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Caça aos alienígenas é lição para vida corporativa

Reinaldo Polito

Reinaldo Polito

  • Thinkstock

Quantas vezes na vida corporativa fechamos as portas para um projeto que julgamos fora de propósito? Pelo simples fato de não corresponder a nossa forma de pensar, concluímos que a ideia apresentada é absurda. Em alguns casos constatamos depois, quando alguém resolve bancar a empreitada, que a iniciativa tinha razão de ser.

Hoje tive de me beliscar quando li uma notícia que talvez coloque por terra uma de minhas convicções – a não existência de extraterrestres. Em matéria da Reuters de Pequim publicada pelo UOL, fiquei sabendo de um fato impressionante: "A China busca vida alienígena com telescópio gigante". A história parecia ser séria.

A China acaba de concluir a construção do maior radiotelescópio do mundo. Investiram cerca de US$ 180 milhões no equipamento que tem uma abertura esférica de 500 metros. O projeto buscará explicações para a origem do universo, e...pasme – tentar encontrar extraterrestres. Li duas vezes para me certificar de que havia mesmo entendido.

Cético como sou com relação a essa história de extraterrestres, fiquei intrigado. Esse pessoal não iria gastar tanto dinheiro para ficar brincando de esconde-esconde. Acham mesmo que existe vida fora da Terra. Só me faltava agora ter de acreditar em ETs. Não que nunca tenha pensado no assunto. Até já brinquei com essa história.

De vez em quando escrevo textos para não serem publicados. São brincadeiras que faço comigo mesmo, só para me divertir. Um deles fala exatamente sobre esse assunto, a existência ou não de seres extraterrestres. Diante de uma notícia tão excepcional, resolvi desengavetá-lo e compartilhar com você. Espero que assim como eu, também possa curtir.  O título do texto é "Último desejo". Vamos a ele:

Último desejo

Roberval era um cético. Quando alguém aparecia com essa conversa de alienígenas, ETs, ovnis, marcianos, discos voadores e outros que tais, fazia cara de conteúdo, sério, compenetrado, mas ria por dentro, inconformado com tanta asnice.

Borges era seu melhor amigo. Mais ou menos da mesma idade que a sua, mesmos gostos, mesmos hobbies, mas divergiam visceralmente sobre a existência de extraterrestres e objetos voadores. Enquanto um era fissurado no assunto, acompanhando todas as notícias divulgadas na internet pelos aficionados, o outro olhava o circo de longe, sem interesse nem envolvimento.

No começo Roberval se divertia com as histórias contadas pelo amigo. Com o passar do tempo, entretanto, começou a se entediar por achar que tudo era chatice demais. Nunca fez gozação, respeitando a crença idiota do amigo, mas só ouvia sem nunca fazer nenhum comentário.

Borges era tão alucinado pela matéria que imaginava ser o silêncio do amigo sinal de interesse. Por isso se transformava em arauto das novidades das aparições dos habitantes dos outros planetas, tendo como vítima preferida seu melhor ouvinte, aquele que estava sempre disposto a prestar atenção em suas narrativas.

Certa vez Roberval recebeu um convite de Borges. Na verdade, não foi assim um convite, mas uma intimação:

- Roberval, finalmente você vai matar a curiosidade, vamos nos encontrar com alguns marcianos. Está tudo acertado para recepcioná-los. Fizemos contatos com três naves que chegarão à terra amanhã à noite. Rapaz, estou tão nervoso que nem consigo falar.

- Você falou com eles? Perguntou Roberval com uma ponta de ironia na voz.

- Que nada. – Respondeu Borges – sou muito insignificante para contatos desse nível. O chefe do nosso grupo, Lourival, foi o escolhido. Ele é um cara iluminado, sabe tudo sobre os extraterrestres. Sempre que alguém do outro lado das estrelas deseja falar conosco escolhe logo o Lourival. Ele entende a linguagem desse povo como ninguém. Dizem que consegue se entender melhor com eles do que com a gente.

- É mesmo! – Exclamou Roberval, com dose mais acentuada de ironia – e onde foi que ele aprendeu a falar a língua deles?

- Ah, já repeti essa história muitas vezes. Você não prestou atenção, Roberval? Ele viveu boa parte da vida visitando planetas nas mais diferentes galáxias.

- Sei – foi a única palavra que Roberval conseguiu proferir.

- Passo aqui amanhã à noite, lá pelas sete e meia. Vai ser um barato Roberval. Não vejo a hora.

Antes das sete Roberval já estava pronto. Capote para proteger mais sua imagem do que propriamente se abrigar do frio. Se alguém do escritório soubesse que ele estava na caravana que passaria a noite na beira da estrada de Varginha, nunca mais teria sossego na vida. E ninguém acreditaria em suas explicações.

Chegaram ao local combinado. Eram 45 pessoas, de todas as idades e condição social. Quarenta e seis com ele. A cada barulhinho de carro passando longe pelo asfalto era um alvoroço: - escuta, escuta, tá vindo alguma coisa, acho que são eles. E de alarme falso em alarme falso o tempo foi passando.

