09/05/2008 - 04h39
Empresas mostram otimismo cauteloso com política industrial
Por Taís Fuoco
SÃO PAULO (Reuters) - Aguardada há mais de um ano, a política industrial que o governo federal anuncia na próxima segunda-feira, batizada de Política de Desenvolvimento Produtivo, desperta nas associações que reúnem os diversos segmentos do setor um misto de euforia e cautela.
O governo fala em desoneração e criação de linhas especiais de crédito para 24 setores da economia, com quatro macrometas, divulgadas na quinta-feira pelo Palácio do Planalto: elevar o investimento direto na economia, estimular a inovação, elevar a participação do país nas exportações globais e aumentar o número de micro e pequenas empresas exportadoras.
"Vamos rezar", afirmou, em tom de brincadeira, Ralph Lima Terra, vice-presidente executivo da Associação Brasileira das Indústrias de Base (Abdib).
O segmento de bens de capital sob encomenda, representado pela Abdib, apresentou ao governo um conjunto de 29 sugestões para recuperar a competitividade perdida nos últimos anos, segundo Terra.
Ele afirmou que, em diversas reuniões com membros do governo, a entidade recebeu sinalização de que "boa parte, senão a totalidade" das sugestões será contemplada na política. "A expectativa é a mais positiva possível", ressaltou.
Na área tributária, a Abdib sugere a criação de um regime fiscal especial para a indústria de bens de capital sob encomenda, de forma que o ICMS seja diferido para o usuário dos equipamentos. A idéia é evitar o pagamento de ICMS sobre matérias-primas, partes, peças e componentes em cada etapa da cadeia produtiva.
Humberto Barbato, presidente da Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica (Abinee), destacou que a indústria "viveu nos últimos dias uma enxurrada de notícias que abalam a confiança do empresariado e podem retrair a decisão de investimento".
Entre essas notícias, ele citou "o aumento expressivo da inflação" e a queda no índice de confiança do consumidor, além das incertezas sobre a economia norte-americana. Esses fatos tornam a expectativa sobre a política ainda maior.
Segundo ele, das solicitações que a Abinee encaminhou ao governo como propostas para a política industrial, "a única que sabemos que será contemplada é a que inclui as empresas de informática nos benefícios da Lei de Inovação".
As empresas que produzem bens de informática no país já recebem incentivos fiscais como isenção de IPI, desde que apliquem 5 por cento de sua receita bruta anual em pesquisa e desenvolvimento.
Com a Lei de Inovação, de outubro de 2005, elas também poderão deduzir do Imposto de Renda os gastos com pesquisa e receber incentivos pela contratação de profissionais com títulos de mestrado e doutorado.
"Esse é um pleito antigo desse setor e, segundo o ministro Sergio Rezende (da Ciência e Tecnologia), será contemplado. Não tenho mais nada de concreto neste momento", disse ele, em relação a outras reivindicações da indústria que possam ser atendidas.
De qualquer forma, Barbato afirmou que está otimista porque "viver sem política industrial só é um bom negócio quando não se tem as condições atuais do Brasil", afirmou, citando a taxa de juros alta, a depreciação do dólar e a carga tributária, considerada elevada.
OPORTUNIDADE DE US$ 300 BILHÕES
Antonio Carlos Gil, presidente da Associação Brasileira das Empresas de Software e Serviços para Exportação (Brasscom) também mostrou cautela ao dizer que "tudo indica que seremos contemplados", ao comentar as notícias veiculadas na imprensa sobre a desoneração da folha de salários do setor de software.
Segundo ele, "existe claramente no mundo uma oportunidade de 300 bilhões de dólares", em uma referência ao total movimentado no setor de tecnologia em contratos offshore --serviços terceirizados em outro país.
Para ele, o mercado indiano, que lidera a prestação de serviços offshore, "vive um certo cansaço" que se reflete, de acordo com o executivo, em aumento de custos e preocupação dos empresários com a concentração em um único país.
O Brasil é um candidato natural, segundo Gil, a esse mercado, mas "nossos custos não são competitivos".
Ele apontou que 70 por cento dos custos do setor estão na mão-de-obra e que tais custos, no Brasil, são 50 por cento maiores que na Índia.
A desoneração da folha de pagamentos, no entanto, também é pleito de outros setores, como o de bens de capital sob encomenda. "Hoje o funcionário custa caro para a empresa e ganha pouco", afirmou Terra, da Abdib.