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23/10/2009 - 09h12

Bovespa retomou os 66 mil pontos e dólar fechou estável, a R$ 1,725

SÃO PAULO - Mesmo sendo um pregão morno se comparado a terça e quarta, a quinta-feira acabou com viés positivo para os mercados brasileiros. A Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) retomou os 66 mil pontos, o dólar fechou estável e os juros futuros curtos perderam prêmio, seguindo a sinalização do Banco Central (BC), de que a Selic segue estável por mais algum tempo.

Pelo lado externo, dezenas de balanços trimestrais e alguns dados econômicos garantiram instabilidade por parte do pregão, mas os compradores resolveram dar direção ao mercado na última hora do pregão, o que acabou contribuindo para os ganhos no mercado local.

Em Wall Street, depois de um breve passeio pelo terreno negativo, o Dow Jones fechou com valorização de 1,33%, aos 1.081 pontos. S & P 500 e Nasdaq ganharam 1,06% e 0,68%, respectivamente. De volta ao front doméstico, na noite de ontem, os investidores receberam uma mostra do primeiro impacto causado pela tributação ao investimento estrangeiro que vem ao país buscar rendimento em ações e títulos. Dados da BM & FBovespa mostraram uma saída líquida de R$ 1,26 bilhão na Bovespa na terça-feira, dia 20, data em que o IOF de 2% passou a valer. Com isso, o saldo estrangeiro no acumulado do mês de outubro caiu para R$ 3,75 bilhões. No ano, a cifra, que ultrapassava R$ 23 bilhões até a segunda-feira, recuou para R$ 21,76 bilhões. Agora é esperar os dados para ver qual a postura dos não residentes na quarta-feira, mas pelo comportamento do pregão, no qual o índice chegou a subir 4,7%, testando os 67 mil pontos, pelo menos parte desse dinheiro já deve ter voltado.

Quem deu saída ao estrangeiro na terça-feira foi o investidor local. As pessoas físicas fecharam o dia com saldo líquido positivo de R$ 822 milhões e os institucionais compraram R$ 260 milhões a mais do que venderam.

De volta ao pregão de ontem, com ajuda de Nova York e apoio dos carros-chefe, o Ibovespa subiu 0,99%, aos 66.134 pontos. Com a isso, as perdas na semana foram reduzidas a 0,10%. O giro financeiro, no entanto, foi baixo se comparado aos últimos dias, somando R$ 5,72 bilhões. No mês, o ganho acumulado é de 7,51%.

Segundo o sócio e diretor de operações da Hera Investment, Nicholas Barbarisi, a imposição de restrição ao capital externo tem um impacto de curto prazo no mercado, estancando o processo de alta. Mas avaliando a medida dentro da atual conjuntura, há outros fatores que pesam muito mais para a tomada de decisão de investimentos.

Segundo o especialista, a premissa continua a mesma. Em termos macroeconômicos, o Brasil mostra perspectivas bastante positivas e as empresas apresentam elevado potencial de crescimento. " Esses fatores atraem recursos externos e esse fluxo faz o mercado subir. O investidor não pode deixar de surfar essa tendência " , explicou.

De acordo com Barbarisi, a melhor forma de tirar proveito desse quadro é buscar empresas e setores que se beneficiarão dessa dinâmica de crescimento doméstico. No entanto, é bom ser seletivo nas compras, já que o preço de alguns papéis já antecipa um ano ou mais em suas cotações.

O dólar comercial fechou sem alteração. Conforme as bolsas se valorizavam, as compras perderam força, mas não houve estímulo suficiente ao desmanche de posições. Com isso, a divisa fechou a R$ 1,723 na compra e R$ 1,725 na venda.

Na roda de " pronto " da Bolsa de Mercadorias e Futuros (BM & F), o dólar também ficou sem alteração, valendo R$ 1,725. O volume negociado caiu 19%, para US$ 264,75 milhões. Já no interbancário, os negócios recuaram 44%, somando US$ 2,3 bilhões.

Os contratos de juros se ajustaram ao discurso oficial de crescimento não inflacionário reiterado pelo colegiado do BC. O economista-sênior do BES Investimentos do Brasil, Flávio Serrano, comentou que, ao acenar estabilidade da Selic, o BC tirou pressão dos vencimentos curtos, mas aumentou o risco de uma aceleração da economia e a necessidade de resposta mais agressiva no futuro. " A dinâmica na curva é essa. O que se pode discutir é por que colocar ainda mais prêmio em uma curva já premiada " , explicou.

