BERLIM, Alemanha, 26 Out 2009 (AFP) - O novo governo alemão anunciou neste fim de semana sua decisão de deixar que o buraco fiscal do país aumente para poder se concentrar em impulsionar a economia, uma aposta arriscada, apesar de, ao mesmo tempo, necessária, segundo muitos economistas.
A chanceler alemã Angela Merkel e seus novos aliados liberais apresentaram no sábado o programa de governo, com a promessa de 24 bilhões de euros de redução de impostos, apesar do déficit orçamentário, agravado pela pior crise econômica em 50 anos.
Para a nova coalizão entre os conservadores de Merkel (CDU/CSU) e os liberais do FDP, as finanças públicas no vermelho são preço a pagar para apoiar a reativação econômica.
Segundo sua lógica, uma vez que se recupere o crescimento, haverá mais empregos, assim como mais pessoas e empresas ganhando dinheiro e pagando impostos, e isso permitirá diminuir o déficit de forma progressiva.
"O governo que tomará posse na quarta-feira reduzirá a carga fiscal das famílias, reformará o imposto para as empresas e o imposto sobre a herança", anunciou Merkel em uma entrevista coletiva conjunta com o líder dos liberais, Guido Westerwelle, que será o ministro das Relações Exteriores.
As reduções fiscais começarão a partir de 1º de janeiro de 2010, segundo Merkel. Em uma segunda etapa, o regime fiscal - um dos mais complexos do mundo - será reformado a partir de 2011.
"Para simplificar e torná-lo mais justo", disse Westerwelle, ao comentar uma de suas promessas de campanha.
Até o fim de 2013 a meta é de que as reduções fiscais alcancem 24 bilhões de euros, em benefício das famílias e empresas alemãs.
Simultaneamente, uma reforma do financiamento do sistema de saúde pública resultará no aumento dos descontos dos segurados, enquanto a parte das empresas será submetida a um teto.
A chanceler e seus aliados se mostraram vagos sobre o financiamento das medidas fiscais, depois que a crise esvaziou os cofres do Estado.
Para Westerwelle o dinheiro virá da poupança no funcionamento da máquina estatal e do crescimento futuro, enquanto Merkel declarou que se trata "fundamentalmente de estimular o emprego".
A dívida alemã equivale a quase 20.000 euros por habitante.
Wolfgang Schaeuble, veterano da União Democrata Cristã (CDU) que trabalhou com o chanceler Helmut Kohl, será o ministro das Finanças, anunciou Merkel.
Ele terá a dura tarefa de reduzir o déficit e fazer com que os gastos progridam de maneira mais lenta que o avanço do Produto Interno Bruto (PIB), segundo Westerwelle.
O novo governo estabeleceu como meta levar a maior economia da Europa ao primeiro lugar mundial nas áreas da educação, ciências e pesquisas.
"Quando se apoia o consumo das famílias, a questão é saber se o dinheiro é gasto ou as famílias poupam a maior parte", adverte o presidente do instituto de pesquisa econômica DIW, Klaus Zimmermann, levando em conta que as taxas de juros para a poupança na Alemanha são uma das mais elevadas dos países ocidentais.
Além disso, enfatiza Zimmermann, "a atual fragilidade do crescimento não é uma consequência de um controle do consumo, já que, nos últimos meses, foi precisamente os gastos dos lares alemães que sustentaram a economia".
Mas, para outros economistas, o novo governo não tem mais nenhuma opção, e não apenas por causa de suas promessas eleitorais.
"Reduzir os impostos agora e consolidar o orçamento mais tarde é a ordem correta a de fazer as coisas", comenta o especialista Dirk Schumacher, do Goldman Sachs.
O banco Unicredit classifica o programa da nova coalizão de "política TINA", pelas iniciais "There Is No Alternative" ("Não há outra alternativa").