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Temer contraria Maquiavel, e seus ministros falantes dão bom dia a cavalo

Reinaldo Polito

Reinaldo Polito

Tsunami no Planalto. Nem bem Michel Temer assumiu como presidente interino e já está levando bordoada de todos os lados. Primeiro por ter sido obrigado a desmentir alguns de seus ministros. Depois, por ser obrigado a acatar o afastamento de Romero Jucá, um dos homens mais importantes do seu governo.

Temer é inteligente e muito bem preparado. Deve ter lido "O Príncipe", de Maquiavel de cabo a rabo. Se é que não o tem como livro de cabeceira. Ao anunciar o rombo de mais de 170 bilhões nas contas públicas, mostrou a desgraça toda de uma vez. E esse é um dos preceitos defendidos pelo pensador florentino:

As injúrias devem ser feitas todas de uma vez, a fim de que, saboreando-as menos, ofendam menos. E os benefícios devem ser feitos pouco a pouco, a fim de que sejam mais bem saboreados.

Maquiavel

Escolha dos ministros

Maquiavel, entretanto, não para por aí. Só de dar uma olhada nos homens (literalmente) que cercam o presidente, os cabelos ficam em pé.

Para não ir muito longe, pelo menos seis de seus ministros estão envolvidos com algum tipo de investigação, inclusive na Lava Jato. Seu líder na Câmara, André Moura é acusado em vários inquéritos. E o que ensina "O Príncipe" a esse respeito?

A primeira conjectura que se faz, a respeito das qualidades de inteligência de um príncipe é a escolha de seus ministros.

Maquiavel

"Não é de pequena importância para um príncipe a escolha dos seus ministros. E a primeira conjectura que se faz, a respeito das qualidades de inteligência de um príncipe...Quando estes são competentes e fiéis, pode-se reputá-lo sábio, porque soube reconhecer as qualidades daqueles e mantê-los fiéis...Mas quando não são assim, pode-se ajuizar sempre mal do senhor, porque o primeiro erro que cometeu está na escolha".

Se Jucá demorasse mais um tiquinho para apear do ministério, o ajuizamento a respeito de Temer não passaria pelo crivo de Maquiavel. O presidente interino precisa desse pessoal todo para tocar seus projetos e aprovar as reformas.

Mantendo em seu governo essa turma contaminada pelas investigações, mesmo que se defendam, Temer estará sempre com a pulga atrás da orelha.

Por outro lado, mantendo em seu governo essa turma contaminada pelas investigações, mesmo que se defendam, Temer estará sempre com a pulga atrás da orelha. Afinal, à mulher de Cesar não basta ser honesta, deve parecer honesta.

É uma cartada arriscada. A sociedade está de olho, prontinha para empunhar bandeiras e exigir decência. Um deslize e tudo desmorona. Como disse o ministro José Serra: "Os desafios são imensos, mas não temos a opção de dar certo ou fracassar. Tem de dar certo, pelo país".

Declarações e desmentidos

Outro desassossego de Temer são os desmentidos. Quando meu avô notava que alguém falava além da conta, dizia com ar solene: "Quem fala demais acaba dando bom dia a cavalo".

Quem fala demais acaba dando bom dia a cavalo.

Nos primeiros dias do governo Temer alguns de seus ministros falaram demais e se encaixaram na sábia filosofia adotada por meu avô. Falaram o que não deveriam ter falado. Abriram a boca antes do tempo.

Alguns primeiro pensam, depois falam e, em seguida, agem. Outros, ao contrário, primeiro falam, depois agem e, por fim, pensam.

 Leon Tolstói

Para não ficar apenas com esse pensamento caseiro, que não era da lavra do meu avô, mas fora adotado por ele, recorro agora a um dos mais brilhantes escritores de todos os tempos, Leon Tolstói: "Os homens distinguem-se entre si também neste caso: alguns primeiro pensam, depois falam e, em seguida, agem. Outros, ao contrário, primeiro falam, depois agem e, por fim, pensam".

Vamos aos fatos. Um deles foi protagonizado pelo ministro da Justiça, Alexandre de Moraes. Disse: "O presidente da República tem essa liberdade constitucional (fazer a indicação do procurador geral da república, ainda que não tenha sido eleito pela categoria). O poder de um Ministério Público é muito grande, mas nenhum poder pode ser absoluto".

