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Suar durante debate leva o candidato à vitória ou à derrota nas eleições?

Reinaldo Polito

Reinaldo Polito

  • Lucas Lima/UOL

Na sexta-feira (23), atuei pelo UOL como comentarista do debate entre os candidatos à prefeitura de São Paulo. O evento foi promovido pelo SBT, Folha e UOL. Os contendores foram João Doria, Marta, Major Olímpio, Erundina, Haddad e Russomanno. Nos três blocos do debate, responderam às perguntas de jornalistas e deles próprios.

Salvo uma ou outra cutucada, sem tanta agressividade, o debate foi morno. Os candidatos deram a impressão de que não queriam se expor muito, especialmente os que estão liderando as pesquisas eleitorais, caso de João Doria, Marta e Russomanno. Marta até que foi mais veemente. Coube à Erundina os ataques mais contundentes. Uma forma de chamar a atenção, e quem sabe ganhar alguns pontos nas intenções de votos.

Já no debate promovido pela Record, neste domingo (25), a temperatura esquentou um pouco. Especialmente aqueles que estão na parte de baixo das intenções de votos, caso de Erundina, Haddad e Major Olímpio; e o que está caindo, Celso Russomanno, partiram para o ataque contra Doria e Marta, que estão subindo na reta de chegada.

A pergunta que se faz é essa: debate ajuda a vencer eleições? Sim e não. Se a diferença no desempenho dos candidatos for gritante, lógico que quem se sai melhor pode conquistar boa parcela do eleitorado. Quando o desempenho é semelhante, com pequena diferença entre um e outro, provavelmente não irá interferir tanto na opinião do eleitorado.

Essa dúvida é levantada com ênfase desde o primeiro debate entre os candidatos norte-americanos John Kennedy e Richard Nixon --que neste dia 26 de setembro completa 56 anos. Alguns especialistas afirmam que mesmo o debate tendo a audiência de quase a totalidade da população americana, essa disputa não influenciou os votos dos eleitores.

Há outros, entretanto, que afirmam ter sido decisivo para a vitória de Kennedy. A verdade é que depois de abertas as urnas fica fácil analisar o que provocou a derrota e a vitória dos candidatos. Buscam detalhes que poderiam ter contribuído para a vitória de Kennedy e para a derrota de Nixon. Vamos relembrar algumas dessas diferenças.

Como Kennedy venceu, a avaliação é a de que seu comportamento foi correto o tempo todo durante o debate. Falou com gestos moderados, que acompanharam perfeitamente o ritmo e a cadência da fala. Apresentou movimentos sutis da cabeça e olhar atento a tudo o que ocorria a sua volta, demonstrando assim controle e bastante tranquilidade.

Nixon, por sua vez, olhava para várias direções, sem foco nem objetividade. Enquanto estava sentado, as mãos apertavam as pernas, numa demonstração clara de que se sentia inseguro. Quando ficou em pé atrás do pódio, não gesticulou, permaneceu com os ombros tensos e suou muito. Todos esses sinais demonstraram que estava pouco à vontade e sem controle da situação.

Já no debate decisivo entre Collor e Lula, em 1989, Boni, que era o homem forte da Globo, conta que desajeitaram a gravata do Collor e colocaram um pouco de glicerina no seu rosto para parecer que ele estava suando e dessa forma ficar mais próximo do povo. Segundo Boni, agiram assim porque Collor era muito "autoridade" e Lula identificado com o povo.

Pois é, dizem que uma das explicações para a derrota do Nixon é que suou durante o debate, e que um dos motivos para a vitória do Collor foi o suor, criado artificialmente com a glicerina. Dá para refletir - caso Nixon tivesse vencido, se não diriam que o suor teria sido fundamental para a vitória. E na eventualidade de Collor ter sido derrotado, será que a explicação não teria sido o fato de ter suado.

Vale a pena como treinamento de observação para o aprendizado da arte de falar em público assistir a esses debates. Você encontrará com facilidade em buscas pela internet. Observe como os candidatos apresentaram esse comportamento que acabei de mencionar. Avalie também se esses indicadores teriam sido suficientes para determinar o resultado daquelas eleições.

Não digo que esses detalhes não possam influenciar o voto dos eleitores, mas julgo que motivos mais relevantes, como a reputação, as realizações, as circunstâncias políticas que cercam o candidato sejam mais determinantes. Por isso, talvez, os candidatos líderes de intenção de votos na corrida eleitoral à Prefeitura de São Paulo, exceto Russomanno neste último da Record, tenham se apresentado no debate com tanta cautela.

Nunca ao longo dos 40 anos em que preparo candidatos para concorrerem ao cargo de prefeito recebi tantos alunos como nessas eleições. Alguns chegaram para as aulas com discurso vazio e sem consistência. Pedi que colhessem informações corretas sobre o que diziam. Quem não conseguiu no momento obter essas informações com sua assessoria teve de retornar à sua cidade com essa tarefa antes de continuar o treinamento.

Se não sabem quantos leitos há no hospital, quanto tempo de espera uma pessoa tem de ficar na fila aguardando para ser consultada, quantos alunos estão fora das escolas no seu município, quanto ganha um professor, qual é a situação física das unidades de ensino, como podem pregar melhoria na saúde ou na educação?

Essa coerência do discurso com a realidade é que pode dar ao candidato a credibilidade que precisa para receber o voto dos eleitores. Falar com veemência ajuda. Gesticular de maneira correta também contribui. Fazer pausas expressivas e pronunciar bem as palavras promove a imagem do candidato. Mas o que dá voto mesmo é ser e parecer sincero e verdadeiro nas propostas que faz.   

Ah, prestei bastante atenção nos candidatos durante os debates da sexta-feira e do domingo, não notei suor em nenhum deles. Estavam aparentemente muito tranquilos. Quase todos possuem larga experiência para enfrentar as câmeras de televisão. Esse traquejo com certeza deu a eles a segurança que precisam em circunstâncias tensas como essa.

Se, entretanto, os embates continuarem esquentando como ocorreu com as trocas de acusações neste domingo, e parece que esquentarão muito, por mais experientes que sejam, provavelmente, surgirão as primeiras gotas de suor. Será que esse fato ajudará ou prejudicará na corrida eleitoral dos candidatos?

Superdicas da semana

- Ao falar tenha em mente que a coerência é que dá credibilidade

- Aproveite os debates políticos para aprender sobre o que dá resultado nos discursos

- Ao participar de um debate ou discussão de ideias procure neutralizar todos os argumentos contrários

- Se um argumento não for refutado, ele poderá prevalecer na avaliação final

Livros de minha autoria que ajudam a refletir sobre esse tema: "29 Minutos para Falar Bem em Público", publicado pela Editora Sextante, e "Assim é que se Fala", "Oratória para advogados", "Conquistar e Influenciar para se Dar Bem com as Pessoas", "As Melhores Decisões não Seguem a Maioria" e "Como Falar Corretamente e sem Inibições", publicados pela Editora Saraiva.

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Reinaldo Polito

Autor de 25 livros que venderam mais de 1 milhão de exemplares, dá dicas de expressão verbal para turbinar sua carreira.

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