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28/10/2009 - 09h27

Crise faz famílias portuguesas aumentarem nível de poupança

Lisboa, 28 out (Lusa) - As poupanças das famílias estão subindo após anos em queda, um comportamento que os economistas ouvidos pela Agência Lusa consideram ser normal, mas também de precaução.

Inversamente, o consumo está em queda, levando o país para uma deflação de 1,8%.

De 2003 a 2007, a taxa de poupança das famílias sofreu uma forte quebra, de 10,6% para 6,2% do rendimento disponível, segundo dados do Banco de Portugal (BdP). Contudo, a crise inverteu esta tendência.

Além disso, a taxa tem aumentado desde o ano passado, tendência que continuou no primeiro semestre de 2009, segundo os últimos dados do Instituto Nacional de Estatística (INE). No ano passado, a taxa de poupança situou-se nos 6,4%. Mas nos primeiros seis meses deste ano houve uma subida de 2,2 pontos percentuais (no acumulado anual) em relação aos números do final de 2008, para os 8,6%.

O rendimento disponível das famílias aumentou, isso porque a prestação de casas financiadas diminuiu substancialmente com a diminuição das taxas de juro.

Ao aumento do rendimento acresce uma retração no consumo privado (-0,8% no segundo semestre), levando as poupanças para níveis muito superiores aos do final de 2007.

Proteção

Para a economista do BPI Paula Carvalho, este "é um comportamento típico em épocas de recessão e de crise", porque "as famílias tornaram-se mais cautelosas e trata-se sobretudo de uma poupança de precaução".

O aumento do rendimento disponível das famílias, diz, é "normal" devido à "queda das taxas de juro de curto prazo" o que se refletiu nas prestações de muitas famílias porque "em Portugal a maior parte dos empréstimos têm a taxa variável".

Para o economista João César das Neves, os portugueses estão poupando para pagar as dívidas que acumularam durante um período de "exagero de consumo" dos últimos tempos.

"As pessoas andaram num excesso de consumo que levou à reação contrária e isso é a crise. Estão a poupar porque têm de poupar. Não é bom, nem mau, é indispensável. O que a crise demonstrou é que as pessoas têm de pagar as suas dívidas, se julgavam que o nível de endividamento era sustentável, a crise demonstrou que afinal não é", explicou.

Gasto público

Além dos receios da conjuntura e o endividamento próprio das famílias, o professor da Universidade Católica considera que o aumento das poupanças reflete também medo pelo aumento das despesas públicas.

"A dívida do Estado também está subindo a níveis astronômicos e isso cria a necessidade de poupança, porque as pessoas percebem que vão ter de pagar isso mais tarde", analisa.

Ao contrário das famílias, o governo luso tem aumentado seus gastos, o que amplia a necessidade de financiamento do Estado, que se agravou de 2007 (4,21 bilhões de euros) para 2008 (4,45 bilhões de euros).

Se for confirmado o que foi previsto para este ano, as necessidades de financiamento podem atingir os 9,65 bilhões de euros, muito superiores aos anos anteriores, até mesmo em comparação a 2005, quando o déficit publicou atingiu 6,1% do Produto Interno Bruto (PIB) luso.

Nas empresas, a poupança corrente recuou nos últimos cinco anos, passando de um valor equivalente a 8,2% do PIB, em 2003, para 3,2%, em 2008.

O cenário é semelhante quando se analisa o total da economia. Segundo o BdP, o déficit externo português agravou-se em 2,4 % (do PIB) de 2007 para 2008, tendo terminado o ano passado em 10,5%.

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