24/04/2008 - 08h52
Análise: Juro inicia devolução de prêmio fictício

SÃO PAULO - Os investidores estrangeiros desarmaram ontem as defesas erguidas contra a possibilidade de o governo adotar mais restrições ao ingresso de capitais especulativos de curto prazo. Ao confiarem na garantia dada pelo secretário-adjunto do Tesouro, Paulo Valle, de que em sua reunião de hoje o CMN não irá nem elevar o IOF de 1,5% incidente sobre a compra de títulos públicos, nem criar novas restrições aos aplicadores externos, os hedge funds provocaram ontem fortes baixas nos contratos de juros futuros negociados na BM & F. Depois de dois dias de vigorosas altas, derrubaram as projeções sem esperar pelas sinalizações de política monetária a serem dadas pelo Copom na ata de sua reunião realizada na semana passada. O documento será publicado hoje no site do Banco Central.
O CDI previsto para a virada do ano caiu de 12,69% para 12,66%. O contrato mais negociado, para janeiro de 2010, recuou de 13,73% para 13,57%, sem retornar aos 13,35% em que estava antes da reunião do Copom que decidiu iniciar o ciclo de aperto monetário com uma alta (de 0,50 ponto) definida como parcela significativa de todo o aperto a ser feito. Os contratos mais longos também sofreram ontem quedas expressivas. A taxa para janeiro de 2011 caiu de 13,91% para 13,72%. As duas justificativas encontradas para as disparadas recentes - medo de tributação sobre aplicações externas destinada a anular o ganho conferido a elas pela alta da Selic e as cotações do petróleo em um nível recorde capaz de quebrar a resistência da Petrobras em mexer no preço dos combustíveis - perderam relevância ontem. Valle desmentiu providências oficiais constrangedoras aos capitais externos e o barril fechou em baixa de 0,90%, cotado a US$ 118,30 em Nova York.
Se o CMN não confirmar hoje o receio de taxação extra aos estrangeiros e se o Copom enfatizar em sua ata a necessidade de um aperto monetário curto - de mais duas ou três altas de 0,50 ponto -, os juros terão de continuar caindo aceleradamente no mercado futuro da BM & F. Não se trata de providência burocrática, que afeta apenas o caixa dos participantes desse pregão. Na verdade, como as projeções do DI futuro são as matrizes a partir das quais são fixadas as taxas de juros do crédito bancário, afetam decisivamente o lado real da economia brasileira. E os prêmios ainda embutidos nos DIs são violentos e incompatíveis com o cenário de tranqüilidade desenhado para a economia brasileira.
O economista Luiz Rogê Ferreira, chefe da CMA Análises, diz que o ajuste na taxa básica de juros implementado pelo BC na semana passada deveria proporcionar a diminuição desses prêmios. Mas a especulação de que poderia ser aumentado o IOF sobre a entrada de capitais externos para aplicações de renda fixa fez com que o mercado invertesse a direção da curva de juros, elevando suas taxas. Pelos seus cálculos, a estrutura a termo dos juros embute taxas de 13,41% para janeiro de 2009, 14,30% para janeiro de 2010 e 14,09% para janeiro de 2011. Os prêmios contra incertezas são absurdos. O incorporado ao janeiro de 2010 alcança 3,01%. " Caso não seja confirmada a possibilidade de novo aumento do IOF, os prêmios deverão ser reduzidos de maneira expressiva " , prevê Rogê.
O dólar persistiu em sua toada primária de queda. Fechou em baixa de 0,06%, cotado a R$ 1,6590. Foi beneficiado pela diminuição da aversão global a risco. Os grandes investidores saíram da casamata construída com títulos do Tesouro americano e se aventuraram pelos mercados sujeitos a risco. A venda de treasuries fez as taxas do papel de 10 anos subirem de 3,6918% para 3,7343%. O risco-Brasil caiu 1,29%, para 229 pontos-base. Os investidores se sentiram mais confiantes depois que três balanços de importantes empresas americanas do setor produtivo confinaram a crise à área financeira.
Os resultados da Boeing, da Yahoo e da Apple mostraram um mundo não maculado pela arapuca especulativa do subprime. Mas isso não é suficiente para restaurar a farra da liquidez internacional. Esta reestreará no dia em que os grande bancos voltarem a financiar as estripulias dos hedge funds com moedas e ativos de países emergentes. Em abril, o dólar já caiu 5,36%, mas depois que o Copom alargou o diferencial de juros a baixa foi irrisória, de apenas 0,30%. A razão é que falta crédito para o carry trade , operação por meio da qual o fundo alavancado toma emprestado recursos em moeda de baixa taxa de juros e aplica em outra de elevada taxa de juros. Com isso, ganha na diferença de taxas e na variação cambial.
(Luiz Sérgio Guimarães | Valor Econômico)