13/08/2008 - 10h55
Alta nos preços dos alimentos impacta consumo e gera aumento da pobreza, diz BID

SÃO PAULO - Os alimentos ficaram, em média, 68% mais caros entre janeiro de 2006 e março deste ano, principalmente alguns produtos básicos como o milho e o trigo, cujos preços dobraram nesse período. Os dados fazem parte de um estudo divulgado pelo BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento) sobre os impactos potenciais da crise dos alimentos.
Diversos efeitos decorrem desse fato, mas, dentre os principais, estão a diminuição do poder de compra da população e o aumento da pobreza no mundo.
Aumento da demanda
Vários fatores podem explicar o aumento dos preços nos últimos anos. O primeiro deles é o aumento do consumo mundial de alimentos, principalmente em países como China e Índia, com grandes populações que vêm experimentando aumento em sua renda.
Com mais recursos nas mãos, a tendência é aumentar a demanda por alimentos, o que pressiona o mercado, já que a produção e o consumo não têm o mesmo ritmo de crescimento. Se a demanda aumenta, mas a produção não corresponde, a conseqüência é o aumento dos preços.
Dólar, energia e insumos
Os preços também são afetados, em um curto prazo, pela desvalorização do dólar e pelo custo crescente de energia e insumos agrícolas, o que encarece etapas do processo de produção de alimentos. Com isso, o preço ao consumidor acaba sendo afetado, por causa do repasse dessa elevação dos custos.
"Os preços podem se estabilizar no futuro", afirma uma das pesquisadoras do BID e participante do estudo, Suzanne Duryea. "Neste momento, os pesquisadores não têm como determinar que proporção dos fatores que vêm empurrando os preços para cima será permanente ou transitória", completa.
Aumento da pobreza
O estudo do BID faz ainda uma projeção de que, caso os preços de alimentos permaneçam altos por um longo período, mais pessoas podem ser empurradas para a pobreza. A partir de uma amostra de 19 países, o estudo mostrou que o número de pobres no Brasil, por exemplo, aumentaria de 28,3% da população para 31,5% em resposta à crise.
A possibilidade do aumento do número de pobres deve-se, dentre outros fatores, ao fato de que a parcela da população de renda mais baixa destina a maior parte de seu orçamento à alimentação. Um relatório da Tendências Consultoria, divulgado em julho deste ano, mostra que em cidades brasileiras como Recife e Salvador, o peso da alimentação de famílias com renda mais baixa supera 24% do orçamento.
Com a alta dos preços, essa camada da sociedade compromete ainda mais seu salário com alimentos, restando uma parcela reduzida para outras necessidades básicas. Essa pressão no orçamento seria responsável por empurrar mais famílias para a pobreza.
Políticas públicas
O relatório do BID aponta ainda que várias opções de políticas têm sido examinadas recentemente por diversos países, para lidar com os altos preços dos alimentos, incluindo controle de preços, subsídios, restrições a exportações e distribuição de comida.
No Brasil, uma das discussões fomentadas pela Conab (Companhia Nacional de Abastecimento) diz respeito à política de estoques públicos de alimentos, como forma de o governo intervir na regulação dos preços. A intenção, segundo representantes da entidade, é evitar que crises de oferta, com aumento generalizado dos preços dos alimentos, prejudiquem a parcela mais pobre da população.
Com respeito às políticas para combate à crise, um outro pesquisador do BID envolvido no estudo, José Cuesta, ressalta que é preciso tomar cuidado, para que as medidas sejam bem desenhadas, pois, do contrário, podem ser contraproducentes. Cuesta alerta que há a possibilidade de famílias que não precisem do subsídio serem beneficiadas, limitando os incentivos para aumentar a oferta de alimentos.
Além disso, os países devem adotar medidas para estimular a produção agrícola local, incluindo a redução de barreiras comerciais, para que os produtores locais possam tirar proveito dos preços mais altos no exterior. Os governos precisam também racionalizar as importações de alimentos e melhorar o transporte e a logística, para reduzir o custo final aos consumidores.