SÃO PAULO - Cada mercado respondeu a uma dinâmica na terça-feira. A Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) passou por forte correção, marcando a maior perda diária em quatro meses. O dólar oscilou bastante, mas fechou estável. Os juros futuros caíram de forma acentuada.
No mercado externo, o noticiário mostrou maior preço de moradias nos Estados Unidos em agosto, mas queda na confiança do consumidor e no índice de atividade do Federal Reserve (Fed) de Richmond.
Em Wall Street, o Dow Jones resistiu às vendas e fechou com leve alta de 0,14%, aos 9.882 pontos. Já o S & P 500 recuou 0,33%, para 1.063 pontos. O Nasdaq cedeu 1,20%, a 2.116 pontos.
Os carros-chefe, que na segunda-feira garantiram o descolamento da Bovespa da instabilidade externa, lideraram as vendas no pregão da terça-feira, contribuindo para a maior queda diária em quatro meses e para a perda dos 64 mil pontos conquistados no começo do mês.
Com 53 dos 63 ativos em baixa, o Ibovespa diminuiu 2,96%, fechando aos 63.161 pontos. A queda é a maior desde 22 de junho, quando o índice caiu 3,66%. O giro financeiro ficou em R$ 6,08 bilhões.
Para o chefe da área de renda variável da Capital Investimentos, Fernando Barbará, o mercado passa por um momento de acomodação depois da alta recente. Vale lembrar que até o dia 19 de outubro o índice vinha de uma sequência de nove máximas para o ano e valorização acumulada de 9,3% no mês.
Ontem, completou exatamente um ano que o Ibovespa fez sua mínima do período da crise ao fechar aos 29.435 pontos. Desde então, o índice subiu 114%, ou 33.726 pontos. Em dólares, o ganho ainda é mais impressionante, batendo 176%.
Olhando para frente, Barbará aponta que a perspectiva de longo prazo é muito positiva para o Brasil. No curto prazo, o comportamento depende do fluxo de recursos para bolsa, que tem sido o principal fator de alta, não só aqui, mas dos ativos de risco de forma geral.
Pelos últimos dados disponíveis, o saldo de investimento estrangeiro na Bovespa somava R$ 2,91 bilhões no acumulado de outubro até o dia 23. A soma chegou a passar os R$ 5 bilhões até a adoção do imposto de 2% para o capital externo.
Segundo o especialista, o dinheiro continua fluindo para os ativos que prometem rentabilidade. " Caso essa dinâmica não quebre, ou seja, caso as notícias continuem positivas, é muito provável que o mercado volte a melhorar " , disse o especialista, ponderando que, como alguns papéis já subiram muito no ano, a volatilidade é algo natural.
No câmbio, os vendedores sucumbiram à piora de humor no mercado local e à instabilidade do cenário externo, mas os compradores não encontram incentivo para atuar. Com isso, o dólar comercial encerrou o dia estável, a R$ 1,737 na compra e R$ 1,739 na venda. Na máxima, a moeda foi a R$ 1,745 e, na mínima, bateu R$ 1,727.
Na roda de " pronto " da Bolsa de Mercadorias e Futuros (BM & F), o dólar subiu 0,34%, para fechar a R$ 1,7387. O volume negociado na bolsa aumentou 14%, para US$ 234,75 milhões. No interbancário, os negócios tiveram alta de 36%, para US$ 1,9 bilhão.
Segundo o analista de câmbio da BGC Liquidez, Mário Paiva, a aversão ao risco reduz a entrada de dólares no país, mas ainda não é possível afirmar que houve alguma reversão de tendência para o preço da moeda americana. " Acredito que o dólar ficará oscilando entre R$ 1,70 e R$ 1,80 até o final do ano. "
Paiva comentou que um sinal claro de indefinição é a falta de negócios no mercado de opções de dólar. Segundo o especialista, quando as opções oscilam bastante, há perspectiva de alterações significativas na taxa. Mas, atualmente, esse mercado está com baixa liquidez.
Ampliando o foco da análise, Paiva ressaltou que um investidor experiente sabe que grande parte de toda essa melhora que as bolsas e outros ativos de risco apresentaram em 2009 tem um componente artificial. O ponto aqui é excesso de liquidez, resultado dos planos de apoio lançados pelos bancos centrais ao redor do mundo. A questão que fica é como esses ativos e os próprios investidores se comportarão quando esse dinheiro começar a ser retirado de circulação.
Os contratos de juros futuros passaram por ajuste de baixa. Acontece que as vendas não tiveram respaldo em novos fatos, mas sim em notícias indicando que o presidente do Banco Central (BC), Henrique Meirelles, teria falado ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva que não vê necessidade de alta de juros em 2010.
" Esse tipo de sinalização tira pressão da curva até janeiro de 2011 e arrasta para baixo, também, os outros vencimentos " , explicou operador de mercado que preferiu não se identificar.
No entanto, vale lembrar que, no começo do mês, o mercado passou por ajuste de alta, que perdurou por mais de uma sessão, depois que outra matéria apontou que o Banco Central estaria disposto a subir os juros até o começo de 2010 como resposta ao forte crescimento econômico.
Ao fim do pregão na BM & F, o contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) com vencimento em janeiro de 2011, o mais líquido do dia, apontava baixa de 0,06 ponto percentual, a 10,23%, depois de cair a 10,19%. O vencimento para janeiro de 2012 diminuiu 0,08 ponto, a 11,45%. E janeiro de 2013 projetava 12,19%, baixa de 0,06 ponto.
Entre os vencimentos curtos, janeiro de 2010 fechou estável a 8,66%. Julho de 2010, que divide as apostas quanto à possibilidade de alta na Selic no primeiro ou no segundo semestre, recuou 0,03 ponto, a 9,08%. E novembro de 2009 fechou estável a 8,63%.
Depois de um começo de semana de baixa liquidez, os agentes se mostraram mais dispostos aos negócios. Até as 16h15, antes do ajuste final de posições, foram negociados 508.455 contratos, equivalentes a R$ 45,20 bilhões (US$ 26,34 bilhões), quase quatro vezes mais do que o registrado na segunda-feira. O vencimento para janeiro de 2011 foi o mais negociado, com 226.715 contratos, equivalentes a R$ 20,21 bilhões (US$ 11,78 bilhões).
(Eduardo Campos | Valor)