SÃO PAULO - O mês de outubro pode ser dividido em duas partes bem distintas. Até o dia 19, o bom humor reinava, com máximas na bolsa e mínimas no dólar. A partir de então, o esgotamento dessa tendência aliado a dados menos favoráveis no mercado externo deram um choque de realidade no mercado, que reagiu com volatilidade nas últimas duas semanas do mês.
O pregão de sexta-feira passada ilustrou bem esse segundo período. A Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) oscilou mais de 3 mil pontos entre mínima e máxima, até fechar com queda de 3,41%, aos 61.545 pontos. O giro financeiro ficou em R$ 7,10 bilhões.
Com tal pontuação, o índice fechou a semana com baixa de 5,40%, o que faz desta a pior semana desde meados de fevereiro, quando o índice caiu 7,1%. Em outubro, o índice ainda defendeu leve valorização de 0,05%. No ano, o ganho está em 63,9%.
Para quem gosta de gráficos, tanto o Ibovespa quanto o S & P 500 testaram suportes importantes, que podem definir novas rodadas de baixa ou sustentação de preços no atual patamar.
Segundo o economista da Legan Asset Management, Fausto Gouveia, o mercado voltou a ter contato com um termo que estava em desuso até meados do mês: volatilidade. " Nesses dias de indefinição, o mercado funciona como manada, parece que só há uma direção. "
Uma medida bastante acompanha pelos agentes domésticos e externos ajuda a quantificar bem esse momento de indefinição. O índice de volatilidade VIX, negociado no mercado americano, saltou quase 30% na sexta-feira, ultrapassando os 30 pontos, algo que não acontecia desde o começo de julho.
Gouveia notou que o que se pode extrair de tal comportamento é que o mercado vai com força para algum lado nos próximos dias. " Nesses momentos é melhor acompanhar do que entrar no tiroteio " , avaliou o especialista.
Fazendo um breve exercício de memória, entre o final de junho e começo de julho, quando o VIX também apresentou puxadas de alta, o Ibovespa estava em um ponto de indefinição tentando voltar às máximas do período na casa dos 54 mil pontos. O interessante é que, antes de tomar fôlego para subir, o índice caiu a 48.872 pontos no dia 14 de julho, menor pontuação em dois meses.
Acontece que, nesse mesmo período, os balanços dos bancos americanos surpreenderam e a China mostrou força, o que tirou o índice do canal de baixa. Desde então, o Ibovespa manteve uma trajetória ascendente praticamente constante, com algumas paradas na casa dos 55 mil e 60 mil pontos até bater os 67 mil pontos.
Na visão do economista, há espaço para o Ibovespa corrigir até os 59 mil pontos, buscando fôlego para encerrar o ano na faixa dos 65 mil a 67 mil pontos.
Ainda de acordo com o Gouveia, essa indefinição deve perdurar ao longo da semana, já que a agenda é carregada, reservando decisão de juros e dados de emprego nos Estados Unidos.
O economista também chamou atenção para um fator exógeno que pode ter contribuído para a instabilidade do período. O ano fiscal dos Estados Unidos se encerrou na sexta-feira e muitas instituições estariam ajustando posições e gestores de fundos alinhando carteiras para garantir suas remunerações.
Em Wall Street, o Dow Jones fechou o dia com baixa de 2,51%, aos 9.712 pontos, maior perda diária desde 20 de abril. O S & P 500 recuou 2,81%, para 1.036 pontos. Já o Nasdaq perdeu 2,50%, a 2.045 pontos.
Na semana, o Dow Jones perdeu 2,6%, o S & P devolveu 4% e o Nasdaq se contraiu 5,1%. Já no mês, o Dow fechou estável, enquanto o S & P e o Nasdaq perderam 2% e 3,6%.
A instabilidade também pautou o mercado de câmbio. Depois de cair a R$ 1,719 na mínima, as compras se acumularam conforme o humor externo azedava. Com isso, o dólar comercial fechou o dia com valorização de 1,50%, a R$ 1,755 na compra e R$ 1,757 na venda.
Na semana, o dólar subiu 2,57%, maior alta semanal em dois meses. Já no acumulado de outubro, a divisa perdeu 0,85%. No ano, a baixa é de 24,72%.
Na roda de " pronto " da Bolsa de Mercadorias e Futuros (BM & F), o dólar subiu 1,36%, para fechar a R$ 1,7537. O volume negociado subiu 12%, para US$ 294,5 milhões. No interbancário os negócios caíram 35%, para US$ 3,1 bilhões.
Para o diretor da Pioneer Corretora, João Medeiros, a formação da taxa de câmbio acompanhou o aumento da incerteza no mercado externo, onde alguns agentes alertam que os problemas da economia americana ainda devem perdurar mais tempo, mesmo com a saída da recessão no terceiro trimestre do ano.
Na avaliação do especialista, superado o momento de instabilidade, a moeda americana deve voltar à "normalidade", ou seja, perderá valor em relação ao real.
Nos juros futuros, um consistente de acúmulo de prêmio de risco no período da tarde determinou o rumo do pregão na BM & F.
Segundo o sócio-gestor da Leme Investimentos, Paulo Petrassi, o que explica parte desse acúmulo de prêmios em alguns vencimentos é a expectativa de produção industrial brasileira mais forte em setembro.
O dado abre a agenda de dados domésticos da semana e , de acordo com o especialista, as expectativas, que oscilavam entre alta de 1,2% a 1,5%, começaram a ser revisadas para casa dos 2%. " Pode ser que alguns investidores estejam se antecipando ao dado. "
Outro ponto que ajuda a dar inclinação à curva é a aversão ao risco em âmbito global, que acaba falando mais alto que a percepção de menor crescimento da economia americana nesse começo de trimestre.
Ao fim do pregão, o contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) com vencimento em janeiro de 2011, o mais líquido do dia, apontava alta de 0,08 ponto percentual, a 10,34%. Já o vencimento para janeiro de 2012 ganhou 0,08 ponto, a 11,59%. E janeiro de 2013 projetava 12,30%, alta de 0,04 ponto.
Entre os vencimentos curtos, janeiro de 2010 manteve-se em 8,65%. Julho de 2010, que divide as apostas quanto à possibilidade de alta na Selic no primeiro ou no segundo semestre, subiu 0,05 ponto, a 9,16%. Novembro de 2009 não foi negociado, mas dezembro cedeu 0,01 ponto, a 8,62%.
Até as 16h15, antes do ajuste final de posições, foram negociados 411.300 contratos, equivalentes a R$ 36,58 bilhões (US$ 20,98 bilhões), baixa de 16% sobre o registrado na sessão anterior. O vencimento para janeiro de 2011 foi o mais negociado, com 200.290 contratos, equivalentes a R$ 17,86 bilhões (US$ 10,24 bilhões).
(Eduardo Campos | Valor)