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Alan Marques/Folhapress

Processo de impeachment

Discursos de Dilma não combinam fala e emoção; evite esse erro no trabalho

Reinaldo Polito

Reinaldo Polito

Dilma tentou por todos os meios envolver os deputados para que não se voltassem contra ela. Afinal, não precisava de muitos votos para se livrar do que resolveu chamar de "golpe". Fez discursos em palácio, distribuiu cargos, convocou Lula para ajudar no processo de persuasão de "Suas Excelências", e nada funcionou. Faltou envolvimento político.

Vamos analisar o que está por trás dessa história.

Em sua obra "Análise do caráter", Wilhelm Reich diz: A linguagem atua – "interfere na linguagem da face e do corpo". Por isso, a "expressão total de um organismo" deve ser "literalmente idêntica à impressão total que o organismo provoca em nós". Afirma ainda que "muitas vezes, a palavra falada esconde a linguagem expressiva do núcleo biológico".

O psicanalista destaca também que "compreendemos os movimentos expressivos e a expressão emocional de outro organismo vivo com base na identidade entre nossas próprias emoções e as de todos os seres vivos". A coerência entre todos os aspectos da expressão emocional – palavras, gestos, entonação da voz, olhar, silêncio, enfim de todo o conjunto, precisa existir para que o significado da mensagem seja único.

Esse conceito Reichiano nos ajuda a compreender por que Dilma está arrumando as gavetas para uma saída temporária, que talvez seja até definitiva. Ouvimos ad nauseam que o processo de impeachment é jurídico e político. Ou seja, mesmo que um presidente cometa um pecadilho aqui, outro acolá, se tiver apoio político, jamais perderá seu posto. Os deputados não teriam vociferado todos aqueles "sim".

Dilma nunca se envolveu de fato com os políticos

Assim como Collor, que foi defenestrado da Presidência, Dilma nunca se evolveu de fato com os políticos. Nunca teve o cuidado de acertar arestas. Nunca os convidou para que participassem de reuniões informais. Nunca se preocupou em saber como cada um perambulava por suas bases. Não praticou a política da boa vizinhança. Desde o princípio, instalou-se em suas trincheiras para, soberana, comandar o país. Deu no que deu.

Por mais que esbraveje, Dilma não possui uma trajetória comportamental que dê respaldo ao seu discurso. As palavras não bastam por si. Se dissesse a um deputado nas desesperadas reuniões de última hora: "olá, meu querido", algo naquela comunicação poderia transpirar falsidade. Esse político saberia que não era bem recebido. Era só interesse. Faltaria às palavras de Dilma, segundo Reich, a "expressão total do organismo".

Durante muitos anos fizemos em nosso curso de Expressão Verbal concursos de oratória. Os próprios alunos elegiam os vencedores. Como esse pleito era realizado no final do curso, a maioria estava mais que bem preparada para avaliar tecnicamente o desempenho dos candidatos. Em várias ocasiões houve surpresas. Os melhores oradores nem sempre venceram.

Alguns ficavam indignados e me procuravam no final da aula para pedir explicações. Por que, se eram tão bons oradores, não venceram o concurso? Talvez esses se constituíssem os melhores momentos de aprendizado. Quase sempre a explicação era simples. Passaram o curso todo apenas preocupados com o desenvolvimento da própria comunicação.

Durante as aulas se sentavam no fundo da sala, ou na primeira fileira. E ali permaneciam até o final sem trocar uma única palavra com os colegas. Não participavam das brincadeiras. Não se mostravam solidários. Aprendiam, desenvolviam suas habilidades de comunicação, mas não se integravam ao grupo. Conseguiam bom desempenho, mas não os votos dos colegas. 

A emoção esteve ausente nos seus discursos

Mesmo nos momentos de maior arrebatamento, Dilma demonstrava no olhar e nos gestos certo alheamento. Não comungava com as plateias. Não se entregava emocionalmente. O público percebia. As palavras não foram suficientes para que pudesse se manter no cargo. A emoção, que percebemos e sentimos, mas que não pode ser descrita com palavras, esteve ausente nos seus discursos.

A oratória é sempre acompanhada de outros elementos que atuam para robustecer ou, em certas circunstâncias, refutar a mensagem do discurso verbal. Quando Dilma fala com os políticos, não são apenas suas palavras que atuam na composição do discurso. Vários outros ingredientes que formaram sua trajetória entram em ação.

Também Humberto Maturana no livro "A ontologia da realidade" trata desse tema com admirável propriedade: "Aquilo que distinguimos como emoções, ou que conotamos com a palavra emoções, são disposições corporais que especificam a cada instante o domínio de ações em que se encontra um animal (humano ou não) e que o emocionar, como o fluir de uma emoção a outra, é o fluir de um domínio de ações a outro".

Não nos é difícil concluir que Dilma, com seu comportamento, ou até pela ausência de suas ações, não tocou a emoção daqueles que tiveram a responsabilidade de dizer sim ou não para a abertura do processo de impeachment. Ao que tudo indica, o mesmo irá ocorrer também com os senadores. Lula, Fernando Henrique, Sarney, ou Itamar Franco jamais cometeriam essa negligência com a comunicação. Faltou a ela "vontade política".

Alguns poderiam dizer: e eu com isso? Tudo a ver. Se avaliarem que, na vida corporativa ou nos contatos com amigos e familiares, têm se comportado só na base do "olá" e "até logo", cuidado. Esse individualismo, que fez ótimos oradores perderem concursos de oratória e está para fazer uma presidente ser apeada do poder, talvez os leve a amargar um ostracismo indesejável.

Superdicas da semana

  • O bom relacionamento pode valer mais que bons discursos
  • Procure se interessar pelas pessoas e interagir com elas. Assim as conquistará
  • Por melhor que você seja, sempre precisará do apoio de alguém. Cultive bons contatos
  • Pode valer mais uma boa conversa que um discurso inflamado

Livros de minha autoria que ajudam a refletir sobre esse tema: "29 Minutos para Falar Bem em Público", publicado pela Editora Sextante, e "Conquistar e Influenciar para se Dar Bem com as Pessoas", "As Melhores Decisões não Seguem a Maioria" e "Como Falar Corretamente e sem Inibições", publicados pela Editora Saraiva.

Para outras dicas de comunicação, entre no meu site (link encurtado: http://zip.net/bcrS07)

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Reinaldo Polito

Autor de 25 livros que venderam mais de 1 milhão de exemplares, dá dicas de expressão verbal para turbinar sua carreira.

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