reino Unido2,8
Rússia1,3
Turquia0,7
União Européia16,9
O encontro em Washington acontecerá num contexto de contínuas perturbações no sistema financeiro e crescentes sinais de que a economia mundial avança para o que muitos temem seja uma recessão longa e duradoura.

As intervenções dos governos com bilhões de dólares para apoiar e resgatar os bancos e estimular a economia até agora não foram suficientes, e os líderes políticos pedem que se faça mais.

Muitos países que participarão da reunião pedem uma reinvenção do modelo financeiro mundial, com a regulação maior dos mercados, que assumiram investimentos cada vez mais arriscados.

Já os Estados Unidos defendem que não é preciso refazer a economia mundial, mas apenas "consertá-la".

Sem decisões agora
Na visão de economistas, será difícil que dessa reunião saiam ações concretas, já que o próximo presidente dos Estados Unidos, o recém-eleito Barack Obama, não estará presente no encontro.

"Sem os Estados Unidos é muito difícil que se possa falar de um novo Bretton Woods", diz o economista do centro de análises Diálogo Interamericano de Washington Claudio Loser, em alusão ao encontro que, em 1944, estabeleceu as bases do atual sistema financeiro multilateral, dando origem a instituições como o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial (BM).

A opinião é compartilhada por autoridades. Os EUA, por exemplo, dizem não esperar resultados contundentes do encontro, apesar de apostarem que seja um primeiro passo na direção de acordos globais.

"Não há respostas fáceis porque, até alcançarmos um consenso em uma ampla agenda de reformas, não alcançaremos uma solução", advertiu na quarta-feira o secretário americano do Tesouro, Henry Paulson.

No mesmo sentido, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, cujo governo tornou-se a voz de algumas nações emergentes dentro do G20, assinalou, em sua visita a Roma, que o encontro de Washington começará a discutir respostas para a crise, mas dificilmente adotará medidas concretas.

"Não há diagnóstico exato para a crise. Não esperem muito do G20, é apenas um começo, ainda que promissor", afirmou Lula.

O que é o G20?
Também conhecido como "G20 financeiro", trata-se de um grupo de 20 países criado formalmente em 1999, logo após as crises asiática e russa. Seu objetivo era avaliar as razões da turbulência financeira do final dos anos 90, além de discutir ações de longo prazo que pudessem evitar novas crises.

Nos anos seguintes, porém, a economia mundial reconquistou a estabilidade, e o G20 passou a incorporar outros temas globais a sua agenda, tais como mudança climática e as conseqüências do crescimento demográfico para a economia.

Qual a relação entre o G20 financeiro e o G20 que discute o comércio internacional?
Apesar de alguns países fazerem parte dos dois grupos (como o Brasil), não existe qualquer relação entre eles. O G20 de países em desenvolvimento (para discutir comércio) é uma união informal, instituída em 2003 durante negociações no âmbito da Organização Mundial do Comércio (OMC) e cujo objetivo é combater os subsídios agrícolas utilizados por países ricos.

Quem faz parte do G20?
Arábia Saudita, África do Sul, Alemanha, Argentina, Austrália, Brasil, Canadá, China, Coréia do Sul, EUA, França, Índia, Indonésia, Itália, Japão, México, Reino Unido, Rússia, Turquia, União Européia (alguns países convidados). Nos encontros oficiais, normalmente os países são representados pelos ministros da Economia e pelos presidentes de bancos centrais, mas agora participam os chefes de Estado. O último encontro foi realizado em São Paulo, entre os dias 7 e 9 de novembro.

O Brasil está na presidência do grupo, que funciona em regime rotativo. Em 2009, a presidência estará com a Grã Bretanha.

Com que objetivo a reunião de Washington foi marcada? Diante do agravamento da crise financeira, o presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, sugeriu que o G20 se reunisse para discutir possíveis mudanças no atual sistema financeiro. Por isso a reunião acontece em Washington.

O que estará na pauta da reunião?
Não existe uma pauta conjunta, mas alguns temas já foram apresentados na última reunião, em São Paulo, e devem voltar à mesa. Entre eles, estão a reforma do Fundo Monetário Internacional (FMI), a criação de mecanismos que dêem maior transparência a aplicações de alto risco e a criação de um organismo internacional para supervisionar o sistema bancário.

O G20 tem poderes para instituir uma nova arquitetura financeira global?
Não. O que o grupo faz é discutir e sugerir práticas que considere apropriadas para o manejo do sistema financeiro mundial. Os países têm a soberania para decidir se adotam ou não tais procedimentos. Além disso, muitas vezes os países precisam submeter sugestões de mudanças ao seu Poder Legislativo, o que torna o processo mais complexo.

A política de sugestão de boas práticas é adotada também por outros organismos internacionais, como a Organização das Nações Unidas (ONU) e a OMC.

Essas instituições não têm poder para decidir que conduta política ou econômica será adotada em cada país, tampouco o de punir aqueles que não as adotarem -mas ainda assim, a maioria segue as mesmas regras.

"Se os países vão adotar ou não certas práticas, depende muito da legitimidade do sistema", diz o historiador americano John Steele Gordon.

Segundo ele, como as falhas do atual se sistema estão à mostra, cria-se uma situação favorável a mudanças no sistema.

"A situação é propícia, mas isso não quer dizer que seja um processo fácil", diz.

Existe consenso entre os países sobre que medidas adotar?
Não. Esse é um dos principais desafios do G20 para essa reunião. Enquanto os europeus e os países emergentes, como o Brasil, vêm demonstrando interesse em uma reforma mais ampla do sistema, os Estados Unidos defendem mudanças mais sutis. Em discurso na quinta-feira, o presidente George W. Bush disse que é preciso aprimorar as práticas do sistema financeiro, mas alertou para o perigo de uma "super-regulação".

O que está na agenda brasileira?
Uma das principais demandas do governo brasileiro é a ampliação do papel dos países emergentes no FMI. Além disso, o Brasil defende que os organismos financeiros internacionais adotem políticas de prevenção a crises.

Qual será o resultado prático dessa reunião?
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse não esperar grandes resultados do encontro, "que seria apenas o começo". De fato, caso algumas medidas sejam sugeridas no sábado, elas deverão passar ainda por um longo processo de análise. O presidente da França, Nicolas Sarzoky, já sugeriu um novo encontro, para daqui a cem dias.

O fato de o presidente Bush estar em fim de mandato também reduz as possibilidades de que medidas mais significativas sejam adotadas ou mesmo discutidas.

Por que essa reunião vem sendo chamada de "novo Bretton Woods"?
É uma comparação com a reunião que aconteceu em julho de 1944, em Bretton Woods, New Hampshire (EUA), e que instituiu uma nova ordem econômica mundial. Naquela época, havia um certo consenso de que a desordem financeira mundial, que culminou na Grande Depressão (1929), foi uma das principais causas da Segunda Guerra.

Para tratar de possíveis desequilíbrios econômicos e financeiros entre os países, algumas instituições foram criadas, entre elas o FMI e o Banco Mundial. Na avaliação de John Steele Gordon, comparar os dois períodos "é definitivamente um exagero". Segundo o historiador, há interesses políticos, sobretudo da União Européia, em ganhar espaço nas relações internacionais.

"No final, aquilo que era da esfera econômica sempre acaba em política", diz.

(Com informações de AFP, BBC Brasil e Efe)

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