Nacala, Moçambique, 23 out (Lusa) - A linha férrea e o porto de Nacala, província de Nampula (norte), vão ser reabilitados com apoio brasileiro, no maior investimento no setor dos transportes em Moçambique, calculado em US$ 1,6 bilhão.
O acordo foi assinado nesta sexta-feira em Nacala, o maior porto de águas profundas do país, e envolve a multinacional brasileira Vale, o consórcio moçambicano INSITEC (representando o Corredor de Nacala) e o governo de Maputo, depois de cerca de um ano de negociações.
A Vale do Rio Doce tem em Moatize, na província de Tete, a concessão para explorar uma mina de carvão de onde espera extrair numa primeira fase 10 milhões de toneladas por ano.
O problema coloca-se no transporte do carvão até o mar, já que a linha férrea do Sena, que liga Moatize à cidade da Beira, e o corredor de Nacala, ligando também Moatize mas a Nacala (mais a Norte), não têm capacidade de escoamento, levando mesmo a australiana Riversale, outra multinacional a explorar o carvão de Moatize, a equacionar transportar o carvão em barcaças, pelo rio Zambeze.
O investimento em Nacala (o porto da Beira tem problemas de assoreamento) será um revés para a Beira, cidade cujo prefeito, Daviz Simango, é candidato a Presidente da República pelo MDM, partido da oposição.
Hoje, numa grande operação de marketing, centenas de pessoas reuniram-se em Nacala para ouvir Celso Correia, presidente da INSITEC, Roger Agnelli, presidente da Vale do Rio Doce, e Paulo Zucula, ministro dos Transportes e Comunicações de Moçambique.
E porque a linha atravessa o Malawi para chegar à província de Tete e a Moatize, esteve também presente Khumbo Hastings Kachali, ministro dos Transportes do Maláui, que não escondeu a satisfação pelo projeto, uma forma privilegiada de o país, interior, poder escoar os produtos para o Oceano Índico.
"Nacala pode ser uma plataforma logística que pode jogar um papel importante a nível regional e até mundial", levando a linha férrea também à Zâmbia e à República Democrática do Congo e fazer de Nacala "a capital da província de Nampula", disse o ministro.
"Não é só a linha férrea e o porto de Nacala, também será a transformação do aeroporto de Nacala num aeroporto internacional. Já foram dados passos para que a construção comece no próximo ano", anunciou.
O projeto, denominado Nacala XXI tem em conta as boas condições portuárias e engloba obras no porto, na linha de caminho-de-ferro e a construção de um terminal multi-usos, devendo estar na fase inicial de operações dentro de três a quatro anos.
A Vale investiu até agora US$ 345 milhões em Moatize, prevendo chegar aos US$ 500 milhões até final do ano. No início do próximo ano começa a fase de produção da mina, cujo carvão será exportado na maior parte, disse Roger Agnelli.
A multinacional vai investir na mina US$ 1,3 bilhão e no corredor de Nacala US$ 1,6 bilhão, porque "o grande investimento numa mina não é na mina mas no setor logístico", justificou o responsável.
Na fase de exploração total, a Vale pode tirar de Moatize, por ano, até 40 milhões de toneladas de carvão. Atualmente a linha do Sena (para a Beira) tem uma capacidade de seis milhões e Nacala pouco mais, daí a importância dada às obras que agora vão começar.
Até agora, a Riversdale ainda não se pronunciou sobre o projeto mas a empresa anunciou recentemente ter descoberto uma nova zona de carvão de grande qualidade no vale de Moatize.
O Corredor de Nacala poderá ainda servir, diz a INSITEC, para potenciar não só a capacidade mineral mas também agrícola, energética e industrial do norte de Moçambique. Paulo Zucula chegou a dizer hoje em Nacala: "Podemos não parar no Congo".