SÃO PAULO - O nível de capitalização das instituições financeiras se mostrou confortável ao longo do primeiro semestre e tem horizonte favorável nos próximos anos. A conclusão consta do Relatório de Estabilidade Financeira (REF) do Banco Central divulgado hoje sobre o desenvolvimento do Sistema Financeiro Nacional (SFN) na primeira metade de 2009.
Após a escassez de liquidez no sistema financeiro doméstico nos meses finais de 2008, o primeiro semestre do ano foi marcado pela retomada da normalidade. Para o BC, o cenário adverso funcionou como "teste" para o sistema bancário brasileiro, "que respondeu positivamente".
"A qualidade dos ativos é satisfatória, sem descolamentos relevantes entre seus valores contábeis e os de mercado. Os níveis de aprovisionamento são confortáveis, mesmo para os atuais níveis de inadimplência, acima da média histórica."
O relatório avalia que a rápida atuação do BC e do Conselho Monetário Nacional (CMN), tanto em prover liquidez como em abertura de linhas de crédito alternativas aos meios externos de financiamento, diminuiu o impacto dessa escassez sobre o sistema financeiro brasileiro.
Ainda que as provisões tenham sido montadas essencialmente durante a crise, o BC avalia que o sistema bancário mostrou eficiência e disposição para proteger os balanços. O lucro da primeira metade do ano, de R$ 20 bilhões, ficou em linha com o apurado no primeiro semestre de 2008, mas com "qualidade bastante superior" em relação aos resultados da segunda metade de 2008, quando o lucro foi predominantemente formado por resultados não operacionais e pela ativação de créditos tributários.
Na avaliação do BC, na primeira metade deste ano a situação já confortável de solvência dos bancos ficou ainda melhor e o lucro contribuiu para elevar o Patrimônio Líquido do setor.
Segundo a autoridade monetária, os testes de estresse feitos no sistema mostraram "nível adequado de capitalização", com Índice de Basileia acima do mínimo regulamentar de 11% mesmo em cenários extremos de baixa probabilidade de ocorrência. Além disso, a baixa alavancagem do sistema também permitiu expansão do crédito sem necessidade de aportes de capital.
"A implementação dessas iniciativas representa a perspectiva de horizonte favorável ao sistema bancário brasileiro nos próximos anos."
Na análise do mercado financeiro, o relatório lembra que, embora a turbulência tenha levado ao aumento da volatilidade de outubro do ano passado a março deste ano, a recuperação de preços de commodities arrefeceu a aversão a risco em países emergentes, incluindo o Brasil, a partir de então.
No período, o BC também implementou uma política monetária expansionista, em reversão ao quadro de aperto do juro para controlar a inflação entre abril e setembro de 2008. A partir de janeiro deste ano, o Comitê de Política Monetária (Copom) passou a reduzir a Selic, em movimento que perdurou até agosto, quando os indicadores passaram a sinalizar recuperação.
No segmento cambial, o banco lembra que os meses de abril e maio de 2009 foram marcados pela retomada das operações de swaps reversos e por intervenções do BC no mercado à vista com o objetivo de fortalecer as reservas internacionais, que superaram US$ 219 bilhões no final de agosto. Em junho, houve extensão da linha de US$ 30 bilhões de swap entre dólares e reais estabelecida com o Federal Reserve até 1º de fevereiro de 2010.
Para o mercado de ativos, onde os investidores passaram a ter postura mais cautelosa até o primeiro trimestre, foi observada uma melhora a partir de abril com retomada de aplicações de prazo mais longo. O segmento acionário teve recuperação de março a agosto, por conta do abrandamento da crise lá fora.
De janeiro a agosto houve uma queda de 13,4% no volume de contratos negociados no mercado futuro de juros na BM & FBovespa, com migração dos negócios de prazos intermediários com vencimento entre seis meses e dois anos para contratos com prazos inferiores a seis meses.
"A participação relativa dos contratos mais curtos, contudo, ainda permanece elevada, refletindo uma postura cautelosa dos agentes de mercado que mantêm suas exposições a risco reduzidas." Nos primeiros oito meses deste ano, os DIs mais curtos foram os mais líquidos, especialmente os contratos com vencimento em janeiro de 2010 e em janeiro de 2011.
No mercado de ações, embora o Índice da Bolsa de Valores de São Paulo (Ibovespa) tenha ficado em torno de 40 mil pontos no primeiro bimestre, a partir de março o índice passou a ter alta. Internamente, a política de afrouxamento monetário adotada pelo BC e os efeitos das medidas de estímulo fiscal contribuíram para impulsionar essa recuperação, que resultou em alta acumulada de 50,4% nos primeiros oito meses deste ano.
Com crescimento menor a partir de outubro do ano passado e até retração do PIB, houve queda de arrecadação que, aliada à políticas anticíclicas do governo, justificaram a redução da meta de superávit primário do setor público para 2009 de 3,8% para 2,5% do PIB.
"Não obstante pontuais pioras no resultado fiscal, a atuação tempestiva através de medidas anticíclicas com instrumentos financeiros e fiscais contribuiu para a compatibilização das expectativas com as metas para a inflação e para a resiliência da economia brasileira. As condições atuais do mercado financeiro brasileiro retratam a minimização dos efeitos da crise externa e a retomada da demanda interna," menciona o BC em suas ponderações.
(Bianca Ribeiro | Valor)