SÃO PAULO - As explicações são muitas, passando por espaço para realização de lucros, saída de investimento externo, queda no preço das commodities e valorização do dólar. Mas o fato é que a Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) teve uma das maiores quedas diárias do ano nesta quarta-feira e, em apenas dois dias, devolveu todo o ganho acumulado em outubro.
Com vendas concentradas em Petrobras, Vale e siderúrgicas, o Ibovespa caiu 4,75%, para 60.162 pontos. A queda foi a maior desde o dia 2 de março, quando o índice perdeu 5,1%. E a pontuação atingida hoje é a menor desde o final de setembro.
Da máxima para o ano, registrada em 19 de outubro aos 67.239 pontos, o índice já perdeu 10,53%, sendo mais de 7,5% entre ontem e hoje. Com isso, toda a evolução registrada no mês de outubro foi perdida, e o índice passou a acumular baixa de 2,20% no mês.
Para o gestor do hedge fund Syllogistic Capital Partners, Pedro Saboia, o que o mercado enxerga nos últimos dias é a famosa realização de lucros. " Os preços estavam um pouco caros e a relação risco/retorno não compensava. O que a realização faz é ajustar essa relação. "
Na visão do gestor, que está baseado em Nova York e tem uma carteira focada em recibos de ações de empresas brasileiras (ADRs) e outros ativos emergentes, esse processo de correção pode durar mais alguns dias, mas não deixa de representar uma oportunidade de entrada na bolsa.
Para Saboia, um dos gatilhos para as vendas foram os dados menos animadores sobre a economia americana, como piora da confiança do consumidor e menor demanda por casas novas. Fora isso, diz o especialista, os resultados trimestrais vieram positivos, mas não de forma suficiente a sustentar o Dow Jones acima dos 10 mil pontos.
Ainda de acordo com o gestor, o mercado exagerou um pouco na antecipação das expectativas, que acabaram frustradas, mesmo que em parte, pelos últimos indicadores.
" A melhor analogia que escutei é que a economia deve ter uma recuperação não em W ou em V, mas sim como um símbolo de raiz quadrada " , exemplificou o especialista, apontando que os agentes voltam a trabalhar com a ideia de recuperação lenta e gradual da economia.
Ainda sobre esse assunto, Saboia aponta que atividade saiu do vácuo observado na etapa mais severa da recessão, mas está se acomodando em níveis mais baixos.
Outro ponto destacado pelo especialista é a forte redução no apetite por risco observado nos últimos dias. A crescente demanda pelos títulos do Tesouro americano surpreende, o que acaba dando força ao dólar. O problema, aqui, é que o dólar é a moeda de referência de posições alavancadas (carry trade).
Conforme a moeda americana ganha valor, quem está alavancado, ou seja, com uma dívida em dólar para compra de ativos, começa a perder dinheiro e precisa se " desalavancar " , vendendo ativos de risco como ações e commodities e recomprando moeda para pagar a dívida. " Creio que a melhor posição no curto prazo é ficar neutro. "
Para o gestor, o preço dos ativos deve se consolidar em um patamar mais baixo antes de uma nova rodada de alta. " Para o longo prazo ainda acredito que as perspectivas para o Brasil e América Latina são boas " , concluiu.
Os papéis de empresas brasileiras negociadas em Nova Yokr também passaram por forte ajuste de baixa. O Dow Jones Brazil Titan, que lista as 20 ADRs mais negociadas, desabou 6,07%, para 30.894 pontos.
De volta à Bovespa, Vale PNA liderou mais uma vez o volume negociado, movimentando mais de R$ 1,2 bilhão. O papel caiu 4,53%, para R$ 37,85 - cabe lembrar que ontem, a ação já tinha perdido mais de 4%.
Os agentes operaram na expectativa dos resultados da companhia, que fechou o terceiro trimestre com lucro de R$ 3 bilhões, queda de 61,3% no comparativo anual. A previsão da Brascan Corretora sugeria lucro de R$ 2,95 bilhões. Já a Fator Corretora trabalhava com ganho de R$ 3,4 bilhões.
Petrobras PN, que chegou a operar em alta, perdeu 4,75%, a R$ 34,24. O barril de WTI cedeu mais de 2% e vale menos de US$ 78.
As siderúrgicas também caíram de forma acentuada. Gerdau PN recuou 7,16%, a R$ 25,53, e Usiminas PNA valia 6,44% menos, a R$ 45,70. Já CSN ON caiu 5,01%, saindo a R$ 56,80.
Com o terceiro maior volume do dia, Itaú PN devolveu 6,67%, a R$ 33,00, enquanto Bradesco PN caiu 5,45%, a R$ 33,65, e Banco do Brasil ON cedeu 6,87%, a R$ 27,10. Fora do índice, Santander unit recuou 4,48%, a R$ 21,51.
Ainda entre os mais negociados, Cyrela ON diminuiu 4,91%, a R$ 21,30. O preço de emissão das novas ações da companhia foi fixado em R$ 22, um desconto de 1,79% em comparação ao preço de fechamento do dia anterior. Os novos ativos começam a ser negociados amanhã.
Também ligada às commodities, MMX Mineração ON desabou 9,28%, a R$ 10,85, maior perda do dia. Em relatório, a Brascan Corretora revisou seu modelo para o papel da companhia e chegou a um novo preço-alvo para dezembro de 2010, de R$ 17,10, o que corresponde a um potencial de alta de 43% sobre o valor de fechamento de ontem.
Klabin PN e JBS ON recuaram mais de 8% cada, para R$ 4,04 e R$ 9,11, respectivamente. Metalúrgica Gerdau PN, Gafisa ON, TAM PN, Aracruz PNB, Bradespar PN e VCP PN fecharam o dia ao menos 7% mais baratas.
As ações ON da estreante Cetip não conheceram o terreno positivo. O papel operou em baixa da abertura ao fechamento, encerrando o dia R$ 11,76, queda de 9,53%. Na mínima foi a R$ 11,21 e na máxima saiu a R$ 12,15, o que ainda representa queda de 6,54% sobre o preço de lançamento de R$ 13. A empresa, que domina o mercado de liquidação e custódia na negociação de títulos de renda fixa privados e derivativos no mercado de balcão brasileiro, ingressou no Novo Mercado da Bovespa com uma oferta secundária de 58.954.818 ações, a R$ 13 cada. Vale lembrar que o preço de emissão ficou no piso da estimativa, que ia até R$ 17.
Os únicos dois ativos dos 63 do Ibovespa a registrar alta foram Cosan ON, que subiu 2,83%, a R$ 18,50, e Transmissão Paulista PN com alta de 0,42%, a R$ 49,70.
(Eduardo Campos | Valor)