Quatro da matina e nada. Ainda bem que levara aquele capote para disfarçar, pois o frio estava congelando os ossos. Atirou no coelho e acertou num viadaço. Quase levou porrada quando ousou sugerir que acendessem uma fogueira para se aquecer. Foi advertido com veemência. Explicaram que ETs não gostavam de fogo, poderiam cancelar o pouso da nave e nunca mais voltar.

Por volta das cinco, com a noite já não tão escura, um barulho mais forte bem longe foi ouvido. Para Roberval era um caminhão. Nem olhou para ver. Estranhou, todavia, o silêncio da turma. Nas outras vezes todo mundo pedia silêncio, mas o burburinho era intenso. Dessa vez não, tudo quieto, só se ouvia a respiração ofegante, como se todos fossem asmáticos.
Ao olhar para cima Roberval ficou petrificado, uma nave enorme, reluzente, soltando fumaça branca pelas extremidades, girava para pousar em uma clareira feita pelo grupo mais próximo do Lourival.

Assim que a nave pousou, uma escada deslizou suavemente até tocar o chão. A porta se abriu e um ser esquisito, com luzes vermelhas nos olhos, desceu. Lourival se aproximou do visitante e o cumprimentou com alguns grunhidos, como se fossem velhos amigos.

Depois de algum tempo conversando, o ET cochichou algo no ouvido do Lourival. Roberval não entendeu porque estavam falando baixo, se berrassem daria no mesmo, já que ninguém entenderia nada. Após trocarem o que pareceu ser confidências Lourival se virou para o grupo e apontou na direção de Roberval.

Para quem não acreditava em nada aquela história era coisa de maluco. Roberval se beliscou várias vezes para se certificar de que não estava tendo um pesadelo. Chegou a gritar depois do segundo beliscão – era tudo verdade.

Lourival acompanhou o recém-chegado até Roberval e lhe disse que iria traduzir as palavras. Roberval abriu a boca espantado e não disse absolutamente nada. O ET falou, falou, falou, sempre com ar sério e compenetrado. Talvez tivesse a mesma fisionomia quando gargalhasse. Se é que riam. Lourival sorria, achava tudo muito engraçado. Depois de um discurso que levou mais de dois minutos, as palavras foram traduzidas:

- Roberval, nosso amigo me disse que estão observando você há um bom tempo, mais de três anos. Julgam que sua conduta reflete perfeitamente o perfil que gostariam de seguir no planeta deles. Todas as suas atitudes foram registradas e catalogadas para serem ensinadas nas escolas. Querem que as crianças adquiram hábitos semelhantes aos seus. Vieram hoje até a Terra para conhecê-lo pessoalmente, você é o ídolo deles.

Roberval estava atônito. Ainda não conseguira pronunciar uma palavra sequer. Não entendeu como não desmaiou. Não estava com medo, mas sim muito chocado.

Mais uma vez o ET cochichou algumas palavras no ouvido de Lourival e se retirou lentamente para a escada que o levou para dentro da nave. Quando o aparelho desapareceu, já com os primeiros raios de sol surgindo por trás da montanha, Lourival pôs a mão sobre o ombro de Roberval e traduziu as últimas palavras do visitante:

- Roberval, Eráklito, esse era o nome do ET, disse ao se retirar que esta era a última viagem que faria à Terra. Seu tempo de vida estava esgotado e olhar de perto em seus olhos era seu último desejo. Confidenciou a mim que depois dessa experiência de ter vindo até aqui e encontrado com você considerava sua missão cumprida.

Roberval olhou para os lados e percebeu que agora se tornara o novo ídolo daqueles ufologistas. Também se sentia um deles. Ao seu lado, com lágrimas nos olhos, estava seu querido companheiro Borges. Roberval notou que os olhos do amigo estavam úmidos, mas viu também que havia um sorriso maroto no seu semblante, como se Borges quisesse dizer: eu sabia que tudo isso iria acontecer. Ver esse encontro sempre foi o maior de todos os meus sonhos.

Bem, quem sabe os chineses não conseguem encontrar Eráklito ou algum parente dele com esse novo telescópio gigantesco. Se acontecer, bastará recorrer a Lourival para traduzir suas mensagens.

Ah, e da próxima vez que apresentarem um projeto estranho na sua empresa, dê um voto de confiança. Assim não precisará pedir desculpas depois.

Superdicas da semana

  • Nem toda ideia estranha é necessariamente incorreta
  • Antes de criticar uma iniciativa, avalie tudo sem preconceitos
  • Quase todos os gênios da humanidade tiveram suas iniciativas criticadas
  • As novas ideias, por serem inéditas, podem parecer absurdas. Muitas são excelentes


Livros de minha autoria que ajudam a refletir sobre esse tema: "29 Minutos para Falar Bem em Público", publicado pela Editora Sextante, e "Assim é que se Fala", "Conquistar e Influenciar para se Dar Bem com as Pessoas", "As Melhores Decisões não Seguem a Maioria" e "Como Falar Corretamente e sem Inibições", publicados pela Editora Saraiva.

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Reinaldo Polito

Autor de 25 livros que venderam mais de 1 milhão de exemplares, dá dicas de expressão verbal para turbinar sua carreira.

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