SÃO PAULO - As explicam são muitas, mas o fato é que a quarta-feira foi um dia negativo para os mercados brasileiros, particularmente para a Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa), que teve um dos piores pregões do ano, o quarto pior para ser mais exato. O dólar subiu, mas em intensidade bastante inferior se comparada às perdas na bolsa. Já os contratos de juros futuros tiveram baixa oscilação e volume pouco representativo.
Na Bovespa, a esperada realização de lucros finalmente tomou lugar, mas, como quase sempre acontece, assusta pela violência. Em apenas dois dias, o índice perdeu 7,56%, devolvendo todo o ganho acumulado no mês e voltando à linha dos 60 mil pontos, que não era registrada desde o fim de setembro.
Com vendas concentradas em Petrobras, Vale e siderúrgicas, o Ibovespa caiu 4,75%, para 60.162 pontos. A queda foi a maior desde o dia 2 de março, quando o índice perdeu 5,1%. Mostrando consistência e presença do investidor estrangeiro na venda o volume somou R$ 9,05 bilhões, o maior desde 11 de maio de 2008 para dias sem vencimento de opções e índice.
Da máxima para o ano, registrada em 19 de outubro aos 67.239 pontos, o Ibovespa já perdeu 10,53%. Com isso, toda a evolução registrada no mês de outubro foi perdida e o índice passou a acumular desvalorização de 2,20% no mês. No ano, o ganho de 60,22% ainda enche os olhos.
" Os preços estavam um pouco caros e a relação risco/retorno não compensava. O que a realização faz é ajustar essa relação " , disse, o gestor do hedge fund Syllogistic Capital Partners, Pedro Saboia.
Na visão do gestor, que está baseado em Nova York e tem uma carteira focada em recibos de ações de empresas brasileiras (ADRs) e outros ativos emergentes, esse processo de correção pode durar mais alguns dias, mas não deixa de representar uma oportunidade de entrada na bolsa.
Outro ponto destacado pelo especialista é a forte redução no apetite por risco observado nos últimos dias. A crescente demanda pelos títulos do Tesouro americano surpreende, o que acaba dando força ao dólar. O problema, aqui, é que o dólar é a moeda de referência de posições alavancadas (carry trade).
Conforme a moeda americana ganha valor, quem está alavancado, ou seja, com uma dívida em dólar para compra de ativos, começa a perder dinheiro e precisa se " desalavancar " , vendendo ativos de risco como ações e commodities e recomprando moeda para pagar a dívida. " Creio que a melhor posição no curto prazo é ficar neutro. "
O gerente de operações da Terra Futuros, Arnaldo Puccinelli, tem a mesma visão quanto a esse aumento na aversão ao risco. O investidor sai de bolsa e commodities e vai para o " porto seguro " da dívida americana. " Isso acaba fortalecendo o dólar com relação a outras moedas. "
O gerente explicou, ainda, que o estrangeiro que percebe essa valorização do dólar em um momento de correção na bolsa tem que correr para zerar posições, pois, caso contrário, pode perder tanto na bolsa quanto no dólar. " Esse fator está acelerando esse movimento de correção. "
Ainda de acordo com Puccinelli, o mercado está voltando à realidade, ou seja, começa a perceber que houve uma antecipação exagerada da melhora econômica. " Os riscos não estão completamente sanados " , apontou o especialista, indicando que novos problemas ainda podem surgir do lado financeiro de economias desenvolvidas e também das emergentes.
Um dos gatilhos para o mau humor recentes foi a decepção com os dados sobre a economia americana. Depois de um dado muito ruim de confiança do consumidor ontem, o mercado foi surpreendido por uma queda de 3,6% na venda de novas moradias nos Estados Unidos durante o mês de setembro. Resultado que contrariou a previsão de alta e marcou a primeira queda em seis meses.
O estrategista da CM Capital Market, Marcelo Portilho, a estabilidade do mercado imobiliário é um fator necessário para estabilidade do mercado como um todo.
Ampliando a análise, o estrategista lembra que a economia mundial, especialmente a americana, recebeu uma série de estímulos, o que impulsionou, talvez de forma artificial, uma recuperação. " Agora, temos a retirada de algumas dessas medidas e tentamos ver como a economia se comporta com menos estímulos " , explicou, lembrando que, nos EUA, o governo já tirou os incentivos no setor automotivo para o consumidor comprar sua primeira casa.
" O que mais preocupa é saber como a economia vai caminhar sozinha, ainda mais depois que muita gente já comprou uma recuperação mais forte " , resumiu o especialista.
Com tal mentalidade, o mercado olha a primeira preliminar do Produto Interno Bruto (PIB) dos EUA no terceiro trimestre, dado que será conhecido agora pela manhã. De acordo com Portilho, um resultado em linha ou melhor do que o esperado não será necessariamente bom se os novos dados continuarem surpreendendo para baixo.
Outro ponto que vem incomodando o mercado é a correlação positiva entre bolsa e preço do petróleo. Segundo Portilho, tal movimento é mal visto, pois quanto mais caro o petróleo menos renda disponível tem o consumidor, o que, no limite, acaba atrapalhando qualquer cenário de recuperação de atividade.
De volta aos números do mercado. No câmbio, o dólar comercial chegou a operar em baixa, mas conforme as bolsas e as commodities perderam sustentação, os compradores ampliaram suas posições defensivas.
Com isso, o dólar comercial fechou o dia valendo R$ 1,753 na compra e R$ 1,755 na venda, avanço de 0,92%. O preço é maior desde o dia 7 de outubro.
Na roda de " pronto " da Bolsa de Mercadorias e Futuros (BM & F), o dólar aumentou 0,91%, para fechar a R$ 1,7545. O volume negociado subiu 18%, para US$ 276 milhões. No interbancário, os negócios tiveram alta de 26%, para US$ 2,4 bilhões.
Como acontece toda a quarta-feira, o Banco Central (BC) apresentou os dados sobre fluxo cambial parcial. Na semana passada, o saldo fechou positivo em US$ 2,35 bilhões. No entanto, é possível notar uma brusca redução no movimento depois do dia 20 de outubro, dada na qual passou a valer o IOF de 2% para investimento externo em bolsa e títulos.
Ainda na terça-feira, dia 20, o saldo foi positivo em US$ 1,04 bilhão; já na quarta-feira, a sobra de dólares ficou em US$ 375 milhões. Na quinta e sexta-feira, foram registradas saídas de US$ 318 milhões e US$ 77 milhões, respectivamente.
Pela segunda semana consecutiva o Banco Central (BC) faz menores compras no mercado à vista. Na semana passada, as intervenções no mercado de pronto somaram apenas US$ 541 milhões. Na semana anterior, os leilões tinham tirado US$ 594 milhões, contra mais de US$ 5,3 bilhões drenados na segunda semana do mês.
Na visão do diretor-executivo da NGO Corretora, Sidnei Moura Nehme, os dados mostram uma imprescindível mudança de atitude por parte do Banco Central. Conservada tal posição, o especialista acredita que o dólar tenderá a seu preço de equilíbrio na faixa de R$ 1,80.
Há meses, Nehme defende que, ao comprar mais dólares no mercado do que o fluxo excedente, o BC acabava contribuindo para a queda de preço da moeda, pois os bancos se aproveitavam desse grande tomador para ampliar posições vendidas (aposta contra o dólar). Tal distorção permitia que as instituições captassem dólares a um custo baixo, transformasse em reais e rentabilizassem esse dinheiro. Depois, dado o ambiente, eles trabalhavam pela apreciação da moeda e ganhavam, também, com as posições vendidas.
" O mercado cambial tem sofisticações operacionais nem sempre perceptíveis a quem não convive com a proximidade as suas realidades. E são elas, na quase totalidade das vezes, as determinantes da formação do preço da moeda americana. Claro está que não é o fluxo cambial positivo que aprecia o real " , concluiu o especialista.
No mercado de juros futuros, depois de um forte ajuste de baixa na terça-feira, os contratos fecharam próximos da estabilidade, com leve queda nos curtos e alta nos longos.
Segundo o vice-presidente de tesouraria do Banco WestLB, Ures Folchini, a devolução de prêmios parou de acontecer por dois fatores. O primeiro deles foi o desmentido feito pelo presidente do BC, Henrique Meirelles, de que teria falado ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva que não vê necessidade de alta de juros em 2010.
O outro ponto é o cenário externo mais avesso ao risco, que acaba prejudicando, também, o posicionamento no mercado futuro. " A curva segue com muito prêmio e deve voltar a cair. Só que esse ajuste não se dá do dia para a noite. A perda de prêmio é um processo que acontece aos poucos " , resume o especialista.
O mercado também operou na expectativa da ata do Comitê de Política Monetária (Copom), que será conhecida na manhã desta quinta-feira. Para Folchini, o documento deve manter um tom positivo e o BC também deve fazer menção à queda do dólar no período, o que deve ter melhorado as projeções de inflação dentro do seu modelo de previsão. " O câmbio melhora as projeções de inflação, reforçando a ideia de juros baixos. "
Ao fim do pregão na BM & F, o contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) com vencimento em janeiro de 2011, o mais líquido do dia, apontava baixa de 0,01 ponto percentual, a 10,22%. Já o vencimento para janeiro de 2012 ganhou 0,01 ponto, a 11,45%. E janeiro de 2013 projetava 12,24%, alta de 0,05 ponto. Janeiro de 2014 e janeiro de 2015 também acumularam prêmios.
Entre os vencimentos curtos, janeiro de 2010 cedeu 0,01 ponto, a 8,65%. Julho de 2010, que divide as apostas quanto à possibilidade de alta na Selic no primeiro ou no segundo semestre, também perdeu 0,01 ponto, a 9,07%. E novembro de 2009 fechou estável a 8,63%.
Até as 16h15, antes do ajuste final de posições, foram negociados 358.030 contratos, equivalentes a R$ 31,82 bilhões (US$ 18,34 bilhões), queda de 30% sobre o registrado na terça-feira. O vencimento para janeiro de 2011 foi o mais negociado, com 142.325 contratos, equivalentes a R$ 12,69 bilhões (US$ 7,31 bilhões).
No front externo, mais um banco central iniciou o processo de aperto monetário. Depois da Austrália, foi a vez da Noruega subir a taxa básica. O custo do dinheiro subiu de 1,25% para 1,5%, movimento já esperado pelos economistas, pois, na, sua última reunião, a autoridade monetária já tinha aventado tal possibilidade.
(Eduardo Campos | Valor)