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25/07/2008 - 20h15

Viramos uma sociedade de bolhas e a próxima será no mercado de títulos, diz banco

SÃO PAULO - "Lamentavelmente, nós nos tornamos uma sociedade de bolhas, sempre em busca de estratégias rápidas para enriquecer". Dito isso, o analista David Rosenberg, da Merrill Lynch, prevê que, se houver uma nova bolha, provavelmente será no mercado de títulos. O que faz o banco de investimentos ser um dos únicos otimistas em relação a este mercado, é o que o analista explica no seu mais recente relatório.

O cenário: EUA em recessão, queda relativa da riqueza dos investidores, previsão de que o Fed corte ainda mais o juro básico do país e que a economia passe por um período de deflação. Os desenvolvimentos: potencial crescimento da procura por títulos capaz de absorver toda a oferta que o governo deve disponibilizar para fazer frente à desaceleração da economia.

Rosenberg ilustra a previsão dizendo que as famílias norte-americanas, em sua trajetória de acúmulo de riqueza por meio do mercado acionário e imobiliário, reduziram sua exposição ao mercado de títulos, de 7-8% no início dos anos 1990 para cerca de 5% atualmente.

Se a exposição voltasse a esses termos, isso significaria aproximadamente US$ 1,75 trilhão de demanda adicional, o suficiente para absorver a potencial oferta do governo e qualquer projeção de venda de títulos do Tesouro norte-americano por entidades globais, "mesmo que os investidores estrangeiros detenham metade do mercado de títulos".

Recessão, deflação, estouro da bolha das commodities...

Diante da teoria de que os mercados tendem ao equilíbrio, pode-se entender que, depois de anos de acúmulo de dívidas para financiar um consumo desenfreado, a trajetória para se voltar ao equilíbrio pediria anos de economia e moderação, "o que significa tornar-se muito menor em todos os sentidos dessa palavra".

Pressionada pelo colapso do gasto do consumidor, a economia dos EUA deve imergir em uma recessão com traços daquela vista entre 1973 e 1975. "Uma diferença crítica, claro, é que as taxas de poupança em meados de 1970 não eram praticamente zero e os frutos do 'baby boom' estavam com 20 anos e prestes a comprar sua primeira geladeira. Hoje, eles estão com 50 anos e procurando se livrar de sua frota de SUVs [sport utility vehicle] arrendados", explica Rosenberg.

Ao contrário do previsto por muitos, o cenário recessivo, em conjunto com a alta dos alimentos e das commodities - em conseqüência, também dos combustíveis -, teria como perspectiva um ambiente deflacionário ao invés de inflacionário. Isso porque a diminuição do gasto dos consumidores levaria o varejo a promover liquidações e baixar os preços.

O mercado de commodities também deve se aproximar de um ponto de inflexão: a forte alta pode influenciar uma mudança no modo de vida norte-americano para superar os crescentes preços dos combustíveis, culminando na destruição da demanda. Foi esse o responsável pelo estouro das bolhas dos mercados asiáticos, do mercado imobiliário e das tecnológicas. "A destruição da demanda fará o mesmo com o mercado de petróleo no futuro", prevê o analista.

Mercado acionário e recomendações

Em meio a tudo isso, as projeções para a renda variável apontam para um mercado sobrevendido, com alguns componentes do modelo de expectativas de retorno indicando prejuízo de dois dígitos e outros mostrando altos lucros.

Mas são mesmo as perspectivas para os ganhos corporativos que se enveredam pelo campo do pessimismo: há uma forte possibilidade dos lucros caírem pela metade durante este bear market (mercado em tendência de baixa). "Em outras palavras, nós podemos estar apenas a um terço do declínio total dos lucros em uma época na qual o consenso havia precificado como o final".

Enquanto indica que as bolhas tendem a ter fins dramáticos, Rosenberg recomenda baixa exposição a áreas que ainda não retornaram ao equilíbrio (materiais básicos, bens de consumo e segmentos financeiros) e maior peso em ativos de baixo risco e baixo beta (coeficiente que mede a sensibilidade de um ativo específico frente ao mercado em que está inserido. Betas pequenos implicam baixa sensibilidade - apostas defensivas).

A conclusão? Alta exposição a ativos que tenham retornos seguros, mais especificamente, títulos de alta qualidade e não-resgatáveis. "Nós recomendamos fortemente que os investidores adicionem títulos de renda fixa de alta qualidade aos seus portfólios e usem espasmos periódicos nos retornos como uma oportunidade de compra", afirma Rosenberg.

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