Ainda de acordo com o economista, como o BC repetiu o comunicado de setembro, é possível esperar uma ata sem mudanças extraordinárias, já que o cenário prospectivo não se alterou de uma reunião para outra.

A posição do BC ajuda a reforçar a visão do BES de que a taxa de juros segue estável por um longo período de tempo. " Não faz sentido subir juros em 2010 com a inflação apontando para baixo da meta " , diz Serrano.

O economista também explicou que a discussão entre os participantes do mercado sobre alta no primeiro ou segundo semestre depende da interpretação que cada um faz do modo de atuação do BC.

Quem aposta em alta no começo de 2010 acredita que o BC avalia que a economia não precisa mais de estímulo. Portanto, a Selic é ajustada para a chamada taxa neutra. O problema aqui é saber qual é, exatamente, essa taxa.

A outra parte acredita que o BC vai reagir ao seu modelo e como a inflação projetada seque abaixo da meta até 2011, a Selic pode ficar em 8,75% por mais tempo.

Para o diretor geral da Máxima Asset, César Trotte, o Banco Central tem de trabalhar para retirar o estímulo dado à economia e atuar preventivamente contra a inflação. " A grande questão é 2011, quando a inflação pode preocupar um pouco. " Para 2010, Trotte não enxerga riscos emanando do comportamento preços, pois os administrados vão correr mais fracos em função da queda dos IGPs em 2009 e a economia continuará crescendo abaixo do potencial.

Na avaliação do economista, o movimento de queda da taxa de juros tem dois componentes. O estrutural, que reflete um juro de equilíbrio mais baixo em função de melhores fundamentos econômicos. E o conjuntural, ou seja, o estímulo dado para impulsionar a economia no período de crise.

Para Trotte, esse estímulo conjuntural já deveria estar sendo retirado. " Olhando o comportamento da atividade, não faz mais sentido ter esse estímulo " , diz o especialista, apontando para a queda do desemprego, aumento da produção e outras variáveis econômicas.

Em função desse crescimento da atividade, que pode levar o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) para cima de 6% em 2010, Trotte acredita que o BC vai agir tempestivamente e começar um aperto monetário já em janeiro de 2010.

Algum sinal de mudança no viés de política monetária pode vir na reunião de dezembro ou mesmo com a retirada dos estímulos dados pela alteração dos depósitos compulsórios. A necessidade de retirar o caráter estimulante da política monetária deve ficar mais clara com a divulgação do PIB do terceiro trimestre, que vai ser muito forte na avaliação do economista.

Feito esse ajuste, diz Trotte, o BC passa a acompanhar o comportamento da economia para sabe se é necessário adotar um postura de juros ativa, ou seja, a Selic passaria a conter o crescimento da demanda, pois a economia estaria acima de seu potencial.

Na agenda econômica, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostrou que a taxa de desemprego caiu de 8,1% em agosto para 7,7% em setembro. A previsão era de baixa para 8%. Mas a queda refletiu o menor número de pessoas procurando emprego e não um crescimento da população ocupada. O importante, mesmo, é que rendimento real e a massa salarial continuaram subindo, o que dá sustentação ao processo de recuperação da economia local.

Na BM & F, as curvas reagiram da seguinte maneira. O contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) com vencimento em janeiro de 2011, o mais líquido do dia, apontava declínio de 0,10 ponto percentual, a 10,27%. O vencimento para janeiro de 2012 fechou estável a 11,58%, depois de subir a 11,67%. E janeiro de 2013 projetava 12,27%, elevação de 0,06 ponto.

Entre os vencimentos curtos, janeiro de 2010 perdeu 0,02 ponto, marcando 8,65%. Julho de 2010, que divide as apostas quanto à possibilidade de alta na Selic no primeiro ou no segundo semestre, cedeu 0,09 ponto, a 9,14%. Destoando, novembro de 2009 perdeu 0,01 ponto, a 8,64%.

Até as 16h15, antes do ajuste final de posições, foram negociados 615.775 contratos, equivalentes a R$ 55,41 bilhões (US$ 31,77 bilhões), mais que o dobro do registrado na sessão anterior, mas baixo para dias pós-Copom. O vencimento para janeiro de 2011 foi o mais negociado, com 267.345 contratos, equivalentes a R$ 23,78 bilhões (US$ 13,63 bilhões).

(Eduardo Campos | Valor)

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