SÃO PAULO - A decisão do Banco Central de elevar a Selic na próxima semana pode ser mais um recado ao mercado do que uma resposta à elevação dos preços dos alimentos, avaliam economistas consultados pela InfoMoney nesta quarta-feira (9).
"O aumento de juros agora visa mais um impacto nas expectativas sobre a inflação em 2009", diz Jean Barbosa, economista da Tendências Consultoria. A publicação do IPCA (Índice de Preços ao Consumidor) de março, que apresentou alta de 0,48% nos preços, acima das expectativas, elevou o debate em torno do rumo da taxa Selic.
| Mês |
Var. |
Var. 12 meses |
| Março |
0,48% |
4,73% |
| Fevereiro |
0,49% |
4,61% |
| Janeiro |
0,54% |
4,56% |
Fonte: IBGEO mercado já precifica um aumento da taxa, como pode ser visto na curva do rendimento dos contratos de DI futuro negociados na BM&F (Bolsa de Mercadorias & Futuros). A intenção de alterar a taxa foi explicitada ao mercado nos últimos relatórios publicados pela autoridade monetária.
O recadoO tom do comunicado publicado junto à decisão de manter o juro em 11,25% ao ano em março já mostrava uma maior atenção ao cenário macroeconômico. A unanimidade da decisão, porém, ajudou a não mexer muito com as expectativas do mercado.
A ata da reunião, divulgada alguns dias depois, tornou a preocupação da equipe de Meirelles mais clara. De acordo com a minuta, o ritmo de crescimento da demanda doméstica responde, ao menos parcialmente, por parte significativa das pressões inflacionárias que têm sido observadas no curto prazo.
"O BC deu declarações na ata no sentido de que poderia elevar a taxa de juro, dando sinais de que agiria caso fosse necessário", explica Barbosa. Segundo ele, a projeção da Tendências era de manutenção da Selic na próxima reunião, porém, depois do IPCA, "aumentou muito a probabilidade de uma elevação", diz.
É quase consensual a percepção de que o BC apertará a política monetária. Para Sérgio Vale, economista da MB Associados, o argumento usado pelo Copom não reflete as causas da inflação doméstica. "A demanda de alimentos mundial é muito mais importante do que a demanda interna", explica.
Segundo ele, fatores pontuais, como a redução da oferta de trigo e o repasse aos derivados, mostram que a demanda interna ainda não é um problema grave. "Se o BC subir a Selic até 12,75% ao ano, isso não terá impacto nenhum na demanda", afirma. Vale acredita, porém, que a taxa será elevada em 50 pontos-base na semana que vem.
"Contra a maré""Eu sei que estou remado contra a maré", assume Walter Machado de Barros, presidente do Conselho de Administração do IBEF (Instituto Brasileiro dos Executivos de Finanças). Barros defende a manutenção da Selic. "O BC, por uma questão de bom senso e serenidade, não deve aumentar a Selic neste mês", diz.
"O aumento do IPCA de março está caucado em alimentos e bebidas e nas tarifas de energia e água e esgoto. É um aumento pontual, não indica um processo de aumento inflacionário. Não demonstra uma pressão da demanda perante a oferta do segmento produtivo", afirma.
Para Barros, se o Copom elevar a Selic isto será feito "para marcar posição". Ele explica que os bancos já estão promovendo o aumento nas taxas de juros dos empréstimos, o que mostra não ser necessária uma elevação da taxa.