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Produtor quer planta da Austrália para combater fungo em banana brasileira

Rafael Motta

Do UOL, em Santos (SP)

Agricultores do Vale do Ribeira (SP), cuja principal cidade é Registro, pretendem aprovar o uso de uma planta importada da Austrália e manufaturada em Israel para usar como pesticida "natural" nas plantações de banana.

As safras da fruta estão estagnadas há duas décadas e as áreas de plantio, limitadas por motivos ambientais. A expectativa é de que o novo agrotóxico seja menos agressivo, permita mais plantações, baixe custos e dê competitividade.

Além de tudo, os agricultores temem a entrada no mercado de frutas vindas do Equador, que hoje estão proibidas de chegar ao país.

A Abavar (Associação dos Bananicultores do Vale do Ribeira) deve pedir ao Ministério da Agricultura que analise e aprove o uso de um produto de origem vegetal contra pragas nas plantações dessa região.

O trabalho é liderado pelo engenheiro agrônomo Agnaldo José de Oliveira, ex-presidente da Abavar. No Equador, maior produtor de bananas da América Latina, ele observou o uso do óleo de planta chamada de árvore-do-chá (Melaleuca alternifolia) contra doenças provocadas por fungos e que diminuem a produção das bananeiras.

A planta é um arbusto nativo da Austrália, ainda não cultivado em larga escala no Brasil, do qual se extraem essências medicinais para combate de vírus, bactérias e inflamações.

"O custo do produto dependerá da escala de produção. Não dá para calcular o quanto a produtividade pode aumentar, mas se deve levar em conta que muitos produtores [de menor porte] não controlam as pragas e têm perda total [por fungos]", diz Oliveira.

"Queremos aplicá-lo [o fungicida à base de Melaleuca] já na próxima safra [que começará em março]", diz o relações-públicas da Abavar, Sileno Fogaça.

Para agrônomo, número de aplicações do novo produto seria muito maior

O consultor técnico Roberto Tokihiro Kobori, engenheiro agrônomo que atua no Vale do Ribeira, conhece o produto e afirma ser eficaz. No entanto, segundo ele, só controla pragas por uma semana, enquanto que os agrotóxicos comuns o fazem por um mês ou mais.

Por isso, acha necessário avaliar na prática o quanto o uso do novo produto será ambientalmente sustentável.

Segundo ele, no Equador são feitas 50 aplicações desse defensivo por ano; no Brasil, os produtores aplicam os produtos químicos convencionais de nove a dez vezes por ano.

"O impacto químico [do produto com Melaleuca] é menor, mas, como precisa de mais aplicações, pode haver, por exemplo, mais poluição do campo e do ar com a queima de combustível [usado em aviões pulverizadores]", afirma Kobori.

Estudo com o produto já foi feito na região

O engenheiro agrônomo Wilson da Silva Moraes, pesquisador da Apta (Agência Paulista de Tecnologia dos Agronegócios), participou de um estudo sobre a aplicação do defensivo à base de árvore-do-chá, produzido por uma empresa israelense.

O estudo foi feito em um bananal em Pariquera-Açu, no Vale do Ribeira, entre 2011 e 2012.

Os testes foram direcionados ao combate do mal-do-panamá, doença causada por fungos, que faz as bananeiras diminuírem a produção de frutas.

A conclusão da pesquisa foi a de que a aplicação do produto na cultura duas vezes --no início dos testes e após 60 dias-- eliminou a doença.

"Temos a técnica para extração do óleo de Melaleuca, mas é bem artesanal. Teve gente que viu o estudo, 'cresceu os olhos' e começou a plantar [árvore-do-chá] por aqui, mas é coisa recente e incipiente", afirma Moraes.

Segundo o pesquisador, se houver autorização do governo sobre o uso do produto, ele poderia ser importado do fabricante em Israel.

Novas variedades são mais resistentes a pragas

O uso do produto à base da planta medicinal poderá ser acompanhado do plantio de novas variedades de banana-nanica e prata, que correspondem quase à totalidade da produção na região.

Mais resistentes a pragas, principalmente a sigatoka negra, também causada por fungos, demandariam menos gastos com defensivos, o que baixaria o custo do plantio e aumentaria a produtividade, afirma Luís Alberto Saes, diretor do Polo Regional de Desenvolvimento Sustentável dos Agronegócios do Vale do Ribeira, vinculado à Apta.

Elas foram apresentadas a agricultores da região pelo governo estadual em outubro. A nova  variedade de banana-nanica foi desenvolvida em Honduras; a prata, pela Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária).

De acordo com o diretor, parte dos produtores da região demonstrou resistência a adotar as novas variedades, temendo não haver aceitação por parte dos consumidores. 

"Mas o gosto delas [em relação às bananas já cultivadas] é bem semelhante", afirma Saes.

Como alternativa para obter maior rendimento com a cultura, agricultores locais estão começando a vender algo que antes tinha pouco ou nenhum valor comercial: o tronco da bananeira, cuja fibra pode ser transformada em materiais de escritório, embalagens e até papel de parede.

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