Depois de 12 anos, Lula e Palocci usam o mesmo recurso de defesa

Reinaldo Polito

Reinaldo Polito

Talvez nem Lula tenha se dado conta da coincidência. Ao falar em Curitiba diante do juiz Sergio Moro, na última quarta-feira (13), lançou mão de um recurso para se defender das acusações feitas por Antonio Palocci muito semelhante ao utilizado pelo mesmo ex-ministro da Fazenda 12 anos atrás.

Palocci sempre foi ótimo comunicador. Por ironia do destino, essa mesma capacidade de se expressar em público, que já foi tão útil a Lula, hoje se transformou no maior pesadelo na vida do ex-presidente.

Na época em que era ministro da Fazenda, em 2005, Palocci teve de enfrentar várias acusações. Uma das mais graves foi protagonizada pelo seu ex-secretário de Governo na Prefeitura de Ribeirão Preto Rogério Buratti. A acusação era a de que, na primeira gestão como prefeito, de 1993 a 1996, Palocci recebia propina mensal de R$ 50 mil de empresas que participavam, de forma fraudulenta, das licitações para coleta de lixo em municípios em São Paulo e Minas Gerais.

Se pensarmos bem, esse episódio já poderia ser um prenúncio das delações que hoje se tornaram tão comuns. Essa acusação grave caiu como uma bomba sobre a imagem do ministro e do governo Lula. A denúncia não era feita por uma pessoa qualquer, mas sim por alguém que mantinha amizade com Palocci e seus familiares.

Esse é um ponto que deve ser observado: Palocci foi acusado por um amigo. Passados 12 anos, o mesmo Palocci inverteria a posição e também faria acusações contra um amigo, delatando supostos malfeitos de Lula. 

Vamos recordar alguns fatos para compreendermos melhor a semelhança das estratégias utilizadas nos dois casos.

Palocci acusado em meio ao Mensalão

Temos de lembrar que, nessa época em que Palocci era acusado, o chamado escândalo do "Mensalão" obrigava Lula a espernear para preservar sua imagem. Portanto, qualquer informação negativa que pudesse atingir a imagem de um ministro do seu governo poderia dar dimensões ainda mais devastadoras àquela situação.

Sendo assim, as explicações rápidas e convincentes do ministro da Fazenda eram extremamente importantes. Vários episódios se entrelaçavam, e o deslize em um deles poderia ser fatal.

Só para entender bem o contexto. Palocci era acusado pelo seu ex-secretário de governo e amigo pessoal. Lula tentava mostrar que não sabia nada sobre o Mensalão, mesmo que os crimes tivessem sido cometidos por pessoas do seu governo, com as quais convivia praticamente todos os dias.

Derrubar os argumentos da acusação

Palocci reuniu a imprensa para uma entrevista coletiva. Iniciou fazendo um pronunciamento de cerca de meia hora, rebatendo item por item todas as acusações feitas contra ele. Depois que concluiu as alegações iniciais, se colocou à disposição dos jornalistas por mais uma hora e meia para que perguntassem o que desejassem. Demonstrava, dessa forma, que estava seguro da sua posição.

Como havia rebatido de maneira detalhada todos os pontos da acusação, pouco restava para que os jornalistas perguntassem. Quase sempre as questões eram respondidas com as informações que já havia prestado, ou seja, uma repetição da defesa já feita.

Embora as acusações de Buratti se mostrassem graves, foram apresentadas sem provas consistentes. Seguindo a cartilha da boa comunicação, quando os argumentos são frágeis, inconsistentes, devem ser expostos ao mesmo tempo, como uma única ideia, para que ganhem força e tenham mais peso. Foi assim que o acusador se comportou.

A defesa do ministro foi exemplar, uma verdadeira aula de contra-argumentação. Separou e isolou cada um dos argumentos, já que, se a força acusatória estava na união das informações, isoladas, se tornavam enfraquecidas, desprotegidas e, assim, facilmente destruídas.

Quebra da expectativa

Outro ponto relevante. A economia brasileira estava em um de seus melhores momentos. Palocci aproveitou para fazer um balanço positivo das conquistas do governo. Poderia dar a impressão de que pretendia, assim, permanecer no cargo, pois esse desempenho econômico ocorria sob sua batuta.

Antes que alguém pudesse acusá-lo de tentar defender sua posição no cargo, pegou todos no contrapé. Disse que as instituições do país estavam tão sólidas que, mesmo se saísse do governo, não haveria descontinuidade, nem prejuízo.

Sua estratégia foi tão sutil que ninguém poderia acusá-lo de defender sua própria manutenção no cargo.

