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27/10/2009 - 21h56

Argentina: retenção de caminhões na fronteira com Brasil é 'inaceitável'

BUENOS AIRES, Argentina, 27 Out 2009 (AFP) - A Argentina exigiu nesta terça-feira que o Brasil libere rapidamente a passagem dos caminhões argentinos com mercadorias pela fronteira, e qualificou de "inaceitável" o bloqueio de cargas perecíveis pela alfândega brasileira.

Em reunião com o diplomata brasileiro Mauro Vieira, convocado pela Chancelaria em Buenos Aires, o secretário argentino de Relações Econômicas Internacionais, Alfredo Chiaradía, fez uma queixa formal sobre o bloqueio de caminhões da Argentina nos pontos de acesso ao Brasil, revelou um funcionário, que pediu para não ser identificado.

"É inaceitável o bloqueio de nossos caminhões na fronteira, especialmente com produtos perecíveis e sem aviso prévio", destacou o funcionário.

"Estas decisões têm uma clara assimetria em relação as medidas argentinas, que são anunciadas com antecedência, antes de entrar em vigor".

Para a Argentina, a falta de aviso prévio sobre as medidas aplicadas na fronteira, especialmente envolvendo produtos perecíveis, é algo grave, destacou a fonte.

O Brasil tem aplicado barreiras comerciais contra produtos argentinos, em represália por medidas similares adotadas pelo governo de Cristina Kirchner.

Mauro Vieira foi convocado na véspera pelo chanceler Jorge Taiana, que divulgou um comunicado declarando-se "preocupado com a interrupção do fluxo comercial com o Brasil", como consequência das licenças não automáticas impostas por Brasília.

O ministro argentino da Economia, Amado Boudou, minimizou o conflito bilateral, destacando que os dois países já estão dialogando para resolvê-lo.

"Nos demos conta de que apenas 6% do total de comércio bilateral apresentava algum nível de conflito, e são justamente os temas que hoje ganham atenção porque são os que devemos resolver", disse Boudou.

O governo de Luiz Inácio Lula da Silva freou importações argentinas de farinha de trigo, óleos, alho, vinho, frutas, rações para animais e caminhões fabricados na Argentina, entre outros produtos.

A medida é uma resposta às licenças não automáticas estabelecidas pela Argentina com o argumento de que o país precisa proteger seu mercado de trabalho, sua indústria e sua produção dos efeitos da crise econômica mundial.

A Câmara Argentina de Fruticultores Integrados (CAFI) informou que pelo menos 400 caminhões com frutas estavam parados na fronteira com o Brasil à espera de permissão para entrar com suas cargas no país.

Já a Federação Argentina da Indústria Moleira alertou que as medidas de proteção comercial afetaram 20.000 toneladas de farinha de trigo que já haviam sido despachadas quando as restrições entraram em vigor, ficando assim presas em portos e na fronteira.

O Brasil se sente prejudicado pelas barreiras às importações de têxteis, calçados e eletrodomésticos para a Argentina, impostas por Buenos Aires com o objetivo de moderar a queda da demanda e do emprego em consequência da crise.

No setor de calçados, a Argentina mantém congelados pedidos de importação que somam sete milhões de pares de uma tradicional sandália brasileira, segundo informações da imprensa.

As queixas contra a política comercial argentina também foram ouvidas na cúpula do Mercosul de julho deste ano, com protestos do Uruguai e do Paraguai.

O Brasil já havia expressado sua preocupação com a evolução das barreiras, ao ver caírem em 42% suas exportações para a Argentina no primeiro semestre, depois de ter comemorado um superávit comercial bilateral de 4,344 bilhões de dólares em 2008.

Em julho, exportadores brasileiros denunciaram que o mercado perdido na Argentina está sendo ocupado pela China, e pediram a Lula que combata as licenças não automáticas argentinas na Organização Mundial do Comércio (OMC), o que não agradou as autoridades do país vizinho.

Argentina e Brasil mantêm uma política de monitoramento contínuo de seu comércio bilateral para ajustar eventuais desequilíbrios, através de um sistema do qual participam empresários dos dois países.

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