A palavra do ministro caiu como uma bomba e provocou repercussões negativas. Por esse motivo não tardou que Temer enviasse uma nota à imprensa desautorizando a fala do ministro: "Quem escolhe o procurador-geral da República, a partir de lista tríplice do Ministério Público Federal, é o presidente da República. O presidente manterá a tradição de escolha de primeiro de lista tríplice para PGR".

Outro que entrou na estrebaria para cumprimentar a tropa foi o ministro da Saúde, Ricardo Barros. Disse Sua Excelência: "Vamos ter que repactuar, como aconteceu na Grécia, que cortou as aposentadorias, e em outros países que tiveram que repactuar as obrigações do Estado porque ele não tinha mais capacidade de sustentá-las".

Outro terremoto que provocou enorme alvoroço no mercado. Foi questão de horas para que o ministro puxasse o freio de mão: "Eu não tenho nenhuma pretensão de redimensionar o SUS. O que precisamos é capacidade de financiamento para atender suas demandas. Agora, só conseguiremos isso --espaço fiscal para a saúde-- se nós conseguirmos repactuar os gastos que estão sendo excessivos na Previdência".

Está certo que o novo governo precisa dar explicações à população do que pretende fazer, pois quanto mais claro e transparente se mostrar mais credibilidade e confiança terá. Por outro lado, notícias como essas, que mexem de forma visceral com a sociedade, precisariam ser mais debatidas dentro do próprio governo antes de serem anunciadas.

Há quem diga que tudo isso não passa de uma estratégia do governo –-o que não acredito. Dizem que são apenas balões de ensaio para testar a reação das pessoas diante de temas tão polêmicos.

Embora Temer tenha outros vazamentos no currículo, não creio que essas declarações tenham sido de caso pensado. Seria muito arriscado para um governo que ainda nem esquentou a cadeira.

Debate e reflexão

Falando em esquentar cadeira, essa foi a crítica que Temer recebeu em abril quando deixou vazar o áudio com pronunciamento dando como certa a vitória do impeachment. Disseram que foi precipitado, e que estava repetindo o equívoco de Fernando Henrique Cardoso ao se sentar para fotografia na cadeira do prefeito de São Paulo, numa eleição que seria vencida por Jânio Quadros, em 1985.

Não é diferente na vida corporativa. Colaboradores não podem ter manchas em sua conduta. Se tiverem comportamento reprovável, poderão comprometer também a imagem da organização. Fechar um olho para esses deslizes é como se a empresa também os tivesse cometido, pois, como no caso do presidente, errou na escolha.

Nas empresas, as notícias importantes precisam ser exaustivamente debatidas antes que sejam comunicadas.

Ocorre o mesmo com os desmentidos. Nas empresas, as notícias importantes precisam ser exaustivamente debatidas antes que sejam comunicadas. Dá para imaginar o estrago que seria causado na motivação dos colaboradores se um diretor anunciasse ações que mexessem com a segurança profissional dos empregados, e depois tivesse de desmentir.

Será raro encontrar um assunto que não possa esperar um criterioso debate e uma boa reflexão antes de ser anunciado. Esse raciocínio vale para a política, para a vida corporativa, para o convívio familiar e para o relacionamento social.

Aqui, entra mais uma do meu avô: prudência, caldo de galinha, água benta e boca fechada não fazem mal a ninguém. Agindo assim, podemos evitar sair por aí dando bom dia a cavalo.

Superdicas da semana

  • Pense bem antes de comunicar uma decisão;
  • Se a decisão for muito importante, pense mais de uma vez;
  • Se fizer parte de uma equipe, discuta bem antes sobre os temas que serão anunciados;
  • Se usar vazamentos para testar a reação das pessoas, avalie muito bem os riscos dessa estratégia;
  • As pessoas de sua relação social e profissional dizem muito quem você é.

Livros de minha autoria que ajudam a refletir sobre esse tema: "29 Minutos para Falar Bem em Público", publicado pela Editora Sextante, e "Assim é que se fala", "Conquistar e Influenciar para se Dar Bem com as Pessoas", "As Melhores Decisões não Seguem a Maioria" e "Como Falar Corretamente e sem Inibições", publicados pela Editora Saraiva.

Para outras dicas de comunicação, entre no meu site (link encurtado: http://zip.net/bcrS07)

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Reinaldo Polito

Autor de 25 livros que venderam mais de 1 milhão de exemplares, dá dicas de expressão verbal para turbinar sua carreira.

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