Comparação com Lula

Palocci também afirmou, de maneira enfática, que não havia cometido nenhum crime. Nem ele nem qualquer colaborador do seu governo.

Era evidente que os jornalistas não perderiam a oportunidade de comparar a sua situação com a do então presidente Lula.

Por isso, habilmente, deixou uma porta de saída para essa eventualidade. Fez a ressalva de que, num quadro com dez mil pessoas, um ou outro caso isolado poderia ocorrer sem o conhecimento do gestor.

Não deu outra. Um jornalista fez a comparação tentando pegá-lo pela palavra. Indagou, em tom acusatório, que, se ele afirmava que o responsável pelo governo não deixaria de perceber as faltas graves cometidas pelos subordinados, significava que o presidente Lula tinha pleno conhecimento dos desmandos cometidos pelos seus comandados.

Tranquilo, Palocci saiu pela porta que havia deixado aberta para esse questionamento: "Posso falar com o coração: o presidente Lula não sabia de nada, nem conhecia muitas das pessoas envolvidas nos escândalos. Como eu disse, fatos isolados, vez ou outra, podem passar despercebidos ao responsável pelo governo".

Tática cirúrgica

Para enfraquecer ainda mais as acusações daquele que fora seu amigo, foi mais uma vez cirúrgico.

Ele se valeu da mesma tática que Lula usaria anos mais tarde para se defender de seus ataques.

Disse não ter ódio de Buratti pelas acusações que recebeu. Disse que apenas ficou surpreso, mas que entendeu o momento de desespero vivido pelo ex-assessor, no instante em que estava preso e algemado.

Troca de papéis

Pois é, hoje a situação foi totalmente invertida. Lula usa os mesmos argumentos que Palocci usou para se defender de Buratti. Não negou a amizade que tiveram, e reafirmou sua admiração por ele: "Eu tenho uma profunda amizade com o Palocci há mais de 30 anos, não é coisa de um dia, sabe? O Palocci foi meu ministro da Fazenda e prestou um grande serviço a esse país", disse.

Em outro momento enfatizou ainda: "Eu mantive relação, e gosto do Palocci".

Para justificar a atitude de Palocci, Lula usou praticamente a mesma argumentação que seu ex-ministro usara para explicar a denúncia de Buratti.

"O Palocci está preso há mais de um ano, o Palocci tem o direito de querer ser livre, tem direito de ficar com o pouco do dinheiro que ganhou fazendo palestra, tem o direito de ficar com a família", disse Lula.

Feita essa consideração, em seguida, com o intuito de se defender, usou o conhecimento que possui sobre o ex-ministro para desqualificá-lo: "Eu conheço bem o Palocci. Se não fosse um ser humano, ele seria um simulador. Ele é tão esperto que é capaz de simular uma mentira mais verdadeira que a verdade. Palocci é médico, calculista e frio".

Coincidências ou não à parte, vale a pena ressaltar a grande diferença de cenário que vivenciamos. Hoje Lula e Palocci não estão mais no poder. A Lava Jato ganhou vida própria. A pressão da mídia e da população está mais aguerrida e indignada com os casos de corrupção. Não vale para a situação atual apenas o jogo de palavras, a esperteza política, nem a emoção simulada do orador. Os fatos jurídicos são frios, e o julgamento se sustenta no que compõe os autos do processo.

Falar bem e ter habilidade oratória é condição importante para cada momento da nossa vida, mas em circunstâncias como essa, nem a eloquência e o carisma de Lula, nem a precisão de raciocínio de Palocci poderão ajudá-los, se o que disserem não encontrar respaldo na verdade.

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Superdicas da semana

  • A boa oratória só prevalece se a mensagem tiver apoio da verdade
  • Quem fala bem, mas não respeita a verdade, pode ser considerado um bom ator, não um orador
  • Apresente argumentos consistentes um a um, separadamente
  • Apresente argumentos frágeis todos ao mesmo tempo

Livros de minha autoria que ajudam a refletir sobre esse tema: "29 Minutos para Falar Bem em Público", publicado pela Editora Sextante. "As Melhores Decisões não Seguem a Maioria", "Oratória para advogados", "Assim é que se Fala", "Conquistar e Influenciar para se Dar Bem com as Pessoas" e "Como Falar Corretamente e sem Inibições", publicados pela Editora Saraiva. "Oratória para líderes religiosos", publicado pela Editora Planeta.

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Reinaldo Polito

Autor de 25 livros que venderam mais de 1 milhão de exemplares, dá dicas de expressão verbal para turbinar sua carreira.

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