Governo bate cabeça ao se comunicar e mostra que precisa de um porta-voz

Reinaldo Polito

Reinaldo Polito

  • Pedro Ladeira/Folhapress

    Presidente Michel Temer conversa com ministro da Justiça, Alexandre de Moraes

    Presidente Michel Temer conversa com ministro da Justiça, Alexandre de Moraes

Michel Temer está consciente de que precisa, com urgência, de um porta-voz. Nada diferente do que já fazem muitas empresas para se comunicar de forma eficiente com o mercado e com a imprensa. Especialmente nos momentos em que precisam fazer a gestão de crise, são os porta-vozes que entram em cena.

Desde a época em que Temer se tornou presidente interino, seus ministros e assessores vivem batendo cabeça, comunicando informações incorretas ou equivocadas. Governo que interpreta de maneira distorcida suas próprias ações no momento de se comunicar com a sociedade não precisa de adversário –ele faz sua própria oposição.

Vamos relembrar algumas dessas lambanças.

Uma delas foi protagonizada pelo ministro da Justiça, Alexandre de Moraes. Disse o ministro: "O presidente da República tem essa liberdade constitucional [fazer a indicação do procurador-geral da República, ainda que não tenha sido eleito pela categoria]. O poder de um Ministério Público é muito grande, mas nenhum poder pode ser absoluto."

Temer teve de fazer uma nota desautorizando o ministro: "Quem escolhe o procurador-geral da República, a partir de lista tríplice do Ministério Público Federal, é o presidente da República. O presidente manterá a tradição de escolha de primeiro de lista tríplice para a PGR." Nada pior para alguém que nem havia esquentado a cadeira interina.

Outro que errou o alvo foi o ministro da Saúde, Ricardo Barros: "Vamos ter de repactuar, como aconteceu na Grécia, que cortou as aposentadorias, e em outros países que tiveram que repactuar as obrigações do Estado porque ele não tinha mais capacidade de sustentá-las."

Para esse hematoma, o próprio ministro teve de providenciar a compressa: "Eu não tenho nenhuma pretensão de redimensionar o SUS. O que precisamos é capacidade de financiamento para atender suas demandas. Agora, só conseguiremos isso --espaço fiscal para a saúde-- se nós conseguirmos repactuar os gastos que estão sendo excessivos na Previdência."

Agora, foi a vez do ministro do Trabalho, Ronaldo Nogueira. Arrumou enorme confusão ao dizer que a reforma trabalhista permitiria para algumas profissões jornadas de trabalho de 12 horas por dia, desde que respeitassem as 48 horas semanais em vigor, incluindo nesse cálculo as horas extras.

Ocorre que esse assunto ainda está sendo debatido dentro do governo, e não poderia ser comunicado ao público, especialmente da maneira como foi abordado. O governo só quer discutir o tema fora de suas fronteiras depois de debater internamente todos os ângulos da reforma da Previdência. Já ouvi o próprio presidente tentando explicar essa patuscada em uma emissora de rádio.

Essa história de fala e desmente é um veneno para o governo. O presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), foi um dos que criticou a comunicação dos ministros de Temer: "O zigue-zague é péssimo. Cria um ambiente de insegurança desnecessário. O sinal é que o governo não está dialogando internamente. Ministro só deve vir a público quando estiver 100% afinado com o presidente"

Por essas e outras, Temer está procurando um nome para atuar como porta-voz do governo. Pensaram em efetivar um diplomata, com traquejo na arte de se comunicar com o público e com a imprensa. Cogitaram também convidar uma mulher para exercer a função. Até que poderia ser uma boa opção, já que a falta de mulheres nos cargos importantes do governo tem sido criticada.

Temer é jeitoso, experiente e não vai complicar o trabalho do seu porta-voz. Só precisarão alinhar as informações para que todos rezem a cartilha no mesmo tom. Por mais que um porta-voz seja competente para se comunicar com o povo e com a imprensa, todos os ministros precisam estar capacitados para falar.

Haverá situações em que o próprio ministro deverá se manifestar. Se não souber o que dizer e como se expressar, será um desastre. É tudo questão de treino e bastante conversa. Se os assuntos relevantes de cada pasta forem exaustivamente discutidos, não haverá risco de equívoco e distorção nas informações.

Alguns porta-vozes comeram o pão que o diabo amassou tendo de explicar as deslizadas do presidente da República. Talvez as maiores saias justas tenham ficado para Carlos Átila, porta-voz do presidente João Figueiredo. Como explicar as pérolas do presidente que dizia: "Prefiro cheiro de cavalo, do que cheiro de povo". Ou: "Daria um tiro na cabeça", como resposta à pergunta que lhe fizeram sobre o que faria se recebesse um salário mínimo.

Empresas responsáveis com a imagem pública não dispensam os serviços de um porta-voz. São profissionais bem preparados para falar em público e com amplo domínio de todas as atividades da organização. Estão sempre prontos, a qualquer momento, para falar em nome da empresa. Em momento de crise ou nas épocas de voo de cruzeiro, sempre procuram interpretar de maneira adequada o que a empresa precisa e deve comunicar.

Uma decisão tão simples, de baixo custo, a exemplo do que já fazem muitas empresas, e Temer poderia eliminar de uma vez por todas esses desencontros de informações que têm prejudicado tanto a imagem do seu governo.

Superdicas da semana

  • Procure se preparar muito bem sobre os assuntos relacionados à sua área
  • Se tiver de falar fora da empresa, discuta antes o que você pode ou não dizer
  • Nunca fale em nome da empresa sem autorização
  • Se tiver de atuar como porta-voz da empresa, tenha domínio de todos os temas que poderá tratar.

Livros de minha autoria que ajudam a refletir sobre esse tema: "29 Minutos para Falar Bem em Público", publicado pela Editora Sextante, e "Assim é que se Fala", "Conquistar e Influenciar para se Dar Bem com as Pessoas", "As Melhores Decisões não Seguem a Maioria" e "Como Falar Corretamente e sem Inibições", publicados pela Editora Saraiva.

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Reinaldo Polito

Autor de 25 livros que venderam mais de 1 milhão de exemplares, dá dicas de expressão verbal para turbinar sua carreira.

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