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04/07/2008 - 17h55

É hora de investir em juros prefixados?

Por Cláudio Gradilone

SÃO PAULO, 4 de julho (Reuters) - Os índices de inflação dos últimos meses surpreenderam os investidores e provocaram um razoável grau de preocupação entre os economistas. Também causaram um efeito que não aparecia há tempos: o crescimento dos prêmios nos contratos de juros negociados na Bolsa de Mercadorias & Futuros (BM&F).

Cabe aqui a pergunta: é hora de assumir posições prefixadas? Vale a pena resgatar várias centenas de milhares de reais de um fundo DI e comprar um papel prefixado?

Vamos aos números. Os contratos futuros de juros com vencimento em janeiro de 2010, os mais negociados, fecharam nesta sexta-feira a 15,47% ao ano, uma leve alta em relação à véspera.

O prêmio embutido nessa taxa varia de acordo com as projeções individuais para a taxa Selic do fim do ano que vem, mas mais de um profissional de mercado calcula um prêmio de pelo menos um ponto percentual em relação ao juro referencial.

É um diferencial apetitoso o suficiente para justificar que se assuma uma posição de longo prazo, travando essa rentabilidade e esperando para embolsar a diferença. Vale a pena?

Na conta dos profissionais do mercado é hora de prestar um grau adicional de atenção aos terminais de notícias, mas a palavra de ordem ainda é cautela.

Essa recomendação tem três motivos básicos. O primeiro é a inflação. No início do ano, o cumprimento da meta de 4,5% era dado como certo e hoje, no início do segundo semestre, os prognósticos superam 6%.

Mais de um especialista espera notícias ruins na pesquisa Focus do Banco Central a ser divulgada na próxima segunda-feira.

No fim da tarde da sexta-feira, as apostas do mercado eram de que o prognóstico ficará perigosamente próximo do limite máximo de flutuação da meta, de 6,5 por cento. Isso se as notícias não forem ainda piores e ratificarem uma expectativa de descumprimento da meta, obrigando o BC a cumprir seu dever e apertar ainda mais a política monetária.

Em qualquer desses casos, a deterioração das expectativas será imediatamente refletida no mercado futuro de juros.

O segundo motivo é a insegurança do mercado com relação à crise de crédito internacional. A semana que se encerra foi sacudida por um relatório do banco de investimento Merrill Lynch afirmando que, se as condições de mercado não melhorassem, a General Motors <GM.N> poderia pedir concordata.

"Um bilhão aqui um bilhão ali"
Essa declaração causou mais preocupação acerca da profundidade da crise de crédito dos bancos e fez lembrar a frase atribuída ao político norte-americano Everett Dirksen (1896-1969), senador por Illinois: "um bilhão aqui, um bilhão ali, e logo vamos estar falando de dinheiro de verdade". (Cumpre dizer que não há provas concretas de que Dirksen tenha de fato dito isso, mas essa é uma daquelas frases saborosas demais para deixar de citar).

A frase mostra com precisão o tamanho da preocupação do mercado. A cada nova notícia sobre outra baixa contábil bilionária de um banco norte-americano ou europeu, o mercado especula os efeitos globais sobre os juros e o crédito, com impactos imediatos sobre as demais taxas. Ou seja, mais uma notícia ruim pode elevar novamente os prêmios do mercado futuro de juros.

Finalmente, o comportamento dos juros futuros hoje não depende apenas das variáveis tradicionais como inflação e ritmo da economia. As taxas também são influenciadas pelo comportamento dos grandes gestores globais de recursos -e expectativas em deterioração reduzem imediatamente a exposição ao risco.

Não por acaso, as ações brasileiras são as únicas em que a variação do ano ainda está positiva em dólares -meros 2,7%, mas mesmo assim no azul. Mercados europeus importantes apresentam queda de dois dígitos em dólares, e os gestores têm de vender as ações que mostram lucro para compensar parte dos prejuízos.

Esses movimentos drenam grandes quantias do mercado brasileiro e provocam distorções, ainda que momentâneas, nos juros futuros.

Por isso, a conclusão é que ainda não é hora de assumir uma posição longa no mercado de juros. Os prêmios no mercado futuro ainda podem subir um pouco, proporcionando mais rentabilidade e segurança para quem optar por travar sua posição.

* O jornalista Cláudio Gradilone assina a coluna Portfólio para a Reuters; as opiniões expressas são de sua responsabilidade.

(Edição de Daniela Machado)

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