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Coluna

Reinaldo Polito


A comunicação dos técnicos da seleção

Reinaldo Polito

Autor de 31 livros que venderam mais de 1 milhão de exemplares, dá dicas de expressão verbal para turbinar sua carreira.

2012-11-27T06:00:00

27/11/2012 06h00

Entre os motivos apontados para que Dunga fosse afastado da seleção está a dificuldade que sempre teve para se relacionar com a imprensa. Toda vez que recebia uma pergunta com críticas subentendidas devolvia com a mesma dose de veneno.

Lógico que a desclassificação do escrete canarinho contribuiu muito para o seu desligamento. As decisões no mundo do futebol são quase sempre emocionais e intempestivas. Basta dizer que no dia anterior ao jogo contra a Holanda a aprovação de Dunga superava os 70%. Dunga caiu pelo resultado, mas também pela forma como se comunicava.

Em vista do temperamento meio explosivo e irônico de Dunga, Mano vestiu o manequim com perfeição. Jeitoso e paciente ao falar com a imprensa, sempre tinha resposta apropriada para cada tipo de pergunta. Competência que aprimorou quando dirigiu o time do Corinthians.

No seu caso não foi a comunicação que provocou sua saída. Nem mesmo os últimos resultados. Pelo contrário, saiu no momento em que havia encontrado um padrão elogiável para a seleção. Ganhou de goleada de equipes mais frágeis e enfrentou com superioridade as mais fortes.

Mesmo perdendo o último jogo para a Argentina lá na casa de los Hermanos faturou o caneco. Voltou para o Brasil satisfeito e com a certeza de que poderia traçar com mais calma seu futuro como técnico. Aí a surpresa, provavelmente, por questões políticas – foi demitido.

Vários técnicos estão cotados para assumir o cargo deixado por Mano. Todos têm qualidades, mas também alguns senões que precisam ser considerados. Imagino que entre todos os pontos avaliados pela CBF um deles será a capacidade de comunicação daquele a ser escolhido. Afinal, a copa do mundo será aqui no Brasil, e o técnico não terá muito como se esconder da imprensa.

Felipão é um deles. Parece ser o mais provável, pois embora tenha ajudado a rebaixar o Palmeiras para segundona, tem no currículo um importante pentacampeonato. Muricy Ramalho é outro. Venceu muitos campeonatos, mas permitiu que o Santos levasse um baile do Barcelona no ano passado.

Não dá desprezar o Luxemburgo. Já venceu muito, mas faz bastante tempo que não ganha nada. Abel Braga está por cima. Acabou de ganhar o Brasileirão, mas não me lembro de ter ouvido seu nome ser cogitado antes da queda do Mano.

Tite está nas mãos, ou melhor, nos pés dos jogadores do Corinthians. Se vencer no Japão será uma comoção nacional, quase tão importante quanto a conquista de um selecionado. Se perder, dependendo de como for estará rifado.  E o eterno Parreira, sempre lembrado na CBF.

Bem, para ser objetivo. Felipão é briguento. Só fica simpático quando precisa demonstrar essa qualidade, como ocorre no momento. Muricy é outro esquentado. Melhorou muito, mas, de vez em quando, tem recaída e derruba as caixas da prateleira. Os resultados atuais não ajudam muito.

Luxemburgo e Abel Braga não são lá de segurar a língua. Se pisarem no calo deles, o troco vem rapidinho. Estão amparados em resultados recentes. Embora Luxemburgo não levante títulos nos últimos anos, a campanha do Grêmio foi admirável. Talvez seja o vice. Abel foi campeão e eleito como o melhor técnico do campeonato. Os resultados atuais ajudam.

Tite e Parreira são os melhores no quesito comunicação. Falam com facilidade e muita adequação. Desenvolveram um jeito diplomático de se expressar e dificilmente são vistos em situações de constrangimento. Conseguem pensar duas frases a frente, antes de pronunciar a primeira sílaba. São os melhores nas entrevistas.

Logo saberemos. Aí será possível verificar se além dos resultados, da política e do currículo a comunicação dos técnicos também foi levada em conta para que assumissem a seleção brasileira. É sempre um aprendizado. É só esperar um pouquinho. Que vença o melhor. Isso é, que seja escolhido aquele que nos permita vencer a copa do mundo no Brasil.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL