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Lula x Moro cara a cara. Quem vencerá o debate neste grande encontro?

Reinaldo Polito

Reinaldo Polito

  • Arte/UOL

Dia 10 está aí. Talvez um dos momentos mais aguardados nos últimos tempos pelo povo brasileiro. O encontro cara a cara do Juiz Sérgio Moro e do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Briga de gente grande. De um lado, um juiz acostumado a inquirir como se jogasse xadrez. De outro, um político traquejado nos embates mais turbulentos.

Como Moro se comporta

Moro é um estrategista da retórica. Até as perguntas aparentemente ingênuas que faz tem razão de ser. Lá na frente a resposta será usada como base para uma nova pergunta. Se o arguido não se der conta da armadilha e morder a isca, pouco depois descobrirá que aquela negligência pode ser fatal para sua tática de defesa.

Moro não se altera. Fala de maneira mansa e pausada. Pergunta como se estivesse interessado em ajudar o interlocutor. Orienta com serenidade que comportamento a pessoa deve ter para que não se comprometa. Na verdade, a cada instante está jogando a rede para envolver a "vítima".

Como Lula se comporta

Lula é uma velha raposa. Ficou calejado com os embates que empreendeu por décadas como expoente sindicalista, madrugando nas portas das fábricas. Adquiriu admirável respaldado na experiência como presidente do país, tendo de negociar com os líderes das maiores nações do mundo. Lula consegue prever com bastante antecedência as armadilhas retóricas que poderão surgir ao longo de um debate.

Às vezes chega a simular uma simplicidade que nem possui, mas que permite maior aproximação com as grandes massas. Até certos erros gramaticais que haviam sumido da sua comunicação, em certas circunstâncias, quando é conveniente para ele, "ressuscitam" para compor um quadro mais favorável.

As metáforas são sua especialidade. Nunca perde a oportunidade para usar o futebol e o churrasco como exemplos que garantem a compreensão da plateia e acentuam ainda mais sua imagem de homem simples, que fala a linguagem do povo. A gesticulação acentuada é própria para dar ainda mais emoção à mensagem.

Na verdade, vejo Lula mais como hábil negociador que como debatedor. Não o vi levando muita vantagem nos debates de que participou. Se analisarmos bem cada uma das contendas verbais em que esteve presente como candidato, se não perdeu, também não pode ser considerado como grande vencedor. Em alguns casos saiu derrotado. Como verdadeiro "animal político", entretanto, venceu eleições.

Qual a diferença na comunicação de Lula e Moro?

Dia 10 o encontro terá em lados opostos duas personalidades totalmente distintas. Lula fala com eloquência. Usa linguagem simples, de fácil compreensão até pelas pessoas mais incultas. Ele se vale de exemplos até singelos para endireitar uma linha de raciocínio nem sempre lógica e concatenada. Sua veemência passa a ideia de que tem razão, até quando os fatos demonstram que talvez esteja equivocado.

Moro tem outro estilo. Em determinados momentos sua fala é até hesitante. Sua voz não é tão potente e, em alguns instantes, produz pausas excessivamente prolongadas. Passa a ideia de uma certa inibição. Para compensar essa falta de eloquência, conta com preparo admirável e uma linha de raciocínio que beira à perfeição. Sua postura elegante e gestos moderados emprestam à sua figura a credibilidade que a função do juiz exige.

Ele está em posição mais confortável. Embora esse seja o caso da sua vida, um fracasso nesse interrogatório não destruirá sua carreira. Com certeza se apresentará de forma serena, tranquila, respeitosa. Para obter as respostas de Lula, não precisará de empolgação oratória. Por sinal, excetuando-se raríssimos momentos, este juiz tão bem preparado não se alterou em suas intervenções.

Como será o debate

Lula chegou a pedir debate aberto transmitido pelas câmeras de televisão. A justificativa é que assim seriam evitados vazamentos seletivos e que ele não seria visto de maneira enfraquecida, como tem ocorrido em outros interrogatórios, quando a câmera focaliza apenas o depoente. O que parece, entretanto, é que ele deseja mesmo tirar o interrogatório do campo técnico e levar o debate para o cenário político. E quem sabe assim conquistar a solidariedade da população.

Parece que isto não ocorrerá. Moro negou esse pedido, mas os advogados de Lula continuam insistindo. É quase certo que Moro não permitirá a Lula fazer do interrogatório um palanque político. Se tudo ocorrer como o previsto, exigirá que o ex-presidente se atenha às questões relacionadas ao motivo do interrogatório.

De um jeito ou de outro, entretanto, além do interesse político e judicial, todos nós poderemos aprender com a comunicação desses dois protagonistas da história brasileira contemporânea. Lula, de um lado, tentando se defender. Moro, de outro, procurando descobrir se há ou não culpabilidade no ex-presidente. Vale a pena acompanhar.

Superdicas da semana

  • Dizia um velho professor de retórica: quando não tiver razão, grite.
  • Todas as pessoas têm o direito de lutar até as últimas forças para se defender.
  • As táticas utilizadas pelos operadores do direito e na política servem para a vida corporativa
  • Além da prática, a melhor forma de aprender oratória é observar os bons oradores.

Livros de minha autoria que ajudam a refletir sobre esse tema: "29 Minutos para Falar Bem em Público", publicado pela Editora Sextante. "Assim é que se Fala", "Conquistar e Influenciar para se Dar Bem com as Pessoas", "As Melhores Decisões não Seguem a Maioria" e "Como Falar Corretamente e sem Inibições", publicados pela Editora Saraiva. "Oratória para líderes religiosos", publicado pela Editora Planeta.

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Reinaldo Polito

Autor de 25 livros que venderam mais de 1 milhão de exemplares, dá dicas de expressão verbal para turbinar sua carreira.

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