SÃO PAULO - A quinta-feira foi de recuperação para os mercados brasileiros. A quarta-feira, que entrou na lista dos piores dias do ano para a Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa), foi seguida por um dos melhores dias de 2009 até o momento. No câmbio, a instabilidade foi grande, mas as vendas acabaram falando mais alto. Já os contratos de juros futuros acumularam prêmio de risco, mesmo com uma ata do Comitê de Política Monetária (Copom) pouco esclarecedora sobre o rumo da taxa Selic.
O gatilho para a correção, como explicou o gestor da Leme Investimentos, Januário Hostin Júnior, foi o Produto Interno Bruto (PIB) dos Estados Unidos, dado mais esperado da semana e que surpreendeu de forma positiva.
De acordo com o Departamento de Comércio dos Estados Unidos, a economia cresceu 3,5% no terceiro trimestre, melhor resultado em dois anos, mas dentro da faixa das estimativas.
Segundo a consultoria UpTrend, o crescimento consistente do PIB dos EUA, com avanço do consumo e inflação em baixa, desenha um cenário melhor do que se poderia esperar para o governo americano e mostra que o caminho do incentivo econômico é certamente o mais acertado para uma crise desta proporção.
" A sinalização mais importante deste PIB é que existe base sólida para se sustentar uma alta consistente das bolsas de valores daqui para os próximos seis meses " , ressaltou a consultoria em comunicado.
Em uma de demonstração de força, ou irracionalidade, a Bovespa precisou de apenas um dia para retomar cerca de metade do que perdeu desde o dia 19.
Com 62 dos 63 ativos listados em alta, o Ibovespa disparou 5,91%, para fechar aos 63.720 pontos. A valorização é a maior desde 4 de maio, quando o índice ganhou 6,59%, e a terceira maior do ano. O giro financeiro ficou em R$ 7,31 bilhões.
Com tal comportamento, o Ibovespa voltou a registrar valorização no mês, de 3,58%, mas ainda amarga queda de 2,06% na semana. Já no ano, o salto é de 69,7%.
O gestor da Leme comenta que fazia tempo que o mercado precisava de uma realização. E ela aconteceu. Considerando que o Ibovespa caiu mais de 10% das máximas, isso se mostrou suficiente para chamar os investidores de volta ao mercado, além de criar uma janela para quem estava de fora poder participar.
Analisando o mercado com base em um modelo quantitativo que avalia as posições dos grandes agentes de mercado em mais de 50 ativos ao redor do mundo, Milton Wagner, da Wagner Investimentos Ltda., aponta que se está no fio da navalha, ou seja, respeitadas algumas linhas de preço, a Bovespa e outras bolsas podem retomar a tendência de alta e o dólar voltar a cair.
O modelo elaborado por Wagner acena que o ponto a ser respeitado no caso da Bovespa está aos 61.500 pontos. " Enquanto a bolsa estiver acima desde patamar, os grandes investidores não zeram duas posições, ou seja, o mercado tem capacidade de retomar e tende a buscar os 70 mil pontos " , explica Wagner.
Agora, se o índice começar a oscilar consistentemente abaixo dessa linha o investidor deve ficar alerta e começar a repensar as posições compradas, pois o objetivo na baixa aponta para a linha dos 58 mil pontos.
A mesma análise pode ser feita para o índice americano S & P 500, que apresenta como linha d´água os 1.050 pontos.
Passando para o lado dos fundamentos, Wagner aponta que é senso comum de que o remédio dado à economia global foi bastante forte e que os juros praticados ao redor do globo são muito baixos. " Por isso, não acredito que possa acontecer uma profunda realização em um momento de juros zero e em que temos quase US$ 15 trilhões apoiando as instituições financeiras dos EUA " , resumiu.
O grande risco é uma reversão dessa política monetária expansiva nos EUA. No curtíssimo prazo, o dado a ser acompanhado é o relatório sobre o mercado de trabalho americano. O dado será conhecido na semana que vem e resultados fracos prejudicam o mercado, mas os demasiadamente acima do espero podem aumentar as apostas de alta de juros nos EUA.
No front corporativo, Vale PNA foi o destaque, recuperando praticamente toda a perda de 8,8% amargada nas duas sessões anteriores. O papel movimentou mais de R$ 1 bilhão, conquistando elevação de 8,58%, para R$ 41,10. Vale lembrar que ativo ficou mais de 15 minutos em leilão no começo dos negócios em função da elevada demanda.
