13/01/2009 - 17h13
EUA envolvem-se na crise do gás entre Ucrânia e Rússia

Por José Milhazes, da Agência Lusa
Kiev, 13 jan (Lusa) ? Os Estados Unidos envolveram-se na guerra do gás entre a Ucrânia e a Rússia ao tentarem controlar os gasodutos ucranianos que transportam o gás natural russo para a Europa, declarou à Agência Lusa fonte diplomática na capital da Ucrânia.
Esta declaração foi confirmada na terça-feira pela publicação do texto de um acordo assinado entre os Estados Unidos e a Ucrânia com vista à cooperação dos dois países na reconstrução e modernização do sistema de gasodutos ucranianos.
Segundo a Carta de Parceria Estratégica, assinada em 19 de dezembro de 2008 por Condoleeza Rice, secretária de Estado norte-americana, e Vladimir Ogrizko, ministro ucraniano das Relações Exteriores, e publicada na terça-feira no site da Rada Suprema (Parlamento) ucraniana, Washington irá "participar na reconstrução e modernização dos gasodutos ucranianos", incluindo os que transportam gás russo para a Europa.
O documento só foi tornado público depois de Moscou ter denunciado a sua existência. Hoje, Alexandre Medvedev, vice-diretor da gigante russa Gazprom, acusou os Estados Unidos de estarem por trás da Ucrânia no confronto com Moscou.
"Ontem, pensávamos que estava aberta a via para o gás russo, mas ela foi novamente bloqueada pelos ucranianos. Até parece que eles dançam ao som da música tocada não em Kiev, mas fora do país", declarou Medvedev, assinalando que tinha em vista "um acordo assinado entre a Ucrânia e os Estados Unidos".
O primeiro-ministro russo, Vladimir Putin, propôs, a pretexto de que a Ucrânia não tem meios financeiros para manter e modernizar o seu sistema de transporte de combustível azul, a aquisição por parte da Gazprom de ações da empresa ucraniana Naftogás, que gere os gasodutos do país vizinho, e investimentos no setor.
Moscou utilizou semelhante esquema para controlar os gasodutos bielorrussos que transportam gás da Sibéria e da Ásia Central para a Europa, adquirindo 50% das ações da empresa Beltransgaz.
Porém, Kiev recusou liminarmente essa proposta, considerando que ela põe em causa a independência do país.
"Não excluo, e isso é confirmado por alguns comentários da parte russa, que estes acontecimentos (a crise do gás) constituíram uma tentativa de alterar a ideologia da gestão, da exploração, a propriedade do sistema ucraniano de transporte de gás", declarou Victor Iuschenko, presidente ucraniano, numa conferência de imprensa realizada na terça-feira.
"Gostaria de recordar que a Bielorrússia, há ano e meio atrás, recebeu subsídios e, atualmente, 50% do sistema de transporte de gás da Bielorrrússia já não pertence ao seu povo", acrescentou o dirigente ucraniano.
"A Carta de Parceria Estratégica apenas fixa que Kiev preferiu aliar-se uma vez mais aos norte-americanos do que aos europeus na sua contenda com a Rússia", declarou a fonte diplomática à Lusa, destacando que "os dirigentes ucranianos vêem nessa sua decisão mais uma forma de consolidar a sua soberania face ao vizinho".