Dia de extremos no mercado de câmbio, mas bem dividido entre compradores, que atuaram pela manhã e levaram o dólar a R$ 1,779, e vendedores, que dominaram o período da tarde, levando a moeda a fazer mínima aos R$ 1,728.
Ao fim da jornada, o dólar comercial valia R$ 1,729 na compra e R$ 1,731 na venda, queda de 1,36%. Na semana, a divisa americana ainda acumula apreciação de 1,05%, mas perde 2,31% em outubro.
Na roda de " pronto " da Bolsa de Mercadorias e Futuros (BM & F), o dólar caiu 1,39%, para fechar a R$ 1,7301. O volume negociado cedeu 5%, para US$ 262,5 milhões. No interbancário, os negócios dobraram para US$ 4,8 bilhões.
De acordo com o gerente de câmbio da Treviso Corretora, Reginaldo Galhardo, a puxada de alta foi reflexo do after market de quarta-feira, quando a taxa chegou a subir a R$ 1,79, o que exigiu o ajuste de algumas posições no começo do pregão.
Findo o ajuste, os agentes passaram a atuar conforme a sinalização desta quinta e o tom dos negócios foi dado pela divulgação do PIB americano. Na visão de Galhardo, o dado ajudou a afastar as dúvidas que rondavam o mercado de que o país não estava crescendo.
O indicador também teve forte impacto sobre o apetite por risco. Segundo o gerente, os agentes que venderam ações na Bovespa e foram buscar proteção do dólar futuro, desfizeram tais operações e voltaram correndo para a bolsa. " Depois da divulgação do PIB a bolsa começou a bombar e esse investidor não pensou duas vezes. Voltou à Bovespa. "
Deixando de lado do dia a dia do mercado, Galhardo nota uma movimentação diferente desde a imposição do IOF de 2% ao capital externo. Antes, diz o gerente, os agentes traziam dinheiro do mercado externo e arbitravam taxas no front doméstico. Agora, com os 2% do IOF essa operação perdeu lucratividade e essas linhas estão voltando para o mercado.
" Os bancos estão vendo que a arbitragem não dá mais e estão correndo atrás dos clientes " , disse Galhardo
Os contratos de juros futuros encerraram a quinta-feira apontando para cima na BM & F Para o gestor da Global Equity, Octávio Vaz, a abertura de taxa não teria relação com o conteúdo da ata do Comitê de Política Monetária (Copom). Tal movimento poderia ser reflexo de ajuste técnico de agentes que estavam vendidos esperando alguma surpresa positiva do documento. Também há o componente externo já que a economia americana mostrou forte crescimento no terceiro trimestre.
De acordo com o gestor, a ata do Copom foi um evento nulo. " Não consegui extrair sinalização de juros nem para baixo nem para cima. "
Segundo Vaz, o documento é pontuado por dúvidas e deixa explícito algo já bastante óbvio, que é difícil projetar qualquer coisa em um cenário como o de hoje.
A ata ressalta, também, que a inflação corrente tem pouca importância e que o BC olha para as expectativas de preço e também monitora de perto o ritmo da atividade. " Enquanto não tiver risco de pressão inflacionária ele não mexe na Selic. "
Ao fim do pregão, o contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) com vencimento em janeiro de 2011, o mais líquido do dia, apontava alta de 0,05 ponto percentual, a 10,25%. Já o vencimento para janeiro de 2012 ganhou 0,03 ponto, a 11,52%. E janeiro de 2013 projetava 12,30%, também avanço de 0,03 ponto.
Entre os vencimentos curtos, janeiro de 2010 manteve 8,64%. Julho de 2010, que divide as apostas quanto à possibilidade de alta na Selic no primeiro ou no segundo semestre, subiu 0,06 ponto, a 9,12%. Já novembro de 2009 recuou 0,02 ponto, a 8,61%.
Até as 16h15, antes do ajuste final de posições, foram negociados 491.150 contratos, equivalentes a R$ 43,81 bilhões (US$ 25,11 bilhões), avanço de 37% sobre o registrado na quarta-feira, mas baixo para dias pós-Copom. O vencimento para janeiro de 2011 foi o mais negociado, com 229.075 contratos, equivalentes a R$ 20,43 bilhões (US$ 11,71 bilhões).
(Eduardo Campos